

PODCAST
O Olhar da Coruja
Queres sucesso ou só a parte bonita dele com Diogo Bernardo | EP 26
Liderança
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Episódio 26
Sobre o episódio
Neste episódio do Olhar da Coruja, sentei-me à conversa com o Diogo Bernardo, gestor de tráfego da Agência Get Digital, para uma partilha aberta e descontraída sobre objectivos, desafios e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Falámos sobre inseguranças, a importância das pequenas vitórias, o que nos motiva todos os dias e como lidamos com mudanças e adversidades. Partilhei alguns dos meus momentos de viragem, os conselhos que dou (mas nem sempre sigo) e até alguns guilty pleasures. Entre histórias engraçadas, reflexões sobre resiliência e a procura por propósito, este episódio mostra o lado humano de quem está por trás do trabalho e das relações.
Sem objectivo, sem rumo
O Diogo começou por contar que tinha acabado de completar um Iron Man depois de 10 meses de treino intenso. Sentimento incrível de realização, seguido de um vazio: e agora? Dez meses com um rumo claro e, de repente, treinar sem destino. É uma sensação que qualquer empresário ou líder conhece bem: atinges uma meta e percebes que sem a próxima, perdes direcção.
Falámos sobre como ambos precisamos de objectivos para funcionar. Mas com uma diferença: eu preciso de objectivos pequenos, de pequenas vitórias ao longo do caminho, muito mais do que de uma meta grandiosa ao longe. Se o objectivo for demasiado grande e demorado, a probabilidade de me frustrar é enorme. Preciso de ir sentindo que estou a avançar. Ontem conseguia menos, hoje consigo mais. Pode ser uma coisa mínima, mas é essa sensação de progresso que me mantém estimulada.
O segredo não é evitar objectivos grandes. É desconstruí-los. Transformar um objectivo de um ano em micro-metas que podes validar semana a semana. Porque se andares às cegas durante meses sem perceber se estás no caminho certo, a frustração chega antes do resultado. E uma das coisas que mais trabalhamos com os empresários que passam pelas nossas formações é exactamente isto: transformar visão em acção diária, com indicadores que mostrem progresso real, algo que se aplica tanto na gestão de um negócio como na vida pessoal.
O que realmente me motiva (e não é o que parece)
O Diogo perguntou-me o que me faz levantar da cama de manhã. E fui honesta: há dias em que é pura obrigação. Sem floreados. Nem todos os dias acordo motivada. Há manhãs em que a hora de levantar parece a pior hora do dia. Depois passa, como tudo passa, mas nem sempre há uma razão inspiradora por trás.
Nos dias bons, o que me motiva são as pessoas. Os dias em que consigo não ter a agenda toda fechada e desço para estar com a equipa são os melhores. Alguém pede ajuda, alguém mostra o que está a desenvolver, alguém faz uma pergunta. Eu ia lá para 5 minutos e fico hora e meia. E gosto disso. Gosto de sentir o estado emocional das pessoas, de perceber quando alguém não está bem, mesmo que não diga nada. Às vezes, só perguntar "estás bem, precisas de alguma coisa?" pode mudar o dia de alguém. Não muda a situação, mas muda a forma como a pessoa a vive.
Quando há agenda com clientes ou com membros do Círculo Dourado, o que me estimula é ver a evolução deles. Ver pessoas a crescer, sejam colaboradores ou clientes, é das coisas que mais me realiza. É por isso que digo sempre que o meu sucesso são as minhas equipas.
As viragens que ninguém escolhe (mas que te definem)
Houve um momento na conversa em que o Diogo quis saber qual foi o momento que mudou o rumo da minha vida. A resposta não foi uma, foram várias. Ter um filho aos 15 anos. Arranjar um emprego aos 17 numa cidade diferente. Divorciar-me. E depois de 16 anos na mesma empresa, vê-la fechar de um dia para o outro.
Cada uma destas viragens destruiu aquilo que parecia ser certeza. E aprendi uma coisa fundamental com todas elas: a certeza deixa de ser certeza. E quando aceitas isso, o inesperado pode até ser interessante, porque normalmente vem acompanhado de coisas surpreendentes.
Quando a empresa fechou, Portugal estava em crise, a minha área não tinha saída, e eu tinha dois filhos para criar sozinha. Não havia rede de suporte. Era eu e eles. E sabes o que acontece quando não tens tempo para dramatizar? Ages. Não tens o luxo de deprimir durante uma semana. Não tens a opção de acordar ao meio-dia porque estás desmotivada. Tens contas para pagar e bocas para alimentar. E o propósito, naquela altura, era exactamente esse. Nada mais.
E é aí que descobres algo surpreendente: quando tens que agir mesmo, só vês as coisas positivas. Arranjei trabalho. Estou a conseguir pagar as contas. Os meus filhos têm comida. Tudo isto é positivo. Não há espaço para "não gosto muito disto" ou "preferia outra coisa". E essa experiência muda-te para sempre. Faz-te mais ponderada, mais resiliente, menos dada a desistir por qualquer contratempo.
