Podcast O olhar da coruja

PODCAST

O Olhar da Coruja

Uma mulher incomoda quando quer mais com Filipa Nogueira | EP 24

Liderança

Episódio 24

Sobre o episódio

Neste episódio do Olhar da Coruja, converso com a Filipa Nogueira, designer da Agência Get Digital, sobre liderança feminina, ambição com propósito e os desafios de construir um negócio começando numa pequena aldeia. Partilho histórias reais de empreendedorismo, a importância de gerir as emoções no mundo dos negócios e como transformar ambição em impacto positivo, sem perder a autenticidade.

Quando a ambição é mal vista

A Filipa e eu partilhamos uma origem em comum: Pombal. E quem vem de uma aldeia sabe exactamente do que estamos a falar quando dizemos que a ambição, naquele contexto, era quase um defeito de carácter. "Isso não é para ti." "Tem a mania das grandezas." "Não está bem com o que tem." Eram frases que ouvíamos com naturalidade, repetidas por pessoas que nos queriam bem, mas que nunca tinham visto o mundo de outra forma.

Crescer assim é limitador. Faz-te acreditar que querer mais é sinónimo de ganância, que sonhar fora do perímetro da aldeia é falta de humildade. E o pior: faz-te sentir culpada por quereres algo diferente. Porque numa terra pequena, a novidade espalha-se em horas e raramente é para impulsionar, é quase sempre para criticar.

Quem tinha negócios era visto com um misto de admiração e desconfiança. Admiração porque era "alguém", desconfiança porque "se calhar não era tão honesto". E eu hoje percebo que essas pessoas simplesmente tinham um estilo de vida diferente. Um empresário que trabalha 18 horas por dia não tem a mesma disponibilidade de quem chega a casa às 6. Isso não o torna arrogante, torna-o ocupado. Mas quando o teu mundo é pequeno, tudo o que foge ao padrão é visto como ameaça, não como inspiração.

A Filipa descreveu uma sensação que eu conheço bem: ter duas vidas. A vida durante o dia, na cidade, onde podes pensar em grande. E a vida ao fim do dia, quando voltas à aldeia, onde tens de encolher outra vez. É quase esquizofrénico, mas era real. E sair dessa mentalidade foi um dos primeiros actos de liderança que ambas tivemos de fazer, muito antes de liderar quem quer que fosse.

Dias sem rotina e a gestão do caos

Quando a Filipa me perguntou como é um dia meu, a resposta honesta foi: não sei. Mesmo quando planeio, mesmo quando a agenda está organizada, o dia muda assim que chego ao escritório. Alguém precisa de 5 minutos. Depois outro alguém. Depois surge algo urgente que não existia às 9 da manhã. O dia que eu achava que ia ser tranquilo transforma-se num desfile de solicitações antes sequer de subir as escadas.

E isto gera ansiedade. Não vou fingir que não gera. Há dias em que vinha preparada para analisar questionários de satisfação e passar o dia inteiro em modo estratégico, e acabo a resolver coisas operacionais que caíram do nada. O desafio não é gerir as coisas, porque essas resolvem-se. O desafio é gerir as emoções que essas coisas provocam. É parar, respirar, perceber se aquilo é realmente tão grave que justifique bloquear, ou se é só mais um imprevisto que se resolve com calma.

Uma coisa que aprendi: as emoções provocadas pelo imprevisto bloqueiam-nos muito mais do que o imprevisto em si. Se eu deixar a ansiedade tomar conta, fico paralisada em todas as frentes. Se eu aceitar que o que tinha planeado vai ter de esperar e resolver o que é urgente com tranquilidade, o dia continua a funcionar. Nem sempre consigo. Mas quando consigo, a diferença é brutal.

E depois há a gestão das pessoas por trás das coisas. Uma situação que para mim não é urgente pode ser enormemente importante para alguém da equipa. Se eu não lhe der uma resposta hoje, essa pessoa vai ficar uma semana em ansiedade. Perceber isto, sentir isto, é parte de liderar. E é uma das competências que mais trabalhamos quando falamos de inteligência emocional na liderança: a capacidade de ler o impacto emocional das tuas decisões, mesmo das pequenas.

Os 10 minutos entre uma vida e outra

A Filipa quis saber como é que eu desligo ao fim do dia. A verdade: preciso de 10 minutos. Só 10 minutos entre chegar a casa e começar a ser outra coisa. Não é um desligar completo. Não significa que depois não vá para a cama a pensar que amanhã preciso de resolver aquilo, falar com aquela pessoa, não esquecer daquela situação. Mas aqueles 10 minutos de transição, de respirar, de deixar um botão desligar antes de ligar o outro, fazem a diferença entre arrastar o dia todo para casa ou começar a noite com um mínimo de espaço mental.

