Podcast O olhar da coruja

PODCAST

O Olhar da Coruja

Ser boazinha nunca fez ninguém líder com Joana Costa | EP 25

Liderança

Episódio 25

Sobre o episódio

Neste episódio do Olhar da Coruja, recebo a Joana Carvalho Costa, nutricionista e mentora de profissionais de saúde, para uma conversa sobre liderança feminina, coragem para mudar, autenticidade e o verdadeiro significado de sucesso. A Joana revela a sua jornada da nutrição ao empreendedorismo, os desafios de romper padrões num sector conservador, a importância dos mentores e o impacto da mentalidade na forma como construímos um negócio e uma vida.

Não vendes uma consulta, vendes uma transformação

A Joana trouxe uma ideia que, apesar de simples, continua a ser ignorada pela maioria dos profissionais de saúde: ninguém sai de casa entusiasmado para ir a uma consulta de nutrição. O que as pessoas querem é resolver um problema, superar uma dor, chegar a um ponto B que parece distante. Querem a transformação, não a consulta.

E isto aplica-se a qualquer negócio. Se estás a vender o processo, estás a competir por preço e por proximidade. Se vendes a transformação, competes por valor. O paciente não te escolhe por seres o nutricionista mais barato ou o mais perto de casa. Escolhe-te porque acredita que contigo vai chegar onde precisa de chegar.

Esta mudança de perspectiva é o que separa profissionais que se queixam de falta de clientes de profissionais que constroem listas de espera. E não é exclusiva da saúde. Qualquer empresário que continue a vender o "o quê" em vez do "para quê" está a limitar-se. É uma mudança de mentalidade que se aplica tanto a um consultório como a uma PME com 50 colaboradores, e que está no centro do que trabalhamos na imersão CHECKMATE: Comercial: perceber que o cliente compra resultados, não características.

Nichar não é limitar, é libertar

Uma das resistências mais comuns que a Joana encontra nas nutricionistas que mentora é o medo de se especializar. A lógica parece fazer sentido: se eu atender toda a gente, tenho mais clientes. Mas é exactamente o oposto. Quanto mais nichado for o teu tema, mais estudas, mais te aperfeiçoas, mais referência te tornas. E mais fácil é atrair quem realmente precisa de ti.

O erro de querer abranger tudo é o mesmo erro que vejo em muitas empresas. Tentam servir todos os mercados, todos os segmentos, todos os perfis de cliente, e acabam por não ser excepcionais em nenhum. Especializar-se não é fechar portas. É abrir a porta certa com tanta força que as pessoas certas entram sem hesitar.

A Joana deu o exemplo de uma aluna que estava a investir numa formação de nutrição desportiva, quando a área que a apaixonava era o acompanhamento de grávidas. Não faria muito mais sentido investir tempo, dinheiro e energia exactamente naquilo que lhe faz brilhar o olho? Este alinhamento entre paixão e especialização é o que gera autoridade, e autoridade gera negócio.

A coragem treina-se em pequenas coisas

Se há uma metáfora que ficou desta conversa, foi a da pista preta. A Joana pratica ski e desafia-se constantemente a descer pistas acima do seu nível de conforto. Num desses dias, depois de parar a meio de uma pista olímpica para apreciar a vista, bloqueou. Tinha a técnica. Sabia que conseguia. Mas o medo paralisou-a.

E foi exactamente isso que ela trouxe para a conversa sobre negócios: nós fazemos isto todos os dias. Sabemos o passo que precisamos de dar. Vemos outros a dá-lo. Temos a técnica. Mas ficamos parados a meio da pista, bloqueados por uma mentalidade que nos diz que é demasiado arriscado, demasiado difícil, demasiado incerto.

O antídoto, segundo a Joana, é treinar a coragem nas coisas pequenas. Ir à montanha-russa mesmo com medo. Escolher a pista vermelha em vez da azul. Fazer aquela chamada que tens estado a adiar. Porque quando chegar a hora de tomar uma decisão grande no teu negócio ou na tua vida, o músculo da coragem já está trabalhado. Não precisas de o construir do zero no pior momento possível.

No dia seguinte ao bloqueio, a Joana voltou à mesma pista. E desceu-a. Mais do que uma vez. Porque superar aquele medo não era opcional, era necessário para continuar a acreditar que podia arriscar. É isto que distingue quem lidera de quem fica à espera: a capacidade de voltar ao ponto onde bloqueaste e tentar outra vez.

Uma vida sem mentores é uma vida muito vazia

Quando o Eduardo subiu a pista para ir buscar a Joana, ela fez na conversa uma associação que nem ela própria tinha feito antes: ele estava, naquele momento, a ser o mentor. Alguém que diz "tu consegues, vem comigo, eu ajudo-te a descer".

