Podcast O olhar da coruja

PODCAST

O Olhar da Coruja

A tua equipa também tem sonhos por realizar com Rúben Teixeira | EP 22

Liderança

Episódio 22

Sobre o episódio

Neste episódio do Olhar da Coruja, sentei-me à conversa com o Ruben Teixeira, designer da Digital Elevation, para uma partilha aberta e descontraída sobre objectivos, desafios e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Falámos sobre inseguranças, a importância das pequenas vitórias, o que nos motiva todos os dias e como lidamos com mudanças e adversidades. Partilhei alguns dos meus momentos de viragem, os conselhos que dou (mas nem sempre sigo) e até alguns guilty pleasures. Entre histórias engraçadas, reflexões sobre resiliência e a procura por propósito, este episódio mostra o lado humano de quem está por trás do trabalho e das relações.

O designer que queria ser polícia de investigação criminal

O Ruben começou a trabalhar em design sozinho em casa aos 14 anos. Abria o programa, copiava trabalhos que admirava e tentava recriá-los para perceber o processo. Sem tutoriais, sem atalhos. Aprender fazendo, com os problemas que aparecem pelo caminho, é como ele diz que aprendeu mais. E é interessante perceber que essa lógica se aplica a tudo na vida: quem só segue instruções aprende a executar, quem enfrenta os problemas aprende a pensar.

Mas antes do design, havia outro sonho: polícia de investigação criminal. Não pelo uniforme ou pela acção, mas pelo comportamento humano. O que o fascinava era perceber como é que alguém chega a determinados extremos. O que acontece no cérebro. O que levou àquela decisão. É uma curiosidade que, sem ele se aperceber, transpira para o trabalho que faz hoje, porque design é, no fundo, perceber como as pessoas pensam, o que compreendem, o que as confunde, o que as move.

Acabou por não seguir essa carreira. Mas partilhámos uma reflexão honesta: será que viver todos os dias naquele mundo não seria desgastante demais? É a diferença entre admirar algo de fora e vivê-lo por dentro. Nem tudo o que nos fascina nos serve como profissão. E aceitar isso não é desistir, é ter lucidez.

O conselho que eu daria aos meus 18 anos (e aos meus 46)

O Ruben pediu-me que desse um conselho ao meu eu de 18 anos. A resposta saiu sem pensar: vai em frente e não vivas com tanta ansiedade em relação ao futuro. Não me arrependo das escolhas que fiz, mas se pudesse mudar alguma coisa, teria vivido de forma mais prazerosa, menos agarrada ao medo do que vai acontecer.

E depois acrescentei algo que me surpreendeu a mim própria: este conselho é válido para a Regina de 46, não só para a de 18. Porque a verdade é que nós nunca deixamos completamente de antecipar, de stressar com o que vem a seguir, de sentir que tudo é urgente. A diferença é que aos 18 tudo parece o fim do mundo. Aos 46, já sabemos que não é, mas continuamos a reagir como se fosse.

A lição que partilhei é simples mas brutal: aquilo que parece insuportável hoje, amanhã vai parecer leve. E aquilo que achávamos que queríamos aos 18, aos 30 já nem faz sentido, porque apareceram oportunidades que nem sabíamos que existiam. Portanto, não faz sentido viver em ansiedade com um futuro que nem vai acontecer como imaginamos. Vive o agora. Curte o que estás a viver. Porque a próxima experiência só vai ter valor se tiveres aproveitado esta.

As pessoas julgam-nos por uma frase

Houve um momento na conversa que me deixou a pensar durante dias. O Ruben perguntou-me que imagem é que eu achava que as pessoas tinham de mim à primeira vista. E a resposta é perturbante: muitas pessoas acham que sou rude, fria e bruta.

Eu sei que sou o oposto disso. E faço um esforço, às vezes até excessivo, para ser mais dura quando preciso, porque naturalmente não sou. Mas a verdade é que nós fazemos juízos de valor sobre as pessoas por uma frase, por um comportamento, por um tom de voz num momento específico. E decidimos que aquilo é a pessoa inteira. Ela disse aquilo, portanto é assim. E isto é tão injusto como é inevitável.

O contrário também acontece. Idolatramos pessoas por aquilo que vemos delas em público e depois descobrimos que a realidade é completamente diferente. Falei do exemplo de figuras mediáticas que admiramos à distância e que, quando as conhecemos melhor, nos desiludem. Conhecemos tão pouco das pessoas em relação ao que elas realmente são, que qualquer conclusão rápida é, quase por definição, enviesada.

