

PODCAST
O Olhar da Coruja
Como lidar com erros e frustrações na equipa com Tiago Mendes | EP 18
Liderança
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Episódio 18
Sobre o episódio
Este é mais um episódio do Olhar da Coruja em que sou eu a ser entrevistada, desta vez pelo Tiago Mendes, Funnel Builder na Agência Get Digital e um dos membros da equipa que melhor me conhece. Três anos de trabalho juntos, conversas até à uma da manhã, jantares e muita história partilhada. O Tiago trouxe-me perguntas sobre superação, liderança controladora, erros, frustrações e heróis. E o resultado foi uma conversa crua sobre aquilo que nos molda, o que nos trava e como é que escolhemos reagir quando o corpo e a cabeça dizem que já não dá mais.
O BTT e a arte de olhar só para a roda
O Tiago começou por me perguntar sobre o impacto do BTT na minha vida. É um desporto que marcou muito uma fase minha e que me ensinou lições que uso todos os dias nos negócios, mesmo já não praticando.
O BTT é um desporto brutalmente individual e brutalmente mental. Não há equipa para te carregar. Estás tu, a bicicleta, a montanha e a decisão de continuar ou parar. E eu quase desisti duas vezes. Duas vezes o corpo disse que já não aguentava mais, que não havia energia absolutamente nenhuma. Numa delas, foi o meu primo que me empurrou montanha acima, literalmente, mão nas costas, duas pedaladas de cada vez, até ao fim.
E percebi uma coisa que hoje aplico a tudo: quando treinas de noite, consegues fazer o mesmo percurso com muito mais facilidade do que de dia. Porquê? Porque de noite não vês a montanha. Não vês quanto falta. Estás a olhar só para a roda, a viver o momento, a superar-te ao segundo. De dia, olhas para cima, vês que ainda faltam 5 km de subida, e o cérebro diz: "Não vai dar." O obstáculo não mudou. Mudou a forma como o vês.
Nos negócios é a mesma coisa. Quando olhas para o objectivo final e ele parece impossível, o cérebro trava. Quando focas no próximo passo, nas próximas duas pedaladas, no que podes fazer agora, chegas lá. Não porque o caminho ficou mais curto, mas porque deixaste de te sabotar com a dimensão do que falta.
E há outro dado que me ficou para sempre: quando o teu cérebro diz que estás no limite, ainda tens 40% de capacidade física. O corpo aguenta muito mais do que a mente permite. A questão é aprenderes a educar o teu cérebro a não desistir na primeira dificuldade. Não estou a dizer que devemos ignorar os nossos limites. Estou a dizer que a maior parte de nós desiste muito antes de os atingir.
O cansaço mental não se resolve no sofá
O Tiago partilhou que usa a corrida como escape e eu aproveitei para falar de uma coisa que acho fundamental: nós podemos escolher qual é o nosso escape, e devemos escolhê-lo de forma consciente.
Quando trabalhas sentado o dia inteiro, o teu cansaço é 99% mental. Se chegas a casa e vais para o sofá ver Netflix, o teu cansaço mental só vai aumentar. O que o teu corpo precisa é de esforço físico para que o cérebro consiga relaxar. É o inverso do que a maioria das pessoas faz. Quem tem um trabalho fisicamente exigente precisa de estimular o cérebro, de ler, de estudar, de descansar o corpo. O equilíbrio entre as duas coisas é que nos mantém saudáveis. Escolhe o teu escape de forma que ele te acrescente, não que te deixe mais frustrado.
O desporto foi sempre para mim quase uma meditação. No BTT, havia momentos em que não pensava em absolutamente nada a não ser "eu tenho de conseguir, porque se fico aqui sozinha, não sei sair daqui". Essa presença total, esse foco absoluto no momento, é a melhor forma de descansar a cabeça. E depois no fim? Sentes-te dona do mundo. Fizeste isto. O teu corpo conseguiu responder. E essa sensação alimenta tudo o resto.
A liderança que fecha cabeças (e o clique que as abre)
Uma das perguntas mais intensas do Tiago foi sobre liderança controladora. Ele confessou algo poderoso: que antes de trabalhar connosco, tinha o cérebro completamente fechado. Nos trabalhos anteriores, ninguém lhe perguntava a opinião. Ninguém lhe pedia ideias. A lógica era simples: "Eu é que mando, eu é que sei, vocês só operam."
Quando chegou à nossa empresa e alguém lhe perguntou "como é que achas que devíamos fazer isto?", foi uma bomba na cabeça dele. Não estava habituado. Não sabia reagir. E levou tempo a destrancar essa mola.
Líderes controladores são, na esmagadora maioria, pessoas extremamente inseguras. A insegurança projecta-se em agressividade, em controlo, em microgestão. Se eu achar que sei tudo e que sei fazer tudo da melhor forma, vou bloquear a criatividade de toda a gente à minha volta. Tudo vai ser feito sempre da mesma forma, só com o meu conhecimento. E o meu conhecimento tem limites, como o de qualquer pessoa.
Eu não acredito que sei tudo. Preciso que as pessoas me tragam inovação, melhorias de processos, formas diferentes de pensar. Contrato pessoas adultas, com responsabilidades de adultos. Não faz sentido nenhum estar a controlar o que cada um faz, quando faz e a que horas termina. Não há empreendedorismo sem inovação. Não há inovação sem teste. E não há teste quando as pessoas são formatadas para fazer exactamente o que já se faz há 50 anos.
