Podcast O olhar da coruja

PODCAST

O Olhar da Coruja

Reclama, mas faz: As dificuldades de aplicar o que fala com Carina Carvalheiro | EP 4

Liderança

Episódio 4

Sobre o episódio

Este é mais um episódio do Olhar da Coruja em que sou eu a responder às perguntas da equipa. Desta vez é a Carina Carvalheiro, CFO do Artha Group, a nossa directora financeira, que está connosco há 8 anos. Oito. A Carina conhece os bastidores financeiros de tudo o que já criámos e de tudo o que já fechámos. Falámos sobre o que teria sido da minha vida se o marketing não tivesse aparecido, sobre o negócio que ainda me falta criar, sobre o péssimo hábito de dizer que sim a tudo e sobre a frase que me guia: somos responsáveis pelas nossas escolhas.

Se o marketing não tivesse aparecido

A Carina começou com uma pergunta que eu nunca tinha pensado a sério: se o marketing não tivesse aparecido na minha vida, o que é que eu estaria a fazer?

A verdade é que o marketing não foi uma escolha. Foi o universo a dizer "acabou este rumo, agora vais ter de aprender outra coisa." Foram 16 anos ligada às obras, à arquitectura, à construção. Estava inclusive a estudar engenharia civil quando tudo mudou. Não foi uma decisão minha. Foi a vida a empurrar-me para outro caminho.

Se não fosse o marketing, provavelmente estaria ligada às obras de outra forma. Interiores, talvez. Decoração. Porque é uma coisa que continua a apaixonar-me. Criar negócios, sim, isso ia acontecer de qualquer maneira, mas provavelmente em áreas completamente diferentes. É engraçado como nunca pensei muito nisto. O que teria sido a minha vida sem o marketing? Não sei. Mas sei que a paixão por criar estaria lá na mesma.

O negócio que ainda me falta ter

A Carina perguntou-me qual é o negócio que eu ainda não tive mas que gostava de ter. E a resposta veio sem hesitar: a área das obras, da reconstrução e da remodelação.

Não o imobiliário no sentido clássico de construir do zero. Isso não me entusiasma tanto. O que me apaixona é pegar em algo que já foi usado, que já teve um desenho, que alguém utilizou de uma forma, e transformá-lo noutra coisa. Descobrir possibilidades que ainda não foram tidas em consideração. Mudar a planta, mudar a função, mudar a vida daquele espaço. Já temos feito algumas remodelações para projectos nossos e cada uma delas confirma que esta é uma paixão real, não apenas uma fantasia.

Se os dias tivessem 48 horas, provavelmente já existia esse negócio. É talvez a área que mais me apaixona fora do que já faço. E a Carina, com aquele sentido prático que só uma directora financeira tem, disse logo: "Espero que estejas preparada para aprenderes a gerir contas de mais uma área de negócio." Ao que eu respondi: "É nos países que tu quiseres que eu aprendo." Porque neste momento temos negócios em três países diferentes e a Carina aprende a legislação e a gestão de tesouraria de cada um deles para conseguir acompanhar tudo. E o mais difícil não é aprender. É desligar daquilo que fazemos cá. Aceitar que noutro país é tudo diferente. Que o que é óbvio aqui não faz sentido ali. E que sempre que surge alguma coisa lá fora, a primeira reacção é "meu Deus, como é que isto se resolve?"

O péssimo hábito de dizer que sim a tudo

A Carina perguntou-me se já alguma vez respondi "sim, claro" a alguém e depois fui ver do que se tratava porque nem tinha percebido bem o que estava a aceitar. Tantas vezes. Tantas.

Tenho um péssimo hábito de dizer que sim a tudo. E estou a trabalhar nisso. Mas há uma dualidade aqui que é difícil de resolver. Uma parte de mim diz que sim porque quer agradar a toda a gente. A outra diz que sim porque adora desafios. E a segunda é a mais perigosa, porque a primeira resposta que me aparece quando alguém me pede alguma coisa ou me convida para alguma coisa é "sim, claro, bora lá". E depois penso: e agora? O que é que eu vou ter de fazer? O que é que eu vou ter de aprender? Onde é que eu me fui meter?

E começa aquele ciclo: muita pesquisa, muito estudo, muito desenrasque para conseguir fazer coisas que aceitei de cabeça sem pensar nas consequências. Mas o engraçado é que as coisas acabam por correr bem. E no final penso: ainda bem que disse que sim. Ainda bem que fui. Correu tão bem.

