Podcast O olhar da coruja

PODCAST

O Olhar da Coruja

Empresas com alma têm melhores resultados com Mário Ribeiro | EP 13

Negócios

Episódio 13

Sobre o episódio

Neste episódio do Olhar da Coruja, recebo o Mário Ribeiro, terapeuta de corpo e alma, fundador do Espaço Portal e criador do projecto Empresas com Alma. O Mário já foi empresário na área da restauração e ginásios. Um dia, parou tudo. Trocou o mundo de fora pelo mundo de dentro. Falámos sobre o que nos faz mudar de rota, sobre o silêncio como ferramenta de liderança, sobre sacrifício como acto sagrado e sobre o que acontece quando tratamos as empresas como seres com alma própria.

Ninguém muda porque está bem

A primeira coisa que o Mário disse quando lhe perguntei o que o levou a virar do mundo dos negócios para o mundo interior foi simples: ninguém muda porque está bem. Enquanto é confortável, ficamos onde estamos. A mudança começa quando o cansaço supera o conforto.

Ele contou que sempre soube, desde muito novo, o que não queria e qual caminho não era o dele, porque já o tinha percorrido. Não sabia para onde ia, mas sabia de onde queria fugir. Tinha muito, mas não sabia quem era. O processo do ser nunca mais chegava. E foi isso que o fez abrandar, criar o Espaço Portal e começar a olhar para a vida de outra forma.

O Portal nasceu como símbolo: um véu entre o trânsito hipnótico da repetição, onde a maior parte das pessoas vive, e uma forma diferente de aprender, sentir e conectar. E quando ele deu esse salto, o julgamento chegou de todos os lados. O pai perguntou-lhe: "Deixaste de ser empresário para ser bruxo?" Os amigos apareciam para almoçar e traziam psicólogos e psiquiatras escondidos como quem diz "este precisa de ajuda". Há 20 anos, escolher a espiritualidade como caminho profissional era pedir para ser julgado. Mas o Mário já carregava esta sensibilidade desde sempre. As artes marciais, a meditação, o reiki, o feng shui, tudo isso já fazia parte dele muito antes de se tornar profissão.

A águia, a lagarta e a coragem de parar

Uma das metáforas mais bonitas deste episódio foi a que o Mário fez entre a águia real e a lagarta. A águia, a meio da jornada, precisa de parar porque o bico cresce demais e ela perde a capacidade de caçar. Sobe ao cimo de uma montanha, parte o bico contra a rocha, arranca as penas e espera que tudo regenere. É um acto de coragem. É um grito de liberdade. Mas a águia continua a ser águia.

A lagarta, por outro lado, não escolhe parar. A vida obriga-a. A carapaça fica tão pesada que ela não consegue andar mais. E aí vem a metamorfose, forçada por uma doença, uma falência, a perda de alguém, algo que abala a estrutura ao ponto de não haver outra opção. A lagarta não volta a ser lagarta. Renasce noutra coisa.

A diferença é a consciência. A águia pára antes de ser obrigada. A lagarta só pára quando já não tem outra hipótese. E o Mário defende que não é preciso esperar pelo cancro, pelo acidente ou pela falência para despertar. É possível escolher parar, tirar as camadas que já não servem e reconstruir, se tivermos a lucidez e a coragem para o fazer. Este processo de autoconhecimento, de perceber quem somos para lá daquilo que temos, é exactamente o que trabalhamos no eneagrama aplicado a empresários: uma ferramenta que ajuda líderes a entenderem os seus padrões antes de serem obrigados a confrontá-los.

Sacrifício não é sofrimento. É ofício sagrado.

Vivemos numa época em que se diz que só devemos fazer aquilo que nos dá prazer, que o sacrifício é uma palavra a eliminar do dicionário. O Mário trouxe-a de volta com uma beleza que eu nunca tinha ouvido: sacrifício vem do latim sacro ofício. Ofício sagrado. É algo que eu faço de forma sagrada na minha vida para me manter em pleno equilíbrio.

Mesmo quando não apetece. Mesmo quando dormi pouco. Mesmo quando o corpo diz que não. Porque é nesse exacto momento que estamos a crescer. É como no ginásio: são as últimas duas repetições, as que mais custam, que constroem o músculo. Não é no conforto que evoluímos. É no ponto em que decidimos aguentar mais um bocadinho.

E o Mário estende isto a todas as áreas. Emocionalmente, ninguém quer sofrer. Mas se eu me permitir ficar 5 minutos com a minha tristeza, com a minha raiva, em vez de fugir, é ali que estou a ganhar músculo emocional. Mentalmente, quando estou cansado e ainda preciso de rever aquele assunto, e me comprometo com esses últimos 10 minutos, é ali que estou a crescer intelectualmente. A dor é momentânea. O crescimento é permanente. E a escolha está sempre em nós: queremos ouvir a voz que diz "pára" ou a que diz "faltam só 2 km, aproveita"?