O resultado desta cultura controladora é visível em todo o lado. As pessoas falam do trabalho com frustração. Mudam de emprego e vão para outro sítio idêntico. Ficam uma vida inteira a fazer algo que não as preenche, porque nunca lhes foi dada a oportunidade de serem elas próprias. E este é um problema que ainda está muito enraizado no tecido empresarial. Construir uma cultura onde as pessoas possam ser quem são, contribuir com o que sabem e crescer ao seu ritmo é o trabalho mais difícil e mais importante de qualquer líder, e é exactamente isto que desenvolvemos na imersão CHECKMATE: Liderança.
Os erros são meus e eu lido mal com eles
O Tiago perguntou-me como é que lido com erros e frustrações. Fui honesta: lido muito melhor com os erros dos outros do que com os meus.
Quando alguém da equipa erra, tenho a capacidade de dizer: "Deixa lá, é normal, és um ser humano, amanhã fazes melhor." Quando sou eu a errar, revolto-me. Acho que devia ter estudado mais, que devia ter percebido antes, que devia ter feito diferente. Esse "devia" é pesado. Hoje já faço algum trabalho de aceitar que é normal, que errar faz parte, mas confesso que ainda fica a remoer durante muito tempo.
Com as frustrações, cada vez lido melhor. Já percebo que são momentâneas. A frustração vem das expectativas, e quanto mais fantasia pomos nas expectativas, maior é a queda. Se eu estava à espera de um resultado que não aconteceu, preciso de trazer racionalidade para perceber se a expectativa era sequer realista. Se não era, a frustração é criada por mim, não pela situação.
E há uma coisa que aprendi: quanto mais tempo remexemos na frustração, mais tempo ela dura. E quanto mais tempo ela dura, mais erros cometemos, mais frágeis nos sentimos, mais incomodados ficamos. Podemos encurtar essa duração. Não é fácil. Não é dizer "pronto, já passou" e esquecer. Mas é trazer o racional, perguntar "posso fazer alguma coisa para mudar isto?" e, se a resposta for não, aceitar que estamos vivos e seguir. Perceber estes ciclos de reacção e aprender a quebrá-los faz parte do glossário de competências que qualquer líder deveria dominar. E não se trata apenas de gerir as nossas emoções: é saber criar um ambiente onde a equipa também possa errar, aprender e melhorar sem medo de ser julgada, usando ferramentas de gestão que libertem tempo para o que realmente importa: as pessoas.
Dois heróis e nenhum ídolo
O Tiago pediu-me para falar dos meus heróis e dos meus ídolos. Heróis, tenho dois. Ídolos, nenhum.
O primeiro herói é o meu pai. Durante toda a minha infância e adolescência, eu via-o como a pessoa mais calma do mundo. Nada o abalava. Nada o fazia perder a compostura. E eu, que era "a respondona", que tinha sempre resposta para tudo, que extrapolava com facilidade, moldei-me muito à personalidade dele. Hoje sei que o meu pai não era tão calmo como eu pensava. Era o que ele me aparentava. Mas foi muito bom ter crescido a acreditar nisso, porque essa ilusão deu-me uma direcção: aprende a gerir as emoções, a não extrapolar, a reagir com mais tranquilidade.
O segundo herói é o Paulo. Trouxe-me o inverso: leveza. Uma forma de ver tudo de forma mais simples. Correu mal? Correu mal, depois vê-se. Teve uma ideia? Já está feita antes sequer de estruturar. E tudo bem, depois melhora-se. Confesso que ainda não consigo ver as coisas com a leveza dele, mas essa influência equilibrou-me. Um moldou a minha reacção. O outro moldou a minha perspectiva. E o meu filho ensinou-me a aceitar que nem tudo será como eu quero, e que tudo bem com isso na mesma.
Quanto a ídolos, não tenho. Não consigo idolatrar alguém por inteiro quando existe sempre um "mas". Há pessoas que admiro em determinadas áreas, génios da tecnologia, da sabedoria, do desporto. Mas para eu considerar alguém meu ídolo, teria de querer replicar essa pessoa. E até hoje, não encontrei ninguém sem um valor ou um comportamento que chocasse com os meus. Não é ser demasiado exigente. É ser honesta sobre o que admiro e o que não aceito. Referências, tenho muitas. Ídolo, ainda não.
A coruja no braço (e na cabeça)
O Tiago tem uma coruja tatuada no braço. Perguntei-lhe porquê e a resposta fechou o episódio de forma bonita: porque a coruja é um animal da noite que consegue ver de várias perspectivas. E ele, à noite, tem os pensamentos mais criativos. É quando revê o dia, quando pensa "se calhar reagi mal aqui, se calhar reagi bem ali". É a sua forma de rodar a cabeça 270 graus e ver cada situação de ângulos diferentes.
Partilhamos o mesmo animal. E, no fundo, partilhamos a mesma crença: de que o crescimento vem de olharmos para as coisas de mais do que um lado. De aceitarmos que erramos. De reconhecermos que não sabemos tudo. E de continuarmos a pedalar, mesmo quando o corpo diz que já não dá, porque sabemos que ainda temos 40% para dar.

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