

PODCAST
O Olhar da Coruja
Essa é a resposta que ninguém quer ouvir com Camilo Coutinho | EP 3
Negócios
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Episódio 3
Sobre o episódio
Neste episódio do Olhar da Coruja, recebo o Camilo Coutinho, um dos nomes mais influentes do vídeo marketing em Portugal e no Brasil, fundador da Double Play, idealizador do Upload Day e o criador de toda a imagem e storytelling do próprio podcast Olhar da Coruja. Conheço o Camilo desde 2012. Somos amigos há mais de uma década, e esta conversa foi uma viagem por tudo o que construímos juntos e separadamente. Falámos sobre como um computador de fósforo verde em 1997 deu início a uma carreira, sobre o evento que levou 16 nãos antes de existir, sobre o choque cultural de chegar a Portugal e perceber que muita gente ainda não acredita no digital, e sobre a frase que resume tudo: tudo pode ser tudo, mas não tudo pode ser ao mesmo tempo.
De um computador de fósforo verde a uma carreira no vídeo
O Camilo é criativo por natureza. O pai era jornalista, a mãe também, e em casa sempre houve uma curiosidade enorme. Pessoas de todos os mundos passavam por ali: desde o primeiro-ministro da Nigéria a tomar café com o pai até uma drag queen do Largo do Arouche. Em 1997, o pai ganhou um computador 286 de um cliente. E o Camilo, miúdo curioso, começou a brincar com aquilo. Fez curso de datilografia porque queria digitar. Aprendeu a fazer design sozinho, sem faculdade, sem formação formal. Começou a fazer cartões de visita, logotipos, diagramação. Imprimia numa impressora matricial de agulha. Levava para o colégio e vendia textos e desenhos aos colegas.
Depois entrou no Submarino Viagens como designer autodidata, numa vaga que ninguém queria porque pagava abaixo do mercado. O primeiro trabalho foi criar 365 botões em quatro cores diferentes. Dois meses depois, entregou tudo. A gerente ficou espantada porque os dois anteriores tinham desistido na primeira semana. Daí em diante, não parou. Criou banners com PowerPoint porque a empresa não tinha licença de Flash. Descobriu maneiras criativas de contornar limitações técnicas. E essa capacidade de resolver problemas com o que tem à mão, sem esperar pelas condições perfeitas, é o que define o Camilo até hoje.
16 nãos e um evento que mudou tudo
O Upload Day, o primeiro evento de estratégia de vídeo marketing da América Latina, nasceu de uma frustração. O Camilo ia a eventos nos Estados Unidos e voltava sempre com a mesma conclusão: não existe nada assim em português. Pediu ao seu mentor, Dar Eaves, que organizasse um. A resposta foi: "Faz tu."
E ele fez. Com 15 mil reais no bolso. Sem patrocínios. Falou com 16 empresas e levou 16 nãos. Limpou as poupanças da família. A mulher, a Ju, apoiou. Conseguiu uma universidade que lhe cedeu o espaço. Fez tudo à mão. Virou noites. Na primeira edição, 300 pessoas. Quase zerou financeiramente. Ficou com o dobro do investimento para pagar.
Mas três meses depois, o retorno começou a aparecer. Clientes que tinham ido ao evento ligavam a dizer que o material que receberam já estava a ser usado pelas equipas. E o evento cresceu. Na segunda edição, trouxe o próprio Dar Eaves ao Brasil, com tradução simultânea, para o dobro de pessoas.
Há uma lição aqui que vale para qualquer empresário: os eventos quase nunca se pagam com bilhetes. 90% dão prejuízo. Mas o que se constrói à volta, a visibilidade, a autoridade, as relações, isso é que gera retorno. E é preciso ter estômago para aguentar o prejuízo inicial e confiar que o investimento vai voltar de outra forma.
O choque de chegar a Portugal e ouvir "para quê ter um site?"
O Camilo mudou-se para Portugal em plena pandemia, com a mulher e dois filhos. O plano original era os Estados Unidos. Tinham o visto, tinham tudo preparado. Depois fechou-se o mundo. A Ju, que tem passaporte português, sugeriu Portugal. E vieram.
O país recebeu-o bem. Mas o choque cultural foi real. A maior dificuldade não foi a língua nem a burocracia. Foi a falta de consciência sobre o que é o digital. Chegou a clientes que lhe disseram: "Não sei se preciso de um site. As pessoas já passam à minha porta." E o Camilo pensava: se essas pessoas amanhã deixarem de passar, o teu negócio morre. Podes vender para Portugal inteiro, mas não queres.
Existe uma consciência inconsciente, como ele disse. As pessoas sabem que o digital é importante, mas não acreditam verdadeiramente nele. Usam redes sociais, vêem vídeos, compram online, mas quando chega a hora de aplicar isso ao próprio negócio, recuam. E esta é a realidade que ainda vive em muitas empresas: sabem que deviam estar no digital, mas não estão dispostas a investir tempo, dinheiro e desconforto para lá chegar. A publicidade em Facebook e Instagram é um exemplo claro: as ferramentas existem, os resultados estão provados, mas a maioria das PMEs ainda não as usa com estratégia.
