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O Olhar da Coruja
Como gerir expectativas da equipa no dia a dia com Tiago Silva | EP 16
Liderança
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Episódio 16
Sobre o episódio
Este é mais um episódio do Olhar da Coruja em que sou eu a responder às perguntas da equipa. Desta vez o entrevistador é o Tiago Silva, Head of Funnels na Agência Get Digital e que trabalha comigo há quase três anos. Falámos sobre felicidade, sobre o que mais me realiza, sobre como é crescer uma empresa sem pressa e investir com cabeça, sobre a dor de empreender que ninguém vê de fora, e sobre aquilo que eu diria a alguém que quer começar um negócio mas ainda não tem coragem para o fazer.
Ser feliz não é andar aos saltos o dia todo
O Tiago perguntou-me se me considero uma pessoa feliz. Considero. Mas ser feliz não é o que a maior parte das pessoas imagina. Ser feliz não é andar com alegria a toda a hora. É saber que a vida tem dias bons e dias menos bons e não ficar presa nos menos bons.
Eu acredito que sou eu quem tem de lutar pela minha felicidade. Se o dia está a ser menos bom, eu tenho de fazer alguma coisa para ele melhorar. Olhar para os desafios como desafios e não como tragédias. Influenciar o meu cérebro a ver as coisas com leveza, a dizer "tá tudo bem, mesmo quando não tá tudo bem, porque a gente vai fazer com que fique". Às vezes uma conversa, uma brincadeira, chega para aliviar o peso e começar a ver as coisas de outro ângulo.
Isto não quer dizer que fujo das coisas más. Quando é mau, é mau. E eu vivo isso, sofro, passo por aquele momento. Mas é passar por aquele momento, não é ficar naquele momento. A diferença entre as pessoas que crescem e as que estagnam é exactamente esta: umas enfrentam, processam e seguem. Outras instalam-se na dor e ficam lá.
O que mais me realiza: ensinar a pescar
O Tiago já sabia a resposta antes de a fazer, mas perguntou na mesma: o que é que mais me realiza? Ajudar pessoas. Mas não no sentido de dar. No sentido de motivar, ensinar, ajudar a crescer.
Há uma diferença enorme entre dar algo a alguém e dar-lhe ferramentas para ela crescer sozinha. Quando dás algo a alguém, ajudas no momento. No dia seguinte, já passou. Quando partilhas conhecimento, quando mudas um pensamento, quando motivas alguém a querer mais, esse efeito dura anos. Às vezes parece que a pessoa não ouviu, não quis saber. Mas passados meses, passados anos, percebes que houve ali alguma coisa que tu ajudaste a plantar.
Como diz aquela frase do Pai Rico, Pai Pobre: dá um peixe a um homem e alimenta-o por um dia. Ensina-o a pescar e ele tem comida para a vida toda. Não faças as pessoas felizes só para hoje. Ensina-as a ser felizes na vida delas. É isso que me preenche. E, confesso, foi uma surpresa bonita ouvir o Tiago citar esta frase, porque quando ele chegou a esta empresa, não lia livros. Encontrou o tipo de livros certo e isso mudou-lhe o mindset por completo. É a prova viva de que o conhecimento certo, no momento certo, transforma.
Grandes demais para ser pequenos, pequenos demais para ser grandes
O Tiago perguntou-me se me sinto realizada. Sinto. Mas estamos numa fase de empresa desafiante: somos grandes demais para ser pequenos e pequenos demais para ser grandes.
É um tamanho incómodo, porque não te encaixas em lado nenhum. Parar pode significar estagnar. Mas o salto pode ser demasiado grande. E a tentação de duplicar tudo de uma vez é enorme. Só que duplicar uma equipa significa ter o dobro das pessoas a fazer dois terços do trabalho durante meses. O crescimento financeiro não acompanha a velocidade do crescimento da equipa. E quando entram três ou quatro pessoas ao mesmo tempo, a integração na cultura torna-se muito mais difícil do que quando entra uma.
Eu prefiro correr uma maratona do que fazer um sprint. Crescer consistentemente, todos os meses, nos próximos 10, 15, 20 anos. Não é crescer muito o mês que vem e depois logo se vê. É criar algo que fique quase como um legado, que produz, que mantém pessoas, que faz crescer pessoas. Sem muita pressa. Ser feliz no processo, usufruir da vida ao mesmo tempo, porque eu não sei quanto tempo ela dura.
