Podcast O olhar da coruja

PODCAST

O Olhar da Coruja

Como lidar com o lado emocional das equipas com Andreia Sampaio | EP 8

Liderança

Episódio 8

Sobre o episódio

Este é mais um episódio do Olhar da Coruja em que sou eu a responder às perguntas da equipa. Desta vez é a Andreia Sampaio, CS&CX da Digital Elevation, a nossa responsável pela felicidade dos clientes, que está connosco há 5 anos. A Andreia trouxe-me perguntas que ninguém me tinha feito desta forma: como é que eu me vejo, como é que eu acho que os outros me vêem, e como é que eu gostava que me vissem. Três coisas muito diferentes. Falámos sobre fragilidade, sobre o lado sombra que toda a gente tem e ninguém quer aceitar, sobre o medo de tomar decisões erradas, e sobre a definição de sucesso que mudou por completo ao longo dos anos.

Três versões da mesma pessoa

A Andreia começou forte: como é que tu te vês, como é que achas que os outros te vêem, e como é que gostavas que te vissem? Três perguntas numa só. E as respostas são, de facto, muito diferentes.

Como é que os outros me vêem? Como a líder, a dona dos negócios, a palestrante, a formadora, a mentora. O lado profissional. É esse que eu exponho mais e, por isso, é natural que seja esse que as pessoas reconhecem. A responsabilidade não é só das pessoas, é minha também, porque é essa versão que eu mostro ao mundo.

Quem é que eu sou? Sou essas coisas todas. Gosto muito de sê-lo. Mas sou também o oposto. Sou uma pessoa muito frágil e muito sensível em muitas coisas, em muitos dias e em muitos momentos. Sou muito mais emocional do que a maioria das pessoas vê. Sei que sou vista como fria, dura, por vezes rude. A verdade é que sou muito mais sensível do que parece, muito mais insegura do que transparece, muito sentimental, com as emoções à flor da pele. Choro fácil. Rio fácil também. É um equilíbrio.

Como é que eu gostava que me vissem? O misto das duas. Porque eu acredito que é possível liderar com emoção. Ser alegre, leve, bem-disposta, ter sensibilidade para ouvir o outro, ser vulnerável, ser frágil, e ao mesmo tempo ser capaz de tomar decisões, de orientar, de exigir. As pessoas acreditam que num nível de liderança tem de haver um afastamento emocional grande. Eu acredito que não. Acredito que conseguimos sentir-nos uma equipa vivendo emoções uns com os outros.

Mas também reconheço que lá fora, num primeiro contacto, se eu mostrasse toda a minha fragilidade, muita gente não me ia levar a sério. O inconsciente colectivo ainda espera que a gestora de empresa seja alguém frio, que só entende de números. É preciso ir mostrando as camadas devagarinho. Mas um dia, espero que fiquemos todos mais à vontade com o facto de sermos todos seres humanos. Gerir números e gerir conflitos na equipa exige a mesma coisa: sensibilidade para perceber o que está a acontecer antes de reagir.

O lado sombra que doeu aceitar

A Andreia perguntou-me o que aprendi sobre mim ao longo destes anos. Aprendi duas coisas que me doeram muito a aceitar.

A primeira: que tenho de aceitar que também sou vulnerável. Durante muito tempo lutei contra isso. Eu tenho de ser dura, tenho de ser capaz, tenho de aguentar. E essa luta do "não aceitar" era como se eu me negasse a mim própria. Só quando aceitei que também sou frágil é que consegui evoluir. Enquanto negava essa parte, estava incompleta.

A segunda doeu ainda mais. O meu terapeuta, o Mário, disse-me uma vez: "Tu tens tanto o lado de luz como o lado de sombra." E eu fiquei chocada. Como assim, eu tenho um lado mau? Eu sou tão boa pessoa, tão pelos outros, como é que alguém me diz isso? Mas é verdade. Se eu não tiver os dois lados, estou em desequilíbrio. Tenho de ter o forte e o frágil. Tenho de ter o lado luz e o lado sombra. E aceitar isto, viver isto, foi das coisas mais dolorosas que eu aprendi.

Mas trouxe uma consequência poderosa: quando aceito que eu também tenho um lado menos bom, consigo compreender muito melhor o lado menos bom dos outros. Se alguém fez alguma coisa errada, consigo pensar "se fosse eu, se calhar tinha feito a mesma coisa". Porque as pessoas são mais impulsivas, mais agressivas, mais reactivas, quanto maior é a sua insegurança. E aceitar isso muda a forma como lidamos com as equipas. Não desculpa tudo, mas explica muito.

Da serra à cidade: uma infância que não escolheu, uma vida que construiu

A Andreia perguntou-me como é que a minha infância influenciou quem eu sou hoje. A infância influenciou quem eu sou, não o que eu faço. Porque na infância não temos consciência do que está a acontecer. Vivemos sem conseguir lidar com as coisas. O que aconteceu na adolescência, já com alguma consciência, é que influenciou o que eu faço hoje.

