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O Olhar da Coruja
Como conquistar o respeito da equipa sendo jovem com Joana Carmo | EP 17
Liderança
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Episódio 17
Sobre o episódio
Neste episódio do Olhar da Coruja, recebo a Joana Carmo, directora de operações da Agência Get Digital. A Joana entrou na empresa como gestora de redes sociais e cresceu até ao cargo que ocupa hoje. É jovem. É líder. E é filha dos patrões. Falámos sobre os desafios de construir credibilidade quando tens 20 e poucos anos, sobre o preconceito de quem olha para ti e acha que tudo te foi dado, sobre o equilíbrio entre emoções pessoais e responsabilidades profissionais, e sobre o que significa liderar quando o peso de decepcionar não recai só sobre ti, mas sobre toda a família.
De social media a directora de operações: um percurso que ainda não acabou
A Joana não começou como directora de operações. Começou a gerir redes sociais. E foi percorrendo um caminho dentro da empresa, batendo com a cabeça várias vezes, aprendendo a lidar com as quedas e construindo, passo a passo, a confiança de quem a rodeia. Quando lhe perguntei como foi essa passagem de jovem adolescente a líder de uma equipa inteira, a resposta foi clara: é um percurso que nunca vai acabar.
Não é uma frase feita. A Joana vive-a todos os dias. Aprende com a equipa, aprende connosco, aprende com os erros. E tem a humildade de reconhecer que é muito nova e que precisa de fazer muito trabalho interno para conseguir estar à altura daquilo que a equipa precisa dela. A estratégia dela não tem sido aprender a trabalhar com os outros. Tem sido aprender a trabalhar consigo própria. Porque percebeu que, se souber lidar melhor com as suas emoções, vai ter mais capacidade para ajudar os outros quando eles precisam.
Isto, para quem lidera, é uma maturidade rara. A maioria dos líderes foca-se em gerir os outros e esquece-se de se gerir a si próprio. A Joana, com toda a juventude que tem, faz o inverso. Isola-se, arruma as coisas nas "gavetinhas" mentais, organiza-as com calma, sem se precipitar a tomar decisões ou a ter reacções. Nem sempre foi assim, confessa. Mas está no caminho certo.
A idade não decide quem lidera. A vontade sim.
Uma das perguntas que lhe fiz foi se ser jovem tem sido mais vantajoso ou desvantajoso para liderar. A resposta dela resume uma verdade que muita gente esquece: não é tanto pela idade, mas pelo espírito e pela vontade que se tem.
A Joana acredita que toda a gente consegue tudo aquilo que quiser, se fizer por isso. E antes que alguém grite "isso não é verdade", ela própria faz a ressalva: há limitações biológicas, há coisas que o corpo não permite, há realidades que não se alteram. Mas quando se trata de querer, estudar, estar presente, ouvir e fazer acontecer, a idade é profundamente irrelevante. O que conta é se estás disposto a dar o que é preciso para chegar lá. E mesmo que não chegues exactamente onde querias, chegas muito perto. O psicológico manda muito nisso, dá-nos a capacidade de acreditar e de continuar a mover-nos.
Como é que ela construiu credibilidade e respeito dentro da equipa? Mostrando que gosta de fazer. Mostrando que gosta de resultados. Estudando, viajando para aprender, investindo no seu próprio crescimento de forma visível. Muitos membros da equipa acompanharam esse crescimento de perto e valorizam-no. Outros nem tanto. Mas o respeito não se exige. Conquista-se. E conquista-se com consistência, não com discursos.
O preconceito que ninguém assume: ser filha do patrão
Houve um momento nesta conversa em que precisei de tocar num tema que sei que é doloroso, mas que é vivido em milhares de empresas familiares: o preconceito de ser filha do patrão.
A Joana foi directa. O que mais a magoa é o não ser vista, o não ser valorizada, porque as pessoas olham para ela como um dado adquirido. Como se o cargo lhe tivesse sido dado, não conquistado. Como se o percurso inteiro, de social media a directora de operações, não existisse. Há pessoas que têm orgulho no que ela conquistou. E há pessoas que simplesmente não a vêem.
Hoje lida bem com isso. Já foi difícil, mas aprendeu que a opinião de quem não reconhece o seu mérito diz muito mais sobre essa pessoa do que sobre ela. E o conselho que dá a outros jovens na mesma posição é poderoso: se fizeste por estar onde estás, não te deixes afectar por quem acha que não fizeste. O sonho de continuar um negócio de família é tão legítimo como o de criar um do zero. E quem pega num negócio com história, com cultura já implementada, com expectativas já criadas, enfrenta um tipo de pressão que quem começa de raiz não tem.