Isto exige planeamento estratégico a sério, não planos bonitos numa folha de cálculo que ninguém volta a abrir. É pensar no ritmo certo, na estrutura certa, nas pessoas certas, no investimento certo. E aceitar que há fases em que o progresso é lento, mas sólido.
Investir com cabeça: o equilíbrio entre risco e segurança
O Tiago quis saber que tipo de investidora sou. Sou intermédia. Gosto de investir, mas não gosto de investir tudo numa coisa. Faço um risco ponderado: imobiliário, acções, negócios, e uma poupança que sei que não é um investimento, mas que me garante que consigo agir no imediato se for preciso.
A lógica é simples: se uma área correr mal, tenho outra que se mantém equilibrada. Se essa também correr mal, tenho uma terceira que me dá segurança. É ter sempre três ou quatro pilares diferentes para não ficar dependente de um só.
Eu não quero ficar rica amanhã. Quero viver confortável a vida toda. E se possível ficar rica também, mas que seja uma coisa consistente. Não é o PPR que vai pagar a minha reforma. É o trabalho a longo prazo, os vários tipos de negócios, uns mais imediatos e outros mais estruturais. E há uma coisa que eu faço que talvez seja à moda antiga, mas que é não negociável para mim: mais facilmente pago um salário com dinheiro meu do que deixo um salário por pagar. Porque o investimento mais importante de qualquer negócio são as pessoas que o constroem. E para gerir este equilíbrio entre o que entra e o que sai sem perder o sono, é preciso dominar a gestão de tesouraria com disciplina, não com sorte.
Ninguém é empreendedor sem sentir dor
A conversa virou para o empreendedorismo quando o Tiago me perguntou o que diria a alguém que quer empreender mas não tem coragem. A primeira coisa que lhe digo é: já validaste a ideia?
Muita gente avança para um negócio porque dois ou três amigos disseram "se tu tivesses, eu comprava". E os amigos dizem isto e nunca compram. Quando não validamos a ideia, apostamos tudo numa convicção que só nós temos. O risco é enorme. Mas quando validas, quando percebes que o público quer, que o mercado está preparado, ganhas uma motivação extra que te dá a coragem que faltava.
A segunda coisa que digo é: rodeia-te das pessoas certas. Não dos amigos que dizem "mora lá, vai" só porque são amigos. Das pessoas que conseguem ponderar prós e contras, que te fazem perguntas desconfortáveis, que te dizem a verdade sem medo que fiques chateado. Essas pessoas protegem-te muito mais do que te prejudicam. Pode doer, mas cresce muito.
E a terceira: aceita que ninguém te vai aplaudir por teres uma boa ideia. Na nossa sociedade, quando tens uma ideia, dizem que não vai dar. Quando começa a funcionar, dizem que tens a mania das grandezas. Quando chegas lá acima, dizem que tiveste muita sorte. Ninguém te aplaude porque estás a tentar. Isso só acontece quando tens sucesso, e mesmo aí, muita gente continua a dizer que foi sorte. Se ficares à espera de aplausos para avançar, não vais a lado nenhum. Vai pela tua cabeça.
Porque a verdade é que ninguém é empreendedor sem sentir dor. Empreender é muito mais doloroso do que parece. Tem momentos de incerteza, de insegurança, de sacrifício. De fora, só se vê a pessoa a sorrir. Não se vê como está a conta bancária, como é que vai ser o dia de amanhã, o que é que se passa por dentro. Criou-se esta ideia de que ser patrão é trabalhar poucas horas e fazer o que se quer. Mentira. O adulto não faz o que quer. Faz o que precisa de ser feito. E é exactamente esta mentalidade que separa quem lidera de quem apenas gere. A imersão CHECKMATE: Liderança existe para trabalhar isto: a capacidade de tomar decisões difíceis, de motivar quando tudo parece estar contra, e de construir algo maior do que nós próprios.
A coruja que vê no escuro
O Tiago perguntou-me porque gosto tanto de corujas. Além da sabedoria, que é o significado mais óbvio, o que me fascina na coruja é a capacidade de ver no escuro. Nos momentos de escuridão, tens de conseguir ver onde está aquilo que precisas e onde está o alvo que precisas de acertar para que o dia de amanhã seja melhor.
A coruja está no canto dela, em silêncio, a fazer o que precisa de fazer. Passa despercebida. Não é um animal que vês todos os dias. Mas quando actua, actua com precisão. E é assim que eu gosto de estar nos negócios: com visão ampla, com paciência, em silêncio quando é preciso, e com a capacidade de agir no momento certo. Sem pressa. Mas sem parar.

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