No pré, reclamo. No pós, agradeço. É um bocadinho assim. É aquela ansiedade antes de cada desafio, aquela voz que diz "porque é que eu me meti nisto?", seguida da satisfação de ter feito e de ter aprendido mais uma coisa que não sabia. E se eu aprender a dizer que não, vou deixar de viver muitas coisas que me estimulam. Mesmo que reclame delas quando estou mais cheia de trabalho. Porque como nunca vai ser o momento certo, acaba por ser sempre o momento certo.

Somos responsáveis pelas nossas escolhas

A Carina perguntou-me se existe alguma frase ou lema que me acompanhe na vida. Somos responsáveis pelas nossas escolhas. É o meu lema. E a equipa ouve-me falar disto constantemente.

Nós gostamos muito de colher. Gostamos muito pouco de semear. E quando a colheita não funciona, responsabilizamos os outros. Mas se eu não semeei, como é que posso colher? Posso culpar quem eu quiser. Posso responsabilizar o mercado, a economia, os clientes, os colaboradores. Mas no fundo, o único responsável fui eu que não fiz a sementeira, que não reguei, que não cuidei. E sou eu que não vou colher, por responsabilidade minha.

Este lema aplica-se a tudo. Às escolhas que me deixam feliz e às que me deixam triste. Porque às vezes as minhas escolhas também me deixam triste. E está tudo bem. Há sempre uma aprendizagem, seja qual for o resultado. Nem que seja aprender a aceitar que fiz uma escolha que não correu bem. Aceitar que não sei tudo. Aceitar que está tudo bem ter começado da forma mais desorganizada. Porque o "se eu tivesse feito assim" não resolve absolutamente nada. Já não consigo voltar lá. Então aceito que fiz da melhor forma que sabia naquele momento. Hoje sei mais, sei fazer melhor, então vou fazer melhor.

Se soubesse o que sei hoje, teria organizado tudo desde o início

A última pergunta da Carina foi das mais importantes: com a experiência e o conhecimento que tens hoje, terias feito alguma coisa diferente?

Teria. Não sinto um peso por ter feito as coisas como fiz. Mas a organização das empresas foi algo que eu podia ter começado de forma muito melhor. A estrutura empresarial, os processos, a forma como se gerem os negócios, tudo isso podia ter sido mais estruturado e mais intencional desde o primeiro dia.

Se eu recuar ao ano 2000, havia muito pouco conhecimento sobre como gerir negócios. Mesmo em 2012, 2013, havia muito pouca forma de saber como se fazia. Ou fazias uma licenciatura que todos sabemos que ensina muito pouco sobre a prática da gestão, ou aprendias por tentativa e erro. Como é que se lideram pessoas? Como é que se gerem equipas? Há 15 anos, falava-se muito pouco sobre isso. Há 10 anos, ainda se falava muito pouco.

Então eu sabia o que sabia. Algumas coisas eram muito por intuição. E é isso que me causa alguma pena: não ter começado de uma forma muito mais estruturada e muito mais intencional. Nós sempre tivemos uma cultura muito boa nas empresas. Mas essa cultura teve muito mais a ver com quem nós somos do que com uma intenção deliberada. E se tivesse havido intenção desde o início, se alguém me tivesse dito "organiza isto assim, documenta aquilo assado, cria processos para esta função", teria sido muito melhor.

A Carina disse-me uma coisa no final que eu apreciei: "Dizes que não sabias tudo e que não sabias tudo desde o início, mas foste sempre à procura de saber mais e de fazer melhor. Isso tem de ser valorizado." E tem. Porque a alternativa era ficar parada a lamentar que não sabia. E eu preferi sempre avançar com o que tinha, aprender pelo caminho e corrigir à medida que ia percebendo o que podia ser melhor.

É exactamente isto que eu levo para a imersão CHECKMATE: Liderança: a convicção de que não é preciso saber tudo para começar. É preciso começar para saber mais. E que a diferença entre quem cresce e quem estagna não está no ponto de partida, está na vontade de semear todos os dias, mesmo quando a colheita demora. Mesmo quando as escolhas nos deixam tristes. Mesmo quando a primeira reacção é reclamar. Porque no pré reclamamos, mas no pós agradecemos. E esse ciclo, quando bem vivido, é o que nos faz evoluir.

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