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O Olhar da Coruja
Nenhuma empresa quer contratar mães com Ana Silva | EP 2
Liderança
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Episódio 2
Sobre o episódio
Este é o primeiro episódio do Olhar da Coruja na rubrica em que sou entrevistada pela equipa. A Ana Silva, gestora de tráfego da Digital Elevation, está connosco há 3 anos e trouxe-me perguntas que tocam naquilo que muitas mulheres empreendedoras sentem mas raramente dizem em voz alta. Falámos sobre o falso equilíbrio entre vida pessoal e profissional, sobre o estigma de ser mãe e querer ser alguém nos negócios, sobre o peso de "tudo o que eu faço é pelos meus filhos" e sobre a coisa mais difícil que existe: descobrir quem somos.
O equilíbrio horário é uma armadilha. O equilíbrio emocional é o que importa.
A Ana começou com a pergunta que toda a gente faz: consideras que já atingiste o equilíbrio entre vida pessoal e profissional? E eu fui directa: durante muito tempo fiz o mesmo que toda a gente faz. Acreditei que equilíbrio era conseguir no mesmo dia estar em todos os lugares que precisam de mim. Família, filhos, pais, casa, amigos, trabalho. Tudo no mesmo dia. E sentia-me completamente em desequilíbrio porque isso é impossível.
Há alturas do mês, da semana, do ano, em que uma área da vida pede mais de nós. E tá tudo bem. Eu comecei a sentir-me bem quando percebi que não preciso de andar a correr atrás de um equilíbrio diário. Há dias em que trabalho muitas horas. Há outros em que o dia é só meu. O meu equilíbrio é completamente diferente do equilíbrio de outra pessoa qualquer. E sou eu que tenho de perceber como é que me sinto bem.
Porque tentar estar todos os dias em todos os lugares faz com que nunca termines nada e nunca te sintas plena. Se eu deixar o trabalho a meio para ir para casa "a horas", não vou estar plena em casa. Vou estar a pensar no que ficou por fazer. Prefiro terminar o que estou a fazer, ir mais tarde, e chegar a casa em paz. O equilíbrio emocional é muito melhor do que o equilíbrio horário. E quando percebi isto, tudo mudou.
Ser mãe e querer ser alguém nos negócios não são coisas opostas
A Ana trouxe um tema que eu abordo frequentemente nas palestras: a culpa que as mulheres sentem quando saem de casa para trabalhar, para estudar, para viver. Um homem vai a uma formação de três dias e deixa os filhos com a mãe. Vai descontraído. Uma mulher faz o mesmo e carrega um peso enorme: é má mãe porque dormiu três noites fora, não está atenta ao que está a acontecer, não consegue usufruir do que está a viver porque está mais preocupada com o julgamento dos outros do que com o que está a aprender.
Eu acho isto horrível. E é duro. Existe um estigma muito grande: se queres ser alguém nos negócios, tens de abdicar de ser mãe. Não tens. Tens de ajustar algumas coisas, como em tudo na vida. Mas abdicar? Nunca. Eu já tinha filhos quando entrei no mundo dos negócios. Sempre que podia, levava-os. Quando não podia, ficavam. A preocupação existia, claro. Mas nunca fiquei com o peso de achar que estava a ser má mãe por ir atrás dos meus sonhos.
Porque se eu não for feliz, o que é que eu transmito? O exemplo que eu deixo aos meus filhos é muito mais importante do que estar presente em todas as horas do dia. Não me importo de dizer um palavrão à frente da criança, vou ensiná-la que há coisas que os adultos fazem e as crianças não. Mas o exemplo de ir atrás das minhas conquistas, de saber dizer sim e dizer não, de ser feliz enquanto vivo, esse é o melhor legado que posso deixar. Sem peso nenhum na consciência.
"Tudo o que eu faço é pelos meus filhos" é um peso injusto
Esta foi a parte mais intensa da conversa. Ouvimos constantemente empresários a dizer: tudo o que eu faço é pelos meus filhos. E eu acho isto um peso atroz nas costas de uma criança.
Tudo aquilo que eu faço é por mim. Tem impacto na vida deles, claro. E eu quero que esse impacto seja positivo. Mas as escolhas são minhas. As decisões são minhas. O cérebro que as tomou é o meu. Dizer que fiz tudo por eles é uma desresponsabilização disfarçada de amor. Porque o que eu fiz, fi-lo para me sentir bem, para acreditar que sou a melhor mãe do mundo, para validar as minhas acções. Não foi pelo outro. Foi por mim.
