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O Olhar da Coruja
Como criar reconhecimento no teu nicho com Rafael Parreira | EP 5
Negócios
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Episódio 5
Sobre o episódio
Neste episódio do Olhar da Coruja, recebo o Rafael Parreira, co-fundador da P&A Legal e da Legal Factor, mestre em solicitadoria, ex-professor universitário e presença regular na televisão como dirigente da Ordem dos Solicitadores. O Rafael e o sócio Cláudio decidiram revolucionar a forma como as pessoas acedem à informação jurídica, e o caminho que percorreram para lá chegar tem tanto de inspirador como de desconfortável. Falámos sobre como a autoridade mudou do desconhecimento para a partilha, sobre a mentalidade que impede Portugal de crescer, sobre o que significa ser empresário num país que trata empresas como criminosas, e sobre a diferença entre empreender e transformar-se em empresário.
A autoridade já não se constrói com segredos. Constrói-se com partilha.
Antigamente, a autoridade de um profissional jurídico vinha do facto de as pessoas saberem muito pouco. O senhor doutor era soberano porque tu sabias tão pouco que alguém com um bocadinho mais de conhecimento era automaticamente uma referência. A autoridade era trabalhada com base no desconhecimento.
O Rafael virou isto ao contrário. A P&A constrói autoridade com base na partilha de conhecimento. Dão informação gratuita, explicam leis complexas em linguagem simples, publicam conteúdos que ajudam as pessoas a perceber os seus direitos e deveres. E quando lhe perguntei se alguém poderia evitar os serviços da P&A consumindo todo o conteúdo que eles partilham, a resposta foi honesta: se alguém juntar todas as peças do puzzle e for suficientemente autodidata, admito que sim. Mas a realidade é outra. O conteúdo é fraccionado, as pessoas apanham pedaços soltos, e quando percebem que precisam de ajuda profissional, já sabem o suficiente para entender o que estão a comprar.
Isto é verdadeiro serviço público. Porque num país onde a lei diz que não podes alegar desconhecimento da lei, mas não te facilita o acesso a ela, alguém tem de fazer essa ponte. E eu acho que o trabalho da P&A, tanto na internet como na televisão, é exactamente isso: dar às pessoas informação que elas deviam ter por direito mas que o sistema nunca lhes entregou de forma compreensível.
"Culpamo-nos pelos factores externos e desculpamo-nos pelos factores internos"
Esta frase do Rafael foi das mais certeiras do episódio. Tendemos a culpar-nos por factores externos que não controlamos e a desculpar-nos por factores internos que controlamos. É um contra-senso que se vê em todo o lado.
O empresário que se queixa da economia quando o problema está na gestão interna. O profissional que culpa o mercado quando não investe na sua própria formação. O solicitador que diz que não tem clientes porque a ordem profissional não lhe deu competências, quando na verdade nunca fez nada para se dar a conhecer.
O Rafael foi professor universitário durante anos e a coisa que mais dizia aos alunos finalistas era directa: vocês não sabem nada. Não por serem maus alunos, mas porque existe a ilusão de que ser bom tecnicamente é suficiente para ter sucesso. Numa área com tanta dificuldade de empregabilidade, ser muito bom a fazer actos notariais não garante nada se ninguém souber que tu existes. É preciso tanto reconhecimento quanto conhecimento. Primeiro o conhecimento, para depois teres reconhecimento. E quem não estiver disponível para o trabalho que dá ser reconhecido, que entre numa organização que faça isso por ele. Nenhum dos caminhos é melhor que o outro. São escolhas. Mas a autoconsciência tem de existir.
O país que trata empresas como criminosas
A conversa sobre o tecido empresarial português foi a mais longa e a mais intensa do episódio. E começou com uma frase simples do Rafael: gostava que as empresas não fossem vistas como criminosas.
Não se queixa do montante de impostos. Nem da percentagem. O problema é a malha complexa de taxas sobre taxas que torna impossível prever fiscalmente a posição para o ano seguinte. E se ele, com literacia jurídica e financeira acima da média, tem esta dificuldade, imaginem quem não tem formação nenhuma nesta área e apanha surpresas a cada trimestre.