Um vídeo sem objectivo não deveria existir
Uma das partes mais práticas do episódio foi sobre estratégia de vídeo. O Camilo disse uma coisa que eu acho que toda a gente precisa de ouvir: a primeira pergunta que ele faz a qualquer cliente é "qual é o objectivo deste vídeo?". Quando a pessoa não responde, ele já sabe que aquele vídeo foi gravado sem razão nenhuma.
As pessoas compram a melhor câmara, o melhor microfone, a melhor iluminação, sentam-se, e na hora de falar travam. Não sabem o que dizer porque não se planearam. Não têm ideia do processo. Não sabem para quem é o vídeo nem o que querem que aconteça depois de alguém o ver. Um vídeo sem objectivo é um hobby. Não é uma ferramenta de negócio.
E trouxe um exemplo concreto: nos últimos eCommerces com que trabalhou, aumentaram as vendas em 15% só com um vídeo de "obrigado pela compra" que sugeria produtos complementares. Um vídeo. Não uma campanha de milhões. Um vídeo simples, com estratégia. Porque muitas vezes o cliente compra quando o lembramos de que precisa de alguma coisa. Ele comprou uma peça, mas nem se lembrou que a outra também era importante para ele.
O problema de fundo é que as pessoas traduzem offer como "oferta" e acham que oferta é sempre vender um produto. Quando na verdade, a oferta pode ser vender a tua autoridade, o próximo episódio, o próximo passo. Pode ser posicionamento. As pessoas têm medo de vender. E quando têm medo de vender, têm medo de fazer vídeo. E ficam com produtos excelentes que ninguém conhece.
Liderar é não dar ordens (e isso é o mais difícil)
A certa altura, o Camilo disse uma frase que me ficou: "As pessoas acham que o mais difícil da liderança é dar ordens. O mais difícil é não dar ordens."
Nós podemos aprender muito sobre liderança em casa. Na relação com os filhos, com o parceiro, com a família. A tendência natural é controlar, dirigir, dizer como se faz. Mas o verdadeiro desafio é conter-se. É deixar as pessoas encontrarem o caminho, errarem, aprenderem. É resistir ao impulso de resolver tudo por elas. E isto é tão difícil em casa como na empresa.
O Camilo vive isto com intensidade porque gere uma empresa remota, entre Brasil e Portugal, com uma equipa que precisa de autonomia para funcionar. E a forma como ele lidera é profundamente influenciada pelo budismo, que pratica há anos. A lei da causa e efeito: o que tu dás é o que recebes. Se não te pedem ajuda, não a imponhas. Pergunta primeiro o que a pessoa espera de ti. Porque às vezes ela só quer um abraço. Às vezes só quer um elogio. Às vezes só quer discutir. E a sabedoria está em perceber o que cada pessoa precisa antes de agir. Este tipo de feedback eficaz não se ensina em manuais. Aprende-se a viver.
Tudo pode ser tudo, mas não ao mesmo tempo
Perto do final, o Camilo fez uma reflexão que resume toda a conversa. Disse que a passagem de ser um profissional solteiro que viajava o mundo a ser pai de duas crianças com uma empresa para gerir lhe deu um olhar mais calmo. "Tudo pode ser tudo, mas não tudo pode ser ao mesmo tempo."
Ele é uma pessoa em construção. Agradece o que as pessoas dizem sobre ele, mas sente que não está pronto. E acha que essa sensação de não estar pronto é exactamente o que o mantém em movimento. Porque no dia em que nos sentirmos plenos, perdemos a motivação de continuar na busca.
E trouxe algo que eu nunca o tinha ouvido partilhar publicamente: a influência do budismo na forma como vive e trabalha. Desejar que exista sempre um pequeno vazio dentro de nós. Porque é esse vazio que nos faz querer mais, saber mais, conquistar mais, conhecer-nos mais. Quando queremos estar plenos, deixamos de sentir essa necessidade. E a busca pára.
A mensagem final foi a mais simples e a mais bonita: as pessoas esquecem os pequenos pontos de felicidade. Estão sempre à espera do fim de semana, das férias, do próximo grande momento. Mas e hoje? E o solzinho quentinho na cara? E estar aqui a gravar um podcast com uma amiga de 12 anos? A desaceleração para entender a nossa própria felicidade é o ponto que precisa de ser trabalhado. E isso é autoconhecimento. Só mudamos quando nos conhecemos. Só melhoramos quando nos medimos. E é exactamente isso que levamos para a imersão CHECKMATE: Liderança: parar o suficiente para entender quem somos, antes de correr atrás de quem queremos ser.

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