E quando eu aceito isto, deixo de pôr esse peso nos meus filhos. Porque um dia, quando eles estiverem na mesma fase que eu, não vão sentir que têm uma dívida para comigo. Não vão ouvir "eu abdiquei de tudo por ti". Eu dei-lhes a vida. É para eles a viverem. Não é para eu viver através deles.
Se a minha vida deixa de ser sobre mim e passa a ser só sobre o outro, eu deixo de viver a minha vida para viver a vida dele. E o meu filho nunca me pediu isso. A minha filha nunca me pediu isso. Ela quer viver a vida dela. E um dia vai querer vivê-la de forma independente. Eu tenho de continuar a viver a minha, tendo a vida deles em consideração, mas sem deixar de ser eu. Porque ninguém é pleno a viver a vida do outro. Eu não acredito nisso.
Ter filhos faz-me mais ponderada, não mais limitada. Analiso mais. Penso mais nos prós e nos contras. Tenho mais cuidado. Porque não sou só eu. Há alguém que depende de mim, alguém que está ligado a mim de uma forma que não se corta. Mas ponderar mais não é deixar de fazer. É fazer com mais consciência. E essa consciência é saudável, desde que não se transforme em paralisia.
Cuidar de mim não precisa de horas. Precisa de foco.
A Ana perguntou-me o que é que eu faço para cuidar de mim. A resposta não é glamourosa: faço terapia com muito orgulho e acho que devia fazer muito mais. Uma vez por mês parece-me pouco. Mas faço.
Da mesma forma que preciso de alguém externo para olhar para os negócios sem emoções, preciso de alguém externo para olhar para mim sem emoções. Porque é difícil analisar em nós próprios o que está a acontecer. Temos sempre vieses na interpretação do que estamos a sentir. E às vezes precisamos de alguém que nos ajude a ver as coisas de outra forma, a dar-lhes outro significado.
Além da terapia, aprendi técnicas de meditação e enraizamento. Estou todos os dias em equilíbrio? Claro que não. Há dias em que me esqueço de meditar porque tenho a cabeça cheia. Mas se passarem dois ou três dias assim, começo a sentir o cansaço, o peso, o desequilíbrio. E volto. Porque eu não preciso de duas ou três horas para me reequilibrar. Preciso de foco. Cinco minutos com foco chegam. Dez minutos de meditação chegam. Uma hora de terapia dá-me cinco ou seis de bom rendimento e de paz.
As pessoas dizem "não tenho tempo para cuidar de mim". Mas se forem ver as horas de ecrã do telemóvel, percebem que tinham uma hora todos os dias, ou mais, para fazer terapia. A questão não é tempo. É onde é que colocas o foco. Quando percebes que aquela hora vale a pena e que tudo a seguir fica melhor, começas a fazê-la sem culpa.
A coisa mais difícil que existe é descobrir quem somos
A Ana perguntou-me se é preciso autoconhecimento para ter um negócio bem-sucedido. Eu acredito que sim. Porque para mim, um negócio bem-sucedido não é um negócio que fatura muito dinheiro ou que tem muito lucro. É um negócio que tem gestores felizes e colaboradores felizes. É um negócio com uma cultura organizacional forte que não foi construída por acidente, mas com intenção. E para conseguir esse equilíbrio, começa tudo em nós. Porque é que eu tenho este negócio? O que é que me faz feliz nele? O que é que me faz feliz nas pessoas que estão comigo? Como é que eu faço essas pessoas felizes?
Este conjunto de perguntas vem do autoconhecimento. E o autoconhecimento é a coisa mais dolorosa que existe. Mais difícil do que trabalhar negócios. Mais difícil do que gerir equipas. Mais difícil do que qualquer desafio profissional. Porque obriga-nos a olhar para dentro e a aceitar o que lá encontramos. Mas é também o que distingue quem constrói algo sustentável, com alma, de quem constrói apenas uma máquina de facturação. E é isto que levamos para a imersão CHECKMATE: Liderança: não apenas formar melhores gestores, mas ajudar empresários a tornarem-se pessoas mais inteiras, para que os negócios reflictam essa inteireza.
Porque no final, como diz a Ana, a pessoa que entrou na maternidade não é a mesma que saiu. E a pessoa que entra num processo de autoconhecimento através do eneagrama ou da terapia também não é a mesma que sai. Mudamos. E essa mudança, quando é consciente, é a melhor coisa que podemos fazer por nós, pelos nossos filhos e pelos nossos negócios.

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