Foi aí que nasceu a garra. O querer ter uma vida diferente. O acreditar que somos o que quisermos ser. O perceber que somos responsáveis pelas nossas escolhas e que podemos escolher o que queremos ser, mas temos de lutar por isso todos os dias. Não uma vez. Todos os dias. Porque todos os dias nos perdemos no caminho e todos os dias temos de ajustar a rota.

Não tive uma infância muito diferente da vida que tenho hoje, curiosamente. E isso trouxe-me algo que eu valorizo imenso: o pouco é muito. A simplicidade consegue complementar-me, completar-me. Não perdi essa essência, apesar de tudo o que mudou à minha volta. E a Andreia disse uma coisa bonita: "Continuas a ser a Regina que tu eras. Não perdes a tua essência." Isso para mim vale mais do que qualquer elogio profissional.

O medo de uma mãe, o medo de uma líder

A Andreia quis saber qual é o meu maior medo. Tenho vários. Mas há dois que me acompanham de forma constante.

O primeiro é o medo de mãe. Será que estou a fazer tudo bem? O que acontece quando eu não estiver cá? Será que os meus filhos vão precisar de mim e eu não vou estar? É um medo que alimenta o ego, eu sei. Porque no fundo queremos acreditar que os nossos filhos precisam sempre de nós. Mas é um medo real e é um medo que me acompanha.

O segundo é o medo de tomar decisões erradas que impactem a vida das pessoas que trabalham comigo. Não pela empresa. Pela vida delas. Cada pessoa que trazemos para dentro é uma responsabilidade. E se uma decisão minha correr mal, não é só a empresa que sofre, são as pessoas. E eu sei, racionalmente, que se alguma coisa correr mal na empresa, quem fica com o problema sou eu. Os financiamentos são meus, o aval sou eu, quem depois não arranja emprego facilmente sou eu. Vocês saem, arranjam emprego e ficam bem. Eu não tenho essa opção.

Mas eu não consigo ser racional 24 horas por dia. A primeira coisa que chega quando penso em tomar uma decisão é emoção. Sempre. Depois é que tenho de transformar aquilo, trazer para o racional, perceber o que faz sentido, qual é o medo que tenho de respeitar e qual é o medo que tenho de eliminar. E é esse trabalho de avaliação de desempenho emocional, feito comigo mesma antes de cada decisão, que me permite continuar a decidir. Senão, não tomava decisão nenhuma.

Sucesso já não é o que era

A Andreia perguntou-me como é que a minha definição de sucesso mudou ao longo dos anos. Mudou muito.

Houve uma fase em que eu acreditava que sucesso era faturar muito, ser reconhecida, sair em revistas, ir à televisão. Passei por essa fase e percebi rapidamente que aquilo não tem nada a ver com sucesso. Quando andamos nesse rodopio, há mais momentos de frustração do que de felicidade, mesmo que não transpareça.

Hoje, sucesso é outra coisa. É podermos estar aqui a conversar. É virmos para o escritório com felicidade. É podermos brincar uns com os outros. É conquistarmos objectivos e festejarmos juntos. É a vivência do dia a dia. Aquilo que nós podemos mudar na vida uns dos outros. Não sou só eu na vossa vida, são vocês na minha, são vocês na vida uns dos outros. Isso para mim é sucesso. Sinto-me a viver em sucesso porque crio e alimento todos os dias uma forma de me sentir feliz e de fazer alguém sentir-se feliz.

E é engraçado porque isto acontece em equipa: atingimos um objectivo, festejamos, e no dia seguinte aquilo já não está em nós. Já precisamos de mais qualquer coisa. E no dia seguinte mais qualquer coisa. Precisamos constantemente de algo que nos mantenha preenchidos. E esse preenchimento, a que chamam felicidade ou alegria, para mim é sucesso.

Justiça, ambição e honestidade

A Andreia perguntou-me pelos valores que guiam as minhas decisões. Três: justiça, ambição e honestidade.

Justiça é o principal. Qualquer coisa que eu tenha de fazer, a primeira pergunta é: está a ser justo? Se tenho de falar com alguém da equipa, não consigo ter essa conversa sem ponderar se aquilo que vou dizer é justo, se a situação foi única, se a pessoa pode estar com uma dificuldade que eu desconheço. E quando sei que fui injusta, sofro imenso. É mais forte do que eu.

Ambição é o segundo. Não ambição de dinheiro. Ambição de ser uma boa líder, uma boa mãe, de ter um dia feliz. Se não tivermos ambição, andamos na rodinha do rato. Falta-nos garra para dar mais um passo, para ter mais uma conversa, para dar mais um abraço. A ambição, para mim, é o que nos levanta todos os dias.

Honestidade é o terceiro. Se há algo que me magoa profundamente é a desonestidade. Estar a ajudar alguém que sei que me está a trair. Ser transparente com alguém e depois perceber que essa pessoa não foi honesta comigo. Deixa-me triste. E é por isso que tenho muito cuidado em ser o mais honesta possível com as pessoas. Porque quero poder exigir o mesmo. E estes três valores juntos, justiça, ambição e honestidade, são exactamente a base daquilo que eu levo para a imersão CHECKMATE: Liderança: liderar com garra, mas com justiça e verdade.

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