É por isso que eu não tenho ídolos. Admiro áreas específicas da vida de algumas pessoas, mas idolatrar alguém na totalidade não faz sentido, porque nunca temos informação suficiente para isso. E esta consciência é importante para quem lidera: as primeiras impressões mentem. Sempre. O líder que julga um colaborador por um comportamento isolado está a cometer o mesmo erro que o público comete connosco. E o preço disso pode ser perder alguém extraordinário por uma leitura errada.

Se começasse do zero, começava pela estrutura

O Ruben quis saber o que é que eu faria diferente se pudesse recomeçar no mundo dos negócios. A resposta foi imediata: tudo muito mais estruturado desde o início. Processos, cultura, departamentos, regras claras com liberdade dentro delas. Tudo o que se torna exponencialmente mais difícil de implementar quando já tens 20, 30, 50 pessoas.

A dificuldade não é criar uma empresa. É estruturá-la. É perceber que uma empresa é muito mais do que constituí-la e decidir o que vais vender. É definir quem responde a quem, como fluem as decisões, que cultura queres construir. E quanto mais tarde fazes isso, mais resistência encontras, porque as pessoas já criaram os seus hábitos e as suas formas de funcionar.

Mas fui honesta com uma nuance importante: quem está a começar não sabe isto. Só tem consciência de que precisa de estrutura quando já está a passar pelas dificuldades da falta dela. É por isso que os empresários com 100 funcionários tiram mais valor de uma formação sobre gestão do que quem está a começar com três pessoas. Não porque o conteúdo seja diferente, mas porque a dor já foi sentida. E o mesmo princípio aplica-se a tudo: desde como estruturar uma empresa com um organograma claro até como delegar sem perder o controlo. O conhecimento só ganha peso quando a necessidade é real.

A preguiça disfarçada de equilíbrio

Uma das partes mais provocadoras desta conversa foi sobre sedentarismo e preguiça. O Ruben perguntou como é que eu via o mundo daqui a 30 anos, e a conversa desviou para um tema que me irrita: a forma como estamos a confundir equilíbrio com inactividade.

Temos vidas sedentárias. Passamos o dia sentados no escritório, chegamos a casa e sentamo-nos outra vez. Ao sábado vamos para a esplanada e ficamos sentados. Ao domingo o mesmo. E depois reclamamos que temos dores nas costas, que estamos cansados, que não temos energia. Três horas por semana no ginásio não compensam as outras 165 horas em que o corpo não se mexe. Não chega.

E a parte que mais me faz confusão: confundimos cansaço mental com cansaço físico. Estamos exaustos da cabeça e decidimos não fazer nada para o corpo descansar. Quando, na verdade, o exercício físico é exactamente o que o cérebro precisa para relaxar. Em vez disso, vamos para o sofá ver séries ou passar uma hora no TikTok, que cansa o cérebro ainda mais. A preguiça que dizemos não ter, temo-la em tudo o que realmente importa.

Isto liga-se directamente à liderança. Quantos líderes reclamam de falta de energia para gerir equipas, mas não investem na sua própria saúde física? Quantos empresários dizem que não têm tempo para nada, mas passam três horas por dia em redes sociais sem se aperceberem? O equilíbrio real não é trabalhar menos. É gastar energia nas coisas certas. E isso é um tema que merece mais atenção do que lhe damos, tanto na vida pessoal como na forma como lideramos as nossas equipas.

Ser lembrada por ser como sou

Perto do final, o Ruben perguntou-me como é que eu gostaria de ser lembrada. E a resposta é a mesma que tenho dado noutros episódios, porque é genuína: não quero ser lembrada por aquilo que conquistei. Quero ser lembrada por como sou.

Por ser alguém que gosta de pessoas. Que faz o que pode para ajudar quem está à volta. Que consegue gerir negócios com emoções, sem o peso de "vamos conquistar só para ser conhecida por aquilo que se conquista". Porque isso é sempre um bocado fútil. O caminho é muito mais bonito do que a meta. E o impacto que tens nas pessoas ao longo do caminho é muito mais duradouro do que qualquer prémio ou reconhecimento.

Aliás, partilhei com o Ruben que tenho dois livros na cabeça. Um sobre liderança, com os capítulos já todos pensados. E outro, muito mais pessoal, sobre mim, daqui a 20 anos. Porque acho que é importante falarmos de liderança com mais profundidade e menos buzzwords. E porque um dia gostava de olhar para trás e pôr no papel tudo o que vivi, sem filtros.

Mas se o meu superpoder pudesse ser um, seria ler mentes. Não para controlar ninguém, mas para perceber o que vai realmente na cabeça das pessoas e como é que posso ajudá-las a não passarem por certas necessidades. É uma extensão do que já faço todos os dias, só que com resultados garantidos. Até lá, continuo a fazer como sempre fiz: perguntar, ouvir e tentar perceber o que está por trás daquilo que as pessoas dizem.

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