Somos pouco resilientes (e isso está a custar-nos caro)
Isto levou-nos a uma conversa que me é muito cara: estamos a entrar no exagero do facilitismo. Os nossos antepassados viveram vidas genuinamente difíceis. Nós temos vidas mais leves, e ainda bem. Mas a consequência é que temos pouca resiliência. Qualquer contratempo e deprimimos. Qualquer obstáculo e desistimos. Qualquer coisa que não corra como queríamos e já é motivo para largar tudo.
A resiliência é uma competência, não um traço de personalidade. Constrói-se a enfrentar coisas difíceis, não a evitá-las. E eu vejo isto tanto nos negócios como na vida pessoal. Quantos empresários desistem de um projecto porque a primeira tentativa não correu bem? Quantas pessoas abandonam um objectivo porque ao fim de dois meses não viram resultados? A resiliência exige que mudes a estratégia, não o destino. Eu sei que o caminho é por aqui. Desta forma não funcionou. Como é que faço agora? Melhoro o processo e insisto. E insisto outra vez. Roça a teimosia? Às vezes. Mas eu prefiro ser teimosa do que ser alguém que desiste fácil.
Aliás, partilhei com o Diogo uma teimosia muito específica minha: eu não discuto para provar que tenho razão no momento. Deixo a outra pessoa ficar com a certeza dela. E depois, na primeira oportunidade em que a realidade prova o meu ponto, vou lá dizer: "Lembras-te?" O Paulo já tem muito cuidado a teimar comigo por causa disto.
Conselhos: porque é que nunca dou respostas fechadas
Chegámos a um tema que me toca profissionalmente: dar conselhos. Eu sou extremamente cuidadosa com os conselhos que dou, porque não gosto de ser taxativa. "Tens que fazer isto" é uma frase que me faz imensa confusão, seja na vida pessoal, seja nos negócios.
Porquê? Porque a minha visão é sempre a minha visão. Passei por uma situação parecida ou conheço alguém que passou, mas continua a ser uma perspectiva enviesada. A realidade daquela pessoa é diferente da minha. E se eu lhe disser "faz isto" e não funcionar, é mau. Prefiro mostrar que existem várias opções, cada uma com prós e contras, e deixar a pessoa reflectir. Pode acontecer isto se fores por aqui, pode acontecer aquilo se fores por ali. Pondera.
E fui honesta sobre o reverso da medalha: sou muito mais insegura do que parece. Preciso muito de validação. Peço conselhos constantemente, não porque não tenha opinião, mas porque quero mais pontos de vista. Quanto mais informação tiver, mesmo que sejam opiniões pessoais de cada pessoa, melhor consigo pensar. Adoro aquelas conversas de horas a discutir um desafio. E mesmo que leve a minha opinião avante, vou com mais certeza sobre o que pode correr bem e o que pode correr mal.
Esta forma de liderar, aberta a inputs, sem ego de achar que a resposta está sempre em nós, é o que distingue um líder que cresce de um que estagna. É algo que exploramos a fundo na imersão CHECKMATE: Liderança, porque a capacidade de delegar e decidir com inteligência emocional não nasce com ninguém. Desenvolve-se.
Trabalhar com a família: impossível separar (e tudo bem)
O Diogo quis saber como é que separo a vida pessoal da profissional, trabalhando diariamente com o Paulo e com a Joana. A resposta curta: não separo. E não preciso de separar.
Não gosto de viver a vida por blocos. Agora sou a profissional, agora sou a mãe, agora sou a namorada. Os dias não funcionam assim. Há dias em que o trabalho precisa mais de mim às 8 da noite, e ficamos a discutir um assunto urgente ao jantar. Há outros dias em que uma situação familiar exige que eu largue tudo durante a manhã. E está tudo bem. As prioridades mudam consoante o momento, não consoante o relógio.
O mais engraçado é que nós aqui no escritório até conseguimos separar melhor do que em casa, porque cada um tem a sua função e ela é respeitada. O desafio é quando discutimos trabalho com visões muito diferentes, com aquelas conversas mais acaloradas, e meia hora depois estamos sentados à mesa para jantar. O Paulo passado 30 minutos já nem se lembra. Eu fico a remoer pelo menos dois dias. Mas aprendi a achar piada a isso. E essa piada, no fundo, é o que torna o ambiente mais leve.
Dias estimulantes, não perfeitos
No final, o Diogo pediu-me para descrever o meu dia perfeito. A minha resposta foi simples: um dia em que tenha a manhã para estar com as equipas, a tarde para tomar decisões sem pressão, e zero stress vindo de qualquer lado. Depois pensei melhor e admiti: esse dia provavelmente nunca vai existir. E ainda bem. Porque são os dias intensos que tornam esta vida estimulante. Eu odeio dias monótonos. Aqueles dias de existir sem sentir, sem aprender, sem que nada aconteça. A vida é demasiado curta para passar dias e dias só a estar. Eu preciso de emoções, de coisas a acontecer, de conversas novas, de desafios diferentes. Preciso de dias estimulantes, não de dias perfeitos.

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