

PODCAST
O Olhar da Coruja
Ignora a opinião dos outros para trabalhares melhor com Paula Santos | EP 20
Liderança
•
Episódio 20
Sobre o episódio
Este é um episódio diferente do Olhar da Coruja. Desta vez, sou eu a ser entrevistada, pela Paula Santos, copywriter na Digital Elevation, que me trouxe perguntas sobre liderança, insegurança, empreendedorismo e processo criativo. O que começou como uma conversa sobre o nome "Paulinha vs. Paula" transformou-se numa das conversas mais honestas que já tive neste podcast, sobre o peso da opinião dos outros, sobre o que significa liderar com verdade e sobre aquilo que ninguém te diz quando decides empreender.
Paulinha ou Paula: quando a insegurança dita quem tentamos ser
A conversa começa com um tema aparentemente simples: toda a gente trata a Paula por Paulinha. Ela confessou que houve uma fase em que queria ser chamada de Paula, porque sentia que isso lhe dava mais autoridade. E esta confissão abriu a porta para uma das reflexões mais importantes do episódio: quantas vezes tentamos ser alguém que não somos, só porque achamos que a versão verdadeira não é suficiente?
Eu reconheço que já passei por isso. Não tenho insegurança em quem sou, mas tenho insegurança em muitas outras coisas. A diferença é que aprendi que não preciso de me esconder para parecer mais competente. E quando deixas de te esconder, as pessoas aproximam-se, porque sentem que estão perante alguém real. A proximidade não enfraquece a liderança. Fortalece-a. Quem precisa de criar distância para ser respeitado, normalmente, está a compensar uma insegurança que ainda não trabalhou.
O peso da opinião dos outros (e como ele quase me travou)
Passei por duas fases na vida que me obrigaram a confrontar o julgamento alheio de frente. A primeira foi quando engravidei aos 15 anos. O julgamento de toda a aldeia e das aldeias vizinhas. É um peso que, para quem não viveu, é difícil de imaginar. A segunda foi quando me divorciei, depois de 16 anos de casamento.
O divórcio trouxe uma vaga de julgamento que não esperava. Pessoas próximas que pouco conheciam da minha vida, mas que se sentiram no direito de apontar o dedo. "Vi logo que não ia durar", diziam, como se 16 anos tivessem sido uma decisão impulsiva. As pessoas apontam o dedo mais depressa do que perguntam se precisas de alguma coisa. E o mais difícil nem é lidar com quem não te conhece. É lidar com quem achas que te conhece e, afinal, nunca conheceu.
Houve uma altura em que um comentário negativo nas redes sociais tinha um peso gigante em mim. Fez-me ponderar se queria continuar a aparecer, se queria expor-me, se valia a pena sujeitar-me àquilo. Mas depois percebi uma coisa essencial: não posso condicionar a minha vida e aquilo que quero construir pela opinião de alguém que não me conhece. Não faz sentido. O que os outros dizem de mim diz muito mais sobre eles do que sobre mim.
Hoje, com mais autoconhecimento e com o apoio de terapia, consigo olhar para isso com outra tranquilidade. Mas digo sempre: as pessoas deviam ser mais responsáveis quando apontam o dedo. As palavras têm peso. E quem julga sem saber as motivações do outro está a falar mais das suas próprias inseguranças do que da pessoa que está a julgar. Perceber os nossos padrões de reacção, aquilo que nos desbloqueia e aquilo que nos trava, é parte essencial de qualquer processo de diagnóstico pessoal e empresarial.
Aquilo que eu diria à Regina de 15 anos
A Paula perguntou-me que conselho daria à minha versão mais jovem. A resposta veio rápida: não te preocupes tanto com o que os outros pensam. E age no momento em que sentes que é preciso agir.
Se eu tivesse tido esta confiança mais cedo, muitas decisões teriam sido mais leves, mais rápidas, mais simples. Mas depois lembro-me de que talvez não tivesse corrido da mesma forma. Porque eu acredito que o que tiver de acontecer, acontece. A minha psicóloga disse-me uma frase que me acompanha todos os dias: tu dás o passo e o mundo dá-te o chão. Primeiro tens de mostrar que queres, que estás a fazer por isso. E quando o fazes, as coisas começam a acontecer. Nem sempre como imaginavas. Mas acontecem.
O grande desafio de qualquer empreendedor é aprender a semear sem saber se vai haver colheita. Mas se não semeares, a colheita não vem de certeza.
A verdade sobre empreender que ninguém quer ouvir
A Paula fez-me uma pergunta directa sobre literacia financeira e empreendedorismo. E eu fui igualmente directa: para empreender, precisas de dinheiro. E não é só no poupar que está o ganho.