E a partir daí falámos sobre o papel dos mentores na vida e nos negócios. A posição da Joana é clara: se ela não estiver num grupo de mentoria, pára. Não porque não saiba o caminho, mas porque sem alguém que a desafie, que lhe mostre ângulos que ela não vê, que a obrigue a avançar quando o medo aparece, a probabilidade de ficar bloqueada é demasiado alta.

Aquilo que mais custa a qualquer ser humano é tomar decisões. Verde ou amarelo. Por aqui ou por ali. E quando estás a falar do teu negócio, da tua carreira, da tua vida, as consequências parecem enormes. Ter alguém que já fez o caminho, que te diz qual é a estratégia e que, mesmo quando não dá certo, não te julga por teres tentado, muda tudo. Porque vivemos numa sociedade de julgamentos. "Foste para a pista preta com a mania que ias conseguir e agora bloqueaste a meio?" É exactamente assim que muita gente reage quando alguém arrisca e falha. Ter um mentor ao lado é ter alguém que diz: "Caíste? Levantamo-nos e voltamos a descer."

Ser mulher nos negócios: empoderamento com delicadeza

A conversa tomou um rumo pessoal quando falámos sobre o que significa ser mulher no mundo dos negócios. A Joana recordou as primeiras formações que deu, num ambiente predominantemente masculino, onde sentia que tinha de vestir uma capa de seriedade rígida para ser levada a sério. Quase que nem podia sorrir, porque um sorriso parecia diminuir a credibilidade.

Isto tem vindo a mudar, e ainda bem. Mas partilhámos uma observação curiosa: quando uma mulher se afirma num grupo de homens e os forma, eles reconhecem-na mais abertamente como mentora do que as próprias mulheres. Não têm problema em dizer "aprendi com ela, foi ela que me orientou". Entre mulheres, o reconhecimento é mais difícil, porque esbarra na competição silenciosa do "se eu a reconheço, estou a minimizar-me".

O que eu acho mais bonito na forma como a Joana se posiciona é que ela é empoderada e delicada ao mesmo tempo. Não precisou de se masculinizar para se afirmar. Trouxe a sua essência, a sua feminilidade, a sua verdade, e fez disso uma força. Podes ser uma líder forte sem deixar de ser quem és. E quando o fazes com autenticidade, as pessoas sentem. É a diferença entre vestir um papel e viver os teus valores.

O mito das 4 horas por semana

Perto do final, falámos de equilíbrio. E a Joana foi brutalmente honesta: ainda não chegou lá. Houve uma fase em que tentou ser aquela pessoa que acorda às 6 da manhã, faz exercício, lê um livro e resolve tudo em 3 ou 4 horas. Funcionou nalguns dias. Noutros, trabalhava muito mais. E a frustração de não conseguir manter aquele ideal transformou-se em incoerência: como é que mostro isto à minha audiência se eu própria não consigo viver assim?

A verdade que ela encontrou é simples: está tudo bem não encaixar num molde. Está tudo bem trabalhar até à meia-noite quando é preciso e tirar a sexta-feira inteira para estar com a família quando é possível. O equilíbrio não é uma fórmula fixa de horas. É a liberdade de escolher como distribuis a tua energia consoante o que a vida pede em cada momento.

O que era inegociável para ela desde o início foi claro: não queria ser a primeira mãe a deixar os filhos na escola e a última a ir buscá-los. E essa decisão, tomada em 2014 quando abandonou o emprego "certinho", foi criticada pela família, pelos amigos, pela sociedade. Mas foi essa decisão que lhe deu exactamente o que procurava: presença. Poder estar nos momentos que importam. Poder reorganizar a agenda quando um filho está doente. Poder viver, e não apenas existir entre horários.

Aceitar que vais falhar é o primeiro passo

A mensagem final da Joana foi das mais poderosas que já ouvi neste podcast: aceita que vais falhar. Não amanhã, não eventualmente. Vais falhar. Vai haver dias em que não dá. Dias em que vais duvidar. Dias em que nenhum papel, nem o de mãe, nem o de profissional, nem o de mulher, vai parecer estar a correr bem.

Mas a pergunta que importa é: o que é que te move? O que é que te faz vibrar? O que é que te faz fazer o que fazes todos os dias? Se a resposta a essa pergunta continua a fazer sentido, muda a estratégia, não o destino. E se o rumo que estás a caminhar já não te serve, muda. É possível mudar. Toma pequenas decisões, microdecisões todos os dias, que te tirem da zona de conforto. Porque quando chegar a hora de tomar a decisão grande, vai ser mais fácil acreditares que vai dar certo no final.

A Joana acredita que vai dar certo no final. E eu acredito com ela. É exactamente esta mentalidade que construímos com os empresários na imersão CHECKMATE: Liderança: a coragem de falhar, aprender e continuar.

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