

PODCAST
O Olhar da Coruja
O erro que toda a gente comete com Giovanni Ferreira | EP 27
Liderança
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Episódio 27
Sobre o episódio
Neste episódio do Olhar da Coruja, recebo o Giovanni Ferreira, closer do Artha Group, para uma conversa que toca a todos: o crescimento pessoal através da dor, da consciência e do autoconhecimento. Partilho as minhas experiências com burnout, os desafios da comparação constante e o poder transformador de reconhecer e aceitar as nossas emoções. É uma conversa honesta sobre como o desconforto pode ser um ponto de partida para a evolução, e como o autoconhecimento influencia a forma como lideramos, criamos e nos relacionamos.
A dor como motor de evolução
O Giovanni abriu a conversa com uma frase que resume bem a sua filosofia: a dor é necessária para crescer. Não o sofrimento gratuito, mas aquele desconforto que te obriga a mexer, a agir, a sair de onde estás. É uma estratégia que ele próprio reconhece ter adoptado de forma quase inconsciente, desde muito novo, por circunstâncias de vida que o obrigaram a amadurecer antes do tempo, como a mudança de país e o falecimento do pai.
Há algo de profundamente honesto nesta perspectiva. Não é masoquismo, é lucidez. Se estiver tudo sempre confortável, não tens foco. E sem foco, nada acontece. O stress dá foco. A frustração dá resiliência. São as emoções que menos gostamos que, paradoxalmente, mais nos fazem avançar. É o que o filme Divertida-Mente ensina tão bem: todas as emoções fazem parte de nós e todas têm uma função.
Agora, o ponto crítico é perceber quando esse desconforto deixa de ser produtivo e passa a ser destrutivo. Quando é que a dor se transforma em paralisia? Falámos sobre isso com uma clareza que raramente se tem em público: depende do impacto que está a ter na tua vida. Se já não consegues concentrar-te, se já não consegues falar com pessoas, se já não consegues fazer o que fazias antes, é sinal de que algo precisa de mudar. Não é um dia mau, é um padrão. E reconhecer esse padrão exige uma competência que a maioria das pessoas evita: o autoconhecimento.
O autoconhecimento que toda a gente evita
Falámos muito sobre porque é que a maioria das pessoas foge do autoconhecimento. A resposta é simples e desconfortável: porque obriga-nos a aceitar que nem tudo em nós é bom. É muito mais fácil analisar o outro do que olhar para dentro. Ver as falhas dos outros tem pouca carga emocional, porque estamos de fora. Olhar para as nossas próprias falhas dói, porque somos nós.
O Giovanni trouxe uma reflexão que considero de uma maturidade enorme: quando algo que outra pessoa faz te irrita profundamente, muitas vezes é porque reconheces, mesmo que inconscientemente, esse mesmo comportamento em ti. O que mais te irrita no outro é frequentemente um reflexo de algo que não sabes resolver em ti. E ter essa consciência é raro. A maioria das pessoas condena nos outros exactamente aquilo que faz, só que de forma diferente.
Mas ter autoconhecimento não significa anular-se. Precisas do ego. O ego defende-te, ajuda-te a manter a tua posição quando precisas. O problema não é ter ego, é não saber onde termina a confiança saudável e começa a arrogância. E esse equilíbrio é um trabalho para a vida toda. Desenvolver esta inteligência emocional é o que separa quem lidera com consciência de quem lidera no piloto automático.
O erro que toda a gente comete: comparar-se
Se há um tema que dominou esta conversa foi a comparação. Comparar-nos com os outros é provavelmente o hábito mais destrutivo que temos enquanto seres humanos, e é também o mais difícil de abandonar.
O Giovanni foi transparente: sabe que não faz sentido comparar-se, mas fá-lo automaticamente. E eu reconheci que também o faço. A diferença está em como reagimos a essa comparação. Quando abres as redes sociais e vês alguém aparentemente mais bem-sucedido, o teu cérebro faz uma coisa absurda: compara as acções visíveis dessa pessoa com as tuas emoções internas. Compara o reel dela com a tua realidade crua. E obviamente ficas a perder.
Mas tu não sabes se aquela pessoa está feliz. Não sabes o que está a sentir por trás daquela foto, daquela viagem, daquele sorriso. Pode estar a viver um dos piores momentos da vida dela. Nós vemos o que as pessoas querem mostrar e comparamos isso com tudo o que sentimos, incluindo as inseguranças que nunca partilhamos. É uma equação impossível.
Usei o exemplo da concorrência nos negócios para ilustrar isto: a concorrência é óptima quando te estimula a crescer. É péssima quando te paralisa, quando ficas mais preocupado em eliminar o outro do que em melhorar. Na vida pessoal funciona exactamente igual. Se a comparação te motiva, boa. Se te limita, larga-a.
O conselho que dei ao Giovanni e que repito a quem me ouve é simples na teoria e brutal na prática: não te compares com os outros. Compara o teu eu de hoje com o teu eu de ontem. É a única comparação que faz sentido, a única que podes medir com honestidade, e a única que realmente te mostra se estás a evoluir.
