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O Olhar da Coruja
A falta de confiança está a destruir o teu negócio com Natalia Novikova | EP 21
Negócios
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Episódio 21
Sobre o episódio
Neste episódio do Olhar da Coruja, recebo a Natália Novikova, solicitadora e fundadora da Novikova.pt, para uma conversa sobre recomeços, escolhas e a vontade constante de aprender. Do desafio de mudar de país ao de aprender uma nova língua, da banca à solicitadoria, a Natália partilha como a aprendizagem foi o fio condutor que a ajudou a reinventar-se, pessoal e profissionalmente. Falámos sobre confiança, estímulo, identidade e sobre o prazer de ver negócios (e pessoas) a crescer.
Dos 15.000 km ao restaurante à beira da estrada
A Natália chegou a Portugal aos 19 anos, vinda da parte da Rússia que faz fronteira com a China e o Japão. O plano original era viajar até Paris com uma amiga. Acabou a viver em Leiria, sem falar português, sem telemóvel e sem rede de suporte. Trabalhava num restaurante fora da cidade e, quando não conseguia boleia, ia e voltava a pé.
Esta parte da história podia parecer dramática, mas a Natália conta-a com uma naturalidade desarmante. Porque quando não tens opções, não tens tempo para dramatizar. Ages. Arranjas trabalho. Aprendes a língua. Sobrevives. E essa sobrevivência inicial, feita de turnos no restaurante e caminhadas pela Nacional à noite sem perceber porque é que os carros buzinavam, moldou uma resiliência que viria a ser o seu maior activo profissional.
E há um detalhe que desmonta um mito comum: quando lhe perguntam como aprendeu português, a resposta habitual é "via novelas". Mentira. Ela própria o assume. Aprendeu a estudar. Com cadernos, com exercícios, com dicionários, a pedir às colegas que lhe corrigissem cada frase. O primeiro livro que leu em português foi As Filhas da Droga, o único que encontrou em casa. Palavra a palavra, com dicionário ao lado. Não foi sorte, não foi imersão passiva. Foi trabalho.
Três carreiras numa vida (e nenhuma foi planeada)
O percurso profissional da Natália parece inventado de tão improvável. Estudava psicologia na Rússia. Quando decidiu ficar em Portugal e percebeu que ninguém ia contratar uma psicóloga russa que mal falava português, pensou: vou para engenharia informática, assim não preciso de falar com ninguém. Mas não tinha equivalência na matemática. A única alternativa sem esse requisito? Solicitadoria. Um curso inteiro de direito, em português, para alguém que ainda confundia "até amanhã" com "até manhã".
Entrou como única candidata no concurso para estrangeiros. No primeiro dia de aulas, direito constitucional, não percebeu quase nada. O director do curso desafiou-a a terminar, convencido de que não ia conseguir. Terminou. Com boas notas. E 15 anos depois, voltou à mesma profissão, desta vez a sério.
Pelo meio, trabalhou quase 15 anos na banca, onde aprendeu a vender, a falar com o público, a gerir clientes e a lidar com pessoas de todos os perfis. Nenhuma destas experiências foi desperdiçada. A psicologia dá-lhe a capacidade de ler pessoas. O direito dá-lhe o conhecimento técnico. A banca deu-lhe a confiança para comunicar e a disciplina para gerir processos. Tudo se juntou quando, num dia de férias na praia, um telefonema mudou tudo.
O telefonema que valeu três ordenados numa semana
Estava de férias quando um conhecido lhe pediu para traduzir umas reuniões de negócios em Lisboa. Aceitou. Passou uma semana a traduzir, a aprender sobre áreas que desconhecia, a conhecer gente nova. E nessa semana ganhou três vezes o que ganhava num mês no banco.
O clique não foi imediato. Mas a semente ficou plantada. Se numa semana de tradução conseguia isto, o que é que conseguiria se montasse algo seu? A ideia de empreender já existia, mas faltava-lhe aquilo que lhe faltou durante toda a vida em Portugal: confiança. Não confiança nos outros. Confiança nela própria.