Há muita gente a vender sonhos. "Compra o meu curso e fica rico em três meses." Os números de quem consegue isso são mínimos. E mesmo essas pessoas investiram algo, seja tempo, seja dinheiro. O problema é que se desresponsabilizou aquilo que é ser empresário. Antigamente, para abrir um negócio, tinhas de investir 50, 100 mil euros. Havia uma barreira de entrada que exigia responsabilidade. Hoje, com acesso à internet, qualquer pessoa monta um e-commerce a custo quase zero. E depois queixa-se de que não vende. Claro que não vende. Na loja física, a tua concorrência eram as lojas da rua. Na internet, a tua concorrência é o mundo inteiro. O investimento que poupaste no espaço físico, tens de o fazer em tráfego pago, em ferramentas, em estratégia.
Os primeiros anos de negócio exigem muito esforço, tempo e dinheiro. As pessoas vão empreender porque querem ganhar tempo e dinheiro, mas o empreendedorismo precisa exactamente dessas duas coisas que elas não querem disponibilizar. Se tu acreditas no teu projecto, tens de ter tempo e dinheiro para ele. E o que ganhas, reinvestes, até solidificar a estrutura. Não é para teres logo um grande ordenado. É para validares a ideia, começares a andar em piloto automático e depois, sim, pensares em escalar. Isto são fases. E é exactamente este tipo de mentalidade estratégica que trabalhamos na imersão CHECKMATE: Liderança, porque escalar exige que o líder pense para lá do resultado imediato.
Ser líder é ajudar as pessoas a serem mais e melhor
A Paula perguntou-me o que é ser líder. A minha resposta foi simples: ser líder é estar disponível para ajudar as pessoas a serem mais e melhores. O lucro é uma consequência. Se eu só pensasse no lucro, as pessoas ficavam para segundo plano. E quando as pessoas ficam para segundo plano, o impacto que o trabalho tem nelas torna-se irrelevante.
Eu quero que, quando tivermos resultados, sejamos uma equipa unida, feliz, que sente que ganha quando nós ganhamos. Porque é um ciclo: se as pessoas estão bem, entregam resultados. Se entregam resultados, a empresa cresce. Se a empresa cresce, as pessoas também colhem esse retorno. E nem sempre esse retorno é financeiro. Às vezes é liberdade, confiança, conforto, sentido de pertença.
Há quem chame a isso "salário emocional". Eu uso essa expressão quase de forma irónica, porque para mim isto não é um salário. É respeitar as pessoas enquanto pessoas. Aceitar que somos todos seres humanos com emoções, que precisamos de nos sentir acarinhados, valorizados e parte de algo maior. Quando vivemos numa bolha de empatia, respeito e missão partilhada, o resultado tem de ser grandioso. Não dá para não ser. É nisto que acredito e é por isso que a liderança, para mim, começa sempre por motivar equipas a partir de quem são, não apenas do que fazem.
O lado invisível de liderar: sentir sem mostrar
Há uma parte de ser líder que ninguém vê. Os dias em que não estou bem, mas entro no escritório com um sorriso de orelha a orelha. Os dias em que alguém exige de mim algo que eu, naquele momento, simplesmente não sou capaz de dar. Porque eu também sou um ser humano. Também não consigo dar todos os dias da mesma forma.
A maior parte das pessoas não quer saber do que eu estou a sentir. A minha função ali dentro é motivar e alegrar. E eu aceito isso. Mas aprendi que preciso de me dar espaço para sentir. Se estou em baixo, às vezes fico em casa de manhã. Não para fugir. Para deixar a dor existir, para a processar, para depois perceber se posso fazer alguma coisa ou se é só algo que precisa de passar. Deixem-me sentir isto, penso. E depois trabalho para deixar de o sentir.
Quando chego a casa à noite, tenho um ritual simples: sento-me 10 minutos no sofá, sem telefone, sem nada. É a minha transição da energia da rua para a energia de casa. Parece pouco, mas faz toda a diferença. Não consigo ir directa para a cama com aquele turbilhão na cabeça. Preciso daqueles 10 minutos para me desligar.
O meu processo criativo também vive de silêncio. Conduzo horas sozinha sem música, a pensar, a idealizar. Gravo ideias no dictafone do telemóvel. Escrevo em blocos de notas, em folhas soltas, em tudo quanto é sítio. Preciso do papel, do quadro branco, de desenhar para visualizar. As melhores ideias não surgem quando planeio tê-las. Surgem no banho, na estrada, naqueles momentos em que o cérebro ainda está limpo.
A verdade é que ser líder é isto tudo junto: a estratégia e a emoção, a força e a fragilidade, o sorriso na porta do escritório e os 10 minutos de silêncio no sofá. E quanto mais deixarmos de fingir que somos só a parte forte, mais autêntica se torna a relação com quem trabalha connosco. Porque as pessoas não seguem títulos. As pessoas seguem pessoas.

Liderança
Episódio 28
Sem empatia lideras como a IA com Bruno Piedade | EP 28

Liderança
Episódio 27
O erro que toda a gente comete com Giovanni Ferreira | EP 27

Liderança
Episódio 26
Queres sucesso ou só a parte bonita dele com Diogo Bernardo | EP 26