Burnout: quando parar de romantizar e pedir ajuda
Tocámos num tema que me é pessoal: o burnout. Já o vivi e sei o quão sério é. E uma das coisas que me incomoda profundamente é a leviandade com que se usa esta palavra hoje em dia. Qualquer cansaço maior virou burnout. Qualquer semana difícil virou burnout. Não é. O burnout é um assunto médico, sério, que pode ter consequências físicas devastadoras: pessoas que deixam de andar, que perdem capacidades cognitivas, cujo cérebro simplesmente se recusa a funcionar.
Falámos sobre a resistência que ainda existe, especialmente entre os mais jovens, em procurar terapia. E partilhei a minha visão: mais do que escolher entre psicólogo, psiquiatra ou terapeuta holístico, o essencial é encontrar alguém com quem te sintas seguro para ser completamente transparente. Sem filtros. Porque há pessoas que vão para terapia e continuam a esconder o que realmente sentem. E assim não funciona. Se não sentes confiança nessa pessoa para dizer tudo o que pensas e sentes, procura outra.
Para situações menos graves, às vezes basta ter alguém que te oiça sem julgar. Nem sempre precisas de feedback. Às vezes precisas apenas de ser aceite. Mas quando o impacto é sério, quando já está a afectar relações, trabalho e saúde física, é preciso ajuda profissional. E isso não é fraqueza, é inteligência.
Uma técnica que partilhei e que me ajuda imenso: escrever. Quando tens um pensamento em loop na cabeça, ele parece gigante. Quando o pões no papel e tentas dar-lhe uma lógica, muitas vezes pensas "a sério que era isto que me estava a atormentar?". O acto de materializar o pensamento retira-lhe poder. É uma terapia simples, gratuita, e que qualquer pessoa pode fazer.
Justiça, ambição e amor: os três valores que me definem
O Giovanni perguntou-me quais são os meus três principais valores. A resposta foi imediata.
Justiça é o primeiro, e não é uma escolha consciente. É algo entranhado em mim. A injustiça, mesmo nas coisas mais básicas, mexe comigo de uma forma visceral. O desafio é aceitar que o mundo não é justo, que o que eu considero justo pode ser diferente do que outra pessoa considera, e que nem tudo está ao meu alcance mudar.
Ambição é o segundo, e é mais recente. Descobri-o a fazer terapia a outras pessoas, quando percebi que a ambição é uma das palavras mais mal interpretadas na nossa sociedade. As pessoas associam ambição a ganância, a querer mais que os outros, a egoísmo. Mas ambição é muito mais do que isso. A ambição de ser o melhor pai do mundo é das coisas mais bonitas que existem. A ambição de pagar as contas, de não dever nada a ninguém, de acordar todos os dias e dar o melhor, tudo isso é ambição. É o que te faz levantar da cama de manhã.
Amor, ou melhor, conexão, é o terceiro. Não é empatia, porque a empatia pode ser momentânea. É aquela ligação genuína que se estabelece entre pessoas, que vai muito além do momento. É a base de todas as relações, profissionais e pessoais. E é nessa intersecção entre valores pessoais e capacidade de liderar que tudo se constrói, algo que trabalhamos com profundidade na imersão CHECKMATE: Liderança.
Decisões difíceis: as pessoas vêm sempre primeiro
Perto do final, o Giovanni quis saber como é que tomo decisões. Especialmente as difíceis, aquelas que impactam outras pessoas.
A minha resposta é uma que aprendi com a experiência e que nunca vou abandonar: sem pessoas motivadas, não há empresa com resultados. Portanto, as pessoas vêm sempre primeiro. Quando tenho de escolher entre algo óptimo para a empresa mas negativo para os colaboradores, ou algo ligeiramente menos óptimo mas que beneficia toda a gente, escolho a segunda. Sempre. Porque os colaboradores são a empresa. Sem eles, ela não existe.
Quando a decisão me impacta apenas a mim, é diferente. Aí eu carrego com as consequências e sigo em frente. Mas delegar bem e decidir bem exigem que nunca percas de vista o impacto humano das tuas escolhas. A empresa é uma entidade independente de mim, e a decisão tem de ser sempre em prol dela, mas o "dela" inclui obrigatoriamente as pessoas que a fazem funcionar.
Deixar o sítio melhor do que o encontrámos
A conversa começou e terminou no mesmo sítio: na vontade de deixar uma marca positiva. O Giovanni partilhou que, desde os 13 anos, sente o desejo de contribuir para aumentar a consciência colectiva. Eu acredito que todos nós temos essa vontade, mesmo que inconsciente. Uns querem deixar marca na humanidade, outros na família, outros na rua onde cresceram. A escala é diferente, a essência é a mesma.
E talvez seja isso que torna esta conversa tão necessária: a honestidade de dois seres humanos a falar sobre dor, ambição, comparação e evolução, sem fingir que têm tudo resolvido. Porque ninguém tem. E admitir isso é, por si só, um acto de coragem.

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