Mas o que mais o magoa é a mentalidade. Num país onde se ganhas 80 mil euros por ano és considerado rico, onde a vizinhança deseja que o teu carro se avarie, onde as pessoas ficam felizes quando alguém bem-sucedido cai, é difícil sentir orgulho em empreender. O Rafael contou a história da sua família: foram de não ter nada a ter sete ou oito carros e casas de férias, e voltaram a não ter nada. Quando tinham, o avô foi acusado de traficar droga. Quando perderam tudo, ouviram "bem feita, tinham mania das grandezas". Ele próprio, quando comprou o primeiro carro novo a pronto, disse a toda a gente que estava a pagar prestações. Porque sabia que a verdade lhe custaria mais do que a mentira.
Este é o retrato de um país onde o empreendedorismo existe, a criatividade é brutal, mas a mortalidade empresarial é enorme porque a barreira inicial é gigante e o sistema não ajuda quem a tenta ultrapassar. Temos muitas empresas que nascem e muitas que morrem antes de chegar a qualquer coisa. E o Rafael fez um paralelo que eu considero dos mais justos que já ouvi: o trabalhador que ganha 900 euros, trabalha 10 horas por dia e é maltratado pelo patrão está na mesma medida de sofrimento que o microempresário que leva 2 mil euros ao final do mês depois de trabalhar não só as 10 horas com a equipa, mas também à noite a tratar de contabilidade, de linhas de crédito e de preocupações que nunca acabam. As empresas não são todas o demónio. Os trabalhadores não são todos o demónio. Mas há demasiados de ambos os lados que são infelizes, e isso tem de mudar.
Quem lidera equipas sabe que esta realidade complica tudo: se o líder está preocupado com a sobrevivência financeira, é difícil ter capacidade emocional para gerir pessoas. E se não investe em gerir pessoas, os melhores talentos vão embora. É um ciclo que só se parte com planeamento estratégico real, com números conhecidos e com a coragem de olhar para o básico antes de procurar técnicas milagrosas.
De empreendedor a empresário (e a sensação de underdog)
O Rafael fez uma distinção que me ficou: está feliz a transformar-se de empreendedor em empresário. São coisas diferentes. Empreender é criar. Gerir uma empresa é sustentar, escalar, estruturar. E esse processo de transformação vem com um choque: percebes que és incompetente em muitas coisas que nunca imaginaste.
Quando começou, sentia-se o underdog. A sensação de "não consigo, não consigo". Até que veio o ponto de viragem: então agora vou conseguir. Esse momento em que a frustração se transforma em combustível é o que separa quem desiste de quem continua. E o Rafael vive isto com muita consciência, porque a P&A já passou a fase de sobrevivência e está agora na fase de crescimento estruturado, com SOPs definidos, escritórios em expansão e uma equipa que precisa de processos claros para funcionar sem depender dos fundadores a cada decisão.
Pequenos sonhos que alimentam o sonho maior
No final, o Rafael disse algo que me emocionou. Contou que conheceu a mim e ao Paulo à distância, através do Clubhouse, em 2021. E que naquele momento era quase um sonho poder um dia sentar-se connosco a conversar sobre negócios. Não um sonho utópico. Um pequeno sonho realizável. E esses pequenos sonhos, quando se vão concretizando, alimentam o sonho maior que nenhum de nós sabe bem descrever mas que, no fundo, é a felicidade.
A mensagem que ele deixou é a que eu mais gosto de ouvir: acreditem que estas coisas podem acontecer. Tenham pequenos sonhos. Subam os degraus um a um. Porque não é preciso chegar ao topo de uma vez. É preciso subir cada degrau com consciência, com esforço e com a convicção de que o próximo passo vale sempre a pena, mesmo quando dói. É exactamente isto que fazemos na imersão CHECKMATE: Liderança: ajudar empresários a darem o próximo passo, por mais pequeno que pareça, com a certeza de que cada passo é o caminho para o sonho maior.

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