

PODCAST
O Olhar da Coruja
Quem a tua equipa quer ser ao trabalhar para ti com José Lopes | EP 14
Liderança
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Episódio 14
Sobre o episódio
Este é mais um episódio do Olhar da Coruja em que sou eu a responder às perguntas da equipa. Desta vez é o Zézinho, o José Lopes, Funnel Builder na Digital Elevation, o nosso filósofo de serviço que por acaso é programador. O Zé trouxe-me perguntas sobre liderança, equilíbrio, cultura, o futuro dos líderes, os desafios de ser mulher nos negócios e o legado que eu gostaria de deixar. Foi uma conversa honesta sobre aquilo que eu fui, aquilo que me custou mudar e aquilo que ainda estou a aprender a equilibrar.
A líder que eu era não era justa para mim
O Zé perguntou-me qual foi o momento que moldou a minha mentalidade de liderança. Não foi um momento. Foi um processo. E foi doloroso.
Eu sou melhor líder hoje do que era há 5 ou 10 anos. E a razão é simples: aprendi a equilibrar a minha parte mais humana e boazinha com a minha parte mais técnica e objectiva. Durante muito tempo, eu só dava. Facilitava, acolhia, compreendia. E as pessoas ignoravam. Cometiam os mesmos erros de forma sistemática e desvalorizavam o erro. Eu ficava frustrada porque sentia que dava, dava, dava e do outro lado não havia mudança.
O erro serve para corrigirmos. Mas quando ele é desvalorizado e não gera melhoria, começa a ser prejudicial para a empresa, para o negócio e para as equipas todas. E eu percebi que o problema não era das pessoas. O problema era meu. Eu não estava a equilibrar as coisas. Estava a ser boa para os outros e injusta para mim.
Quando comecei a trabalhar esse equilíbrio em mim, entre o dar e o receber, entre o facilitar e o exigir, entre o parabenizar e o chamar a atenção, tudo mudou. Ser boa líder é conseguir acolher e orientar ao mesmo tempo. Não é ser a amiguinha nem ser a mandona. É encontrar o meio onde as duas coisas coexistem. E é um trabalho diário que nunca está terminado. Saber como dar feedback eficaz sem destruir a relação, mas sem deixar o erro passar, é uma das competências mais difíceis e mais necessárias de qualquer líder.
Equilíbrio não é uma folha de cálculo
Quando o Zé me perguntou sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional, fui directa: eu não tenho um equilíbrio matemático. Não é 8 horas de trabalho, 6 horas em casa, ligar àquela pessoa àquela hora todos os dias. Isso não é equilíbrio. É marcar o check nas tarefas sem as viver.
O meu equilíbrio é sentir-me completa. Se preciso de mais horas no trabalho, estou mais horas no trabalho. Se preciso de dar mais atenção em casa, dou mais atenção em casa. Seja a mim própria, à minha relação, à minha família. Equilíbrio é eu fazer aquilo que precisa de ser feito quando precisa de ser feito, e sentir-me feliz com isso.
Já aconteceu precisarem de mim nos dois lados ao mesmo tempo. E nesses momentos são opções. Já tive de desmarcar tudo no trabalho para estar na vida pessoal. Já tive de dizer à vida pessoal "vai ficar para depois, agora eu tenho de estar aqui". Nós defendemos muito que a prioridade é sempre a família. Mas isso não significa estar mais tempo com a família. Significa que se eu tiver de optar num momento crítico, a opção será sempre a família em primeiro lugar. Nos restantes momentos, eu tenho de estar onde preciso de estar. E isso, para mim, é equilíbrio.
Os líderes de amanhã: nem mandões nem amiguinhos
Uma das partes mais ricas da conversa foi sobre o futuro da liderança. Eu acredito que estamos num momento de grande desequilíbrio. Há 30, 40 anos, ser líder era ser a pessoa que manda, fria, rigorosa, sem envolvência emocional. Mostrar sentimentos era mostrar fraqueza.
A geração actual fugiu desse modelo. Quis fazer o oposto. E o oposto é ser o amiguinho, o permissivo, o sensível demais. Fugimos do rígido e caímos no facilitismo. E isto também não funciona. Não fazemos crescer pessoas apenas com palmadinhas nas costas e abraços. E percebo muito isto nas equipas, nos jovens que consideram que o líder deles deve compreender tudo, aceitar tudo, ser empático com tudo e permissivo com tudo. Se estas pessoas crescerem para líderes com este pensamento, vão replicá-lo. E o resultado vai ser o mesmo: desequilíbrio, só que do outro lado.