Ele contou que treinou um ano inteiro para o Iron Man. Três horas por dia, domingo a domingo. A pergunta que fez a si próprio não foi "o que é que eu vou sacrificar?", mas sim: "o que é que era supérfluo na minha vida que eu consigo eliminar sem dor, para trazer isto que eu quero para mim?" Não é abdicar. É escolher. E a forma como olhamos para essa escolha muda tudo.

Empresas com Alma: quando a energia do líder dita a energia da equipa

O projecto Empresas com Alma nasceu da mesma lógica que tudo o que o Mário cria: de uma necessidade pessoal. Tal como o Ritual Consciente, a sua prática matinal de alinhamento, nasceu porque ele precisava de se manter disciplinado, e a melhor forma de o garantir foi desafiar outras pessoas a fazerem-no com ele.

Empresas com Alma olha para a empresa como um ser com alma própria. Criamos uma empresa, damos-lhe um nome, damos-lhe um número de contribuinte. Tal como um filho. E se tem alma, tem energia. E essa energia pode estar alinhada ou desalinhada. O Mário trabalha directamente com cada CEO em terapia, porque não faz sentido trabalhar a energia de uma empresa se o líder não estiver disponível para fazer o seu próprio trabalho de crescimento. Tudo começa por ele. A pedra que cai no lago cria ondas concêntricas. A energia do líder chega a todos os cantos da empresa. E quando essa energia está alinhada, a cultura fortalece-se, as pessoas certas ficam, as que não encaixam na frequência escolhem sair naturalmente.

A cada três meses, há uma paragem para reflexão. Como está o primeiro trimestre? O que é que me propus, o que é que consegui, quais foram os bloqueios, o que preciso de ajustar? É planeamento estratégico com alma, literalmente. E o Mário trouxe isto do mundo dos negócios. Já fazia isto quando tinha restaurantes e ginásios. Agora faz para a vida inteira. É esta fusão entre a racionalidade do planeamento e a profundidade da espiritualidade que torna o projecto único. Porque a espiritualidade também é racionalidade. Meditar não é perder o controlo. É ganhar lucidez. É conseguir analisar sem ruído. E essa clareza é exactamente o que um líder precisa para tomar as melhores decisões.

Liderar pela congruência: eu faço tudo o que digo

Perguntei ao Mário se a liderança natural que eu vejo nele sempre existiu ou se foi trabalhada. Ele contou que vem de uma família de serviço: o pai fazia espectáculos nas cadeias e nos hospitais, a mãe era cuidadora nata desde que era a mais velha dos irmãos. Cresceu a ver os pais a servir os outros. Mas percebeu que eles viviam muito para fora e pouco para dentro. E ele quis fazer o inverso.

O valor que está no topo da lista do Mário é congruência. Tudo o que ele diz, faz. Tudo o que passa, vive primeiro. Dar um conselho sem o estar a praticar não lhe faz sentido. E é isso que as pessoas sentem: quando alguém é congruente, a liderança não precisa de título. As pessoas seguem porque confiam. E confiam porque vêem que aquela pessoa não está a vender uma ideia, está a viver uma realidade.

"Eu lidero porque sinto no meu coração as coisas", disse-me. "E faço o que sinto." É simples. E é a coisa mais difícil do mundo. Porque exige compromisso diário. Exige estar presente. Exige fazer o sacro ofício mesmo quando o corpo pede para parar. É esta competência de liderança que não se ensina num manual, mas que se transmite pelo exemplo: a capacidade de ser primeiro aquilo que se pede aos outros que sejam.

Respirar. É só isso.

No final, pedi ao Mário que me desse uma única dica, um ritual, um comportamento que toda a gente deveria ter todos os dias. A resposta foi a mais simples e a mais profunda de todas: respirar.

Não respirar em automático, como todos fazemos. Respirar com intenção. Fazer três ou quatro respirações conscientes. Inspirar, fazer uma pausa, sentir os sentidos expandirem-se. Expirar, esvaziar tudo, e nesse vazio pleno de tudo, voltar a pausar. É nessa pausa entre a inspiração e a expiração que nos conectamos com algo maior do que o ruído do dia. É aí que ganhamos clareza antes de uma reunião, de uma apresentação, de uma conversa difícil.

Eu faço isto. Antes de subir a um palco, antes de falar com a equipa, antes de tomar uma decisão. Uma respiração com intenção muda a forma como comunico, como penso, como estou. E é tão simples que parece impossível que funcione. Mas funciona. Porque andamos todos à procura de técnicas milagrosas quando a ferramenta mais poderosa que temos é aquela que fazemos desde que nascemos, só que em automático.

O Mário é daquelas pessoas que nos fazem parar e pensar se estamos a viver ou apenas a existir. E se há alguma coisa que eu retiro deste episódio para a minha vida e para a imersão CHECKMATE: Liderança, é isto: antes de liderar os outros, lidera-te a ti. Antes de estares bem com a equipa, está bem contigo. Antes de respirares para o mundo, respira para ti. Tudo o resto é consequência.

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