Não é fácil. E não vou romantizar isto. Há noites em que a cabeça não desliga. Mas ter esse ritual, por mais simples que seja, é o que me permite continuar a funcionar em modo intenso sem rebentar.

Criar uma empresa exige mais coragem do que saltar de paraquedas

Houve um momento hilariante na conversa em que a Filipa me perguntou se havia algo que eu não tivesse coragem de fazer. A resposta: saltar de paraquedas. E não faço questão de me desafiar a isso. Não sinto que preciso de provar coragem com adrenalina física. Porque eu acho que é preciso muito mais coragem para criar e manter uma empresa do que para saltar de um avião.

Saltar de paraquedas dura meia hora. A emoção passa. Uma empresa é todos os dias. É acordar sem saber o que vai acontecer. É tomar decisões que impactam dezenas de pessoas. É lidar com a incerteza permanente de não saberes se amanhã o mercado muda, se um cliente sai, se um colaborador precisa de ti de uma forma que não estavas à espera. Isso sim exige coragem. A coragem que se renova todos os dias, silenciosamente, sem plateia e sem aplausos.

Não preciso de saltar de paraquedas para saber que sou corajosa. Faço coisas muito mais difíceis do que isso antes das 10 da manhã.

Deixar emoções, não o nome

Uma das perguntas mais bonitas da conversa veio da Filipa: "Gostarias de deixar algum impacto no mundo?" A minha resposta surpreendeu-a, acho eu.

Já houve uma altura em que pensava mais em deixar uma marca na sociedade, no sector, na área. Hoje penso diferente. Preocupo-me muito mais com o impacto que tenho nas pessoas que partilham a vida comigo, mesmo que por pouco tempo. Nas pessoas da equipa. Nos empresários que passam pelas nossas imersões. Nas pessoas que cruzam o meu caminho e, de alguma forma, levam algo dessa passagem.

Eu quero deixar mais emoções do que o nome. Prefiro que as pessoas se lembrem de como as fiz sentir do que daquilo que fiz ou deixei de fazer. Porque no final, o nome desaparece. O que fica é a marca emocional que deixaste em alguém. O momento em que perguntaste "estás bem?". O dia em que fizeste a diferença sem sequer perceberes. A conversa que alguém se lembra 10 anos depois. É isso que importa.

E quando a Filipa me perguntou com quem eu gostaria de jantar se pudesse escolher qualquer pessoa, a resposta não foi um CEO famoso nem uma figura histórica. Era o meu pai. Que faleceu há 24 anos. Não pela saudade, que essa está sempre lá, mas pela curiosidade de ter com ele uma conversa de adulta. Porque há 24 anos eu era uma filha. Hoje sou outra pessoa. E gostava de poder partilhar com ele, durante uma horinha, estes 24 anos. Perceber se ele continuaria a ter orgulho. Acho que sim. Mas gostava de o ouvir dizer.

Ser má a fazer algo que amas é melhor do que ser boa a fazer algo que odeias

Antes de fecharmos, a Filipa fez-me uma pergunta rápida que vale a pena guardar: preferirias ser péssima em algo que amas ou muito boa em algo que odeias?

Péssima em algo que amo. Sem hesitar. Porque se amo aquilo, vou melhorar. A paixão dá-te a persistência que a competência sozinha não dá. Ser muito boa numa coisa que odeio é uma prisão dourada: tens o resultado, mas não tens o prazer. E sem prazer, nenhum resultado se sustenta.

Todos nós somos maus a fazer aquilo que amamos quando começamos. A diferença está em quem continua. E continuar, quando amas o que fazes, não é sacrifício. É o caminho mais natural do mundo. É exactamente isto que dizemos aos empresários que passam pela imersão CHECKMATE: Liderança: encontra o que te faz vibrar e investe tudo aí. O resto resolve-se pelo caminho.

Mais episódios

Mais episódios

Sem empatia lideras como a IA com Bruno Piedade | EP 28

Liderança

Episódio 28

Sem empatia lideras como a IA com Bruno Piedade | EP 28

O erro que toda a gente comete com Giovanni Ferreira | EP 27

Liderança

Episódio 27

O erro que toda a gente comete com Giovanni Ferreira | EP 27

Queres sucesso ou só a parte bonita dele com Diogo Bernardo | EP 26

Liderança

Episódio 26

Queres sucesso ou só a parte bonita dele com Diogo Bernardo | EP 26