A insegurança que te impede de entrar no Porsche
Uma das histórias mais reveladoras deste episódio é a do carro. A Natália sempre quis um Porsche cor de rosa. Mas nunca entrou num stand da marca porque achava que não era para ela. Não por falta de dinheiro. Por falta de permissão interna. Aquela voz que diz: "Isso não é para ti. Quem é que tu pensas que és?"
Quando finalmente entrou, descobriu que o carro custava muito menos do que imaginava. Que faziam financiamento normalmente. Que ninguém a julgou por estar ali. Tudo o que a separava daquele objectivo era a história que ela contava a si própria. E esta é talvez a maior lição deste episódio, porque se aplica a tudo: ao carro, ao negócio, à carreira, à vida.
Quantos empresários não entram num mercado porque acham que "não é para eles"? Quantas pessoas não se candidatam a uma oportunidade porque a insegurança lhes diz que não vão conseguir? A maior objecção que enfrentamos não vem do mercado. Vem de nós. E aprender a lidar com essas objecções internas é tão importante quanto aprender a lidar com as dos clientes.
Construir um negócio a partir do zero (outra vez)
Quando a Natália decidiu sair da banca e abrir o seu escritório de solicitadoria, o primeiro passo foi estudar outra vez. Aos 40 anos. 15 anos depois de ter terminado o curso, com as leis todas diferentes. Inscreveu-se na Ordem, fez o estágio, passou os exames. Tudo isto enquanto trabalhava e era mãe.
Depois veio a procura do escritório. Queria um edifício específico em Leiria, com segurança à porta, como um que tinha visto numa reunião no Estoril. Não havia salas para arrendar, só para comprar. Insistiu. Perguntou a toda a gente. E no primeiro dia depois de sair do banco, às 6 da manhã, encontrou o anúncio no Idealista. 250 euros de renda, exactamente naquele edifício. Às 9 já estava a ligar para marcar visita.
Hoje já mudou de escritório porque o primeiro ficou pequeno. A equipa cresceu, toda a falar russo, porque o público dela é a comunidade russa e ucraniana em Portugal. Já organiza eventos de negócios para essa comunidade. E quando lhe perguntei se se sentia realizada, a resposta foi honesta: "Ainda não. E tenho até medo de me sentir realizada, porque se me sentir, o que é que vou fazer depois?"
É esta fome permanente de mais que a mantém a avançar. Não mais dinheiro. Mais estímulo. Mais concretização. Mais prazer de fazer. Porque, como ela disse, tudo o que faz, faz pelo estímulo, não pelo dinheiro. Se fosse pelo dinheiro, não faria nem metade. É o mesmo combustível que alimenta qualquer empreendedor que constrói algo com significado, e é a base do que trabalhamos na imersão CHECKMATE: Liderança: encontrar o que te move para lá do resultado financeiro.
A confiança não vem antes da acção
Se há um fio condutor nesta conversa toda, é este: a Natália nunca esperou ter confiança para agir. Agiu e a confiança apareceu pelo caminho. Não falava português e foi trabalhar. Não percebia direito constitucional e sentou-se na aula. Não se achava capaz de ser solicitadora e inscreveu-se na Ordem. Não se achava digna de um Porsche e entrou no stand.
Cada pequena vitória desbloqueou a seguinte. A confiança não é um pré-requisito. É uma consequência. E isto é particularmente importante para quem lidera pessoas, porque os colaboradores também têm estas inseguranças. Também acham que certas coisas não são para eles. Também precisam de alguém que lhes diga "experimenta, e depois vê o que acontece". Perceber isto é o que distingue um líder que empodera de um líder que apenas delega, e essa diferença faz-se sentir nos resultados das equipas que construímos.
A história da Natália é a prova viva de que não precisas de estar pronta para começar. Precisas de começar para, um dia, te sentires pronta. E mesmo quando te sentires pronta, continua a haver mais para aprender, mais para conquistar, mais para construir. Porque, como ela disse com um sorriso no final: o universo faz as suas contas.

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