Porque a responsabilidade é diferente. Quando um colaborador erra, falha com o patrão. Quando a Joana erra, falha com o patrão e com a mãe e com o pai. E isso não é a mesma coisa. O peso de decepcionar é multiplicado. O medo de fazer asneira é maior. E a exigência, mesmo que não seja consciente, é mais elevada.
Eu defendo sempre que pegar numa empresa que já tem cultura, que já tem uma história, que foi criada com objectivos por outra pessoa, é mais pesado do que começar um negócio do zero. Tem vantagens, claro, há estrutura, há experiência acumulada, há caminho feito. Mas não tem só prós. E quem vive esta realidade sabe que o rótulo de "filho do patrão" é um fardo que se carrega todos os dias, independentemente do quanto se trabalha para provar o contrário. Aprender a gerir essa pressão emocional e estratégica através de métricas claras ajuda a objectivar o que muitas vezes se torna demasiado pessoal.
Inovação dentro de uma cultura que já existia
Perguntei à Joana como é que equilibra a necessidade constante de inovação numa área digital com as tradições de uma empresa familiar. A resposta surpreendeu-me pela maturidade: ela não olha para a empresa como empresa familiar. Olha para ela como qualquer outra empresa onde o objectivo é crescer.
Esta separação mental é intencional e saudável. Permite-lhe procurar melhorias de processos, alterar métodos de reuniões, apresentar fórmulas novas sem sentir que está a trair a história da empresa. Já tem alguma autonomia para o fazer, o que a alivia. E reconhece que nunca sentiu que houvesse algo tão enraizado que a impedisse de evoluir.
A visão dela para o futuro não difere da geração anterior. Quer manter o caminho como está, porque acredita que é um caminho bonito. Gosta da união que existe, da proximidade entre as pessoas, do facto de saberem que, se precisarem, alguém vai estar lá. "Não somos uma família", diz ela, "porque família todos temos em casa. Mas somos muito próximos." E essa distinção é importante. Tratar uma equipa como família pode criar dependências emocionais que, a longo prazo, prejudicam. Tratar uma equipa como pessoas próximas que partilham uma missão cria resultados. É esta a cultura que construímos e é esta a cultura que trabalhamos na imersão CHECKMATE: Liderança, para que cada líder encontre o ponto de equilíbrio entre proximidade e profissionalismo.
De ratinho de escritório a pessoa com vida própria
A Joana confessou algo que muitos jovens em cargos de liderança vão reconhecer: já foi ratinho de escritório. Saía todos os dias à meia-noite. Vivia para o trabalho. E o trabalho é viciante, porque te habituas àquele ritmo e depois é difícil abrandar.
Hoje está num ponto diferente. Consegue passar mais tempo com os cães, que adora. Consegue sair com amigos, ir a concertos, ir a festas. Consegue fazer coisas que o ano passado não conseguia. Mas reconhece que precisou de passar pela fase do ratinho de escritório para perceber que aquilo não era sustentável. Nem saudável. Porque o trabalho tem uma tendência a piorar quando não lhe pões travão.
O equilíbrio entre vida pessoal e profissional não é um destino. É uma gestão constante. E para quem ocupa cargos de responsabilidade, exige muita disponibilidade, não só de tempo, mas mental e emocional. A Joana está a aprender a dar-se esse espaço. A olhar para si e dizer: "Faz as tuas coisas também, porque não é só trabalho."
Calma, porque tudo se faz
O conselho que a Joana dá a quem assume um cargo de liderança jovem é simples e poderoso: calma, porque tudo se faz.
Quanto mais quisermos estar em todo o lado e fazer tudo ao mesmo tempo, mais em parafuso entramos. Se pararmos, pensarmos e idealizarmos onde queremos chegar, com calma conseguimos lá chegar. E se é isso que a pessoa sonha, deve correr atrás, independentemente do que os outros gostariam que ela fizesse. Nem que o sonho seja o mais improvável do mundo. Se é a fazer aquilo que te revês, é por aí que deves seguir.
Uma senhora muito sábia disse-lhe, quando era pequena: "Se tu quiseres, tu consegues." E a Joana vive essa frase. Não como uma promessa mágica, mas como um compromisso consigo própria. Querer não basta. Mas querer e fazer por isso muda tudo. E quando as pessoas à tua volta não te vêem, quando o preconceito pesa, quando a responsabilidade aperta, quando as emoções transbordam, a resposta continua a ser a mesma: calma. Arruma as gavetinhas. Faz o teu caminho. E se precisares de ferramentas para organizar o percurso, não tenhas vergonha de as usar. Ninguém chega a lado nenhum sozinho.

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