O líder de amanhã vai ter de encontrar o meio termo. Ser humano e exigente ao mesmo tempo. Ter compaixão e empatia, mas também dar garra e orientação. Conseguir acolher e cobrar na mesma conversa. É exactamente este equilíbrio entre estilos de liderança que eu acredito que vai definir quem consegue reter talento e quem o perde. Porque as pessoas não querem um chefe que manda, mas também não querem um líder que aceita tudo. Querem alguém que as faça crescer, mesmo que isso implique desconforto.
Ser mulher nos negócios: o peso que nós próprias carregamos
O Zé perguntou-me sobre os desafios de ser mulher em cargos de liderança. A resposta não foi a que ele esperava: o maior desafio vem de nós próprias.
Existe, claro, o preconceito externo. Há homens que não aceitam ser ensinados ou liderados por uma mulher. Eu sinto isso com mentorados e em muitos contextos profissionais. Mas o que me pesa mais é o comportamento entre mulheres. Somos mais duras umas com as outras do que devíamos. É mais fácil criticar o que a outra tem vestido do que reconhecer o que ela construiu. Olhamos para o supérfluo e ignoramos o importante. Reclamamos do comportamento dos homens em relação a nós, mas primeiro tínhamos de olhar para como nos tratamos entre nós.
E depois há a pressão interna. A sociedade ainda espera que a mulher seja a melhor mãe do mundo, a melhor esposa, a melhor dona de casa e a melhor profissional. Tudo ao mesmo tempo. E nós, em vez de questionarmos essa expectativa, interiorizamo-la. Pressionamos-nos a ser perfeitas em tudo e depois não nos sentimos seguras para ser o que realmente queremos ser. Porque escolher dedicar-se a um negócio significa passar menos tempo em casa. E a culpa aparece. A culpa que o homem, na mesma situação, simplesmente não sente da mesma forma.
E há uma coisa que eu defendo com toda a convicção: o maior desmérito que podem dar a uma mulher é dar-lhe um cargo por paridade. Eu não contrato pessoas porque são homens ou mulheres. Contrato pessoas porque são boas a fazer o que fazem. Independentemente do género. O que me importa é: é boa pessoa? É boa a fazer a função? Essa é a pessoa que eu contrato. A luta não é por quotas. É pelo direito de cada um ser o que quiser e ser reconhecido pelo mérito.
Mas a realidade ainda está longe disto. Eu desenho coisas com o Paulo, opinamos juntos, construímos em conjunto. E o reconhecimento vai para ele. A mensagem de agradecimento vai para ele. Ele próprio fica incomodado e diz "mas foste tu que fizeste". Mas do outro lado, o automático é: ela é mulher, não vou validar. Isto ainda acontece. E vai continuar a acontecer até nós, mulheres, nos unirmos mais entre nós e pararmos de nos desvalorizar umas às outras.
Decisões difíceis não se tomam com pressa
O Zé perguntou-me como é que eu tomo decisões difíceis. Depende do impacto. Se a decisão é simples, reversível, que amanhã se pode mudar, deixo que o momento me guie com a ajuda da matemática. Mas se a decisão tem um impacto grande no negócio ou na vida das pessoas, eu preciso de tempo.
Preciso de levar o assunto comigo, de ir ponderando sem obsessão. Gosto de pensar no banho, de meditar sobre os cenários: se formos por aqui, qual é o impacto? Se formos por ali, o que é que acontece? Ponderar, ponderar, ponderar. Não quer dizer que as decisões saiam acertadas. Mas pelo menos são decisões mais ponderadas.
O pior que eu posso fazer é tomar uma decisão importante quando estou a pensar nela de forma obsessiva, com a pressão de precisar de uma resposta já. Isso é cansativo, desgastante e não é a forma certa de decidir. As melhores decisões vêm quando eu já não estou a forçar o pensamento, quando deixo o assunto assentar e a resposta aparece com mais clareza. É o mesmo princípio que trabalhamos na imersão CHECKMATE: Liderança: dar aos líderes ferramentas para pensar com calma antes de agir com pressa.
O legado: podes ser o que quiseres, mas luta por isso
O Zé perguntou-me o que gostaria que ficasse como legado. A resposta veio sem hesitação: que as pessoas acreditem que podem ser o que quiserem, desde que façam por isso.
Não gosto da frase "a vida é difícil". Não é a vida que é difícil. É a forma como olhamos para ela que a torna fácil ou difícil. Mas precisamos de fazer a nossa parte. Precisamos de correr atrás do que queremos, de estudar para ser melhores, de meter as mãos na massa para saber se sabemos fazer, de conquistar aquilo que queremos ganhar. Ninguém nos dá nada. E está tudo bem com isso.
Se eu pudesse deixar uma marca, seria esta: ela escolheu ser aquilo que é e fez por isso. Cada um pode ser o que quiser. E pode ser tudo com amor.

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