Podcast O olhar da coruja

PODCAST

O Olhar da Coruja

Não te falta tempo! Falta-te visão do resultado com Carla Ferreira | EP 11

Liderança

Episódio 11

Sobre o episódio

Neste episódio do Olhar da Coruja, recebo a Carla Ferreira, CEO da Factor H, especialista em recrutamento, formação e desenvolvimento de pessoas. A Carla vive no cruzamento mais difícil que existe nos negócios: entre os sonhos dos candidatos e as necessidades das empresas. Falámos sobre porque é que lidar com pessoas é na verdade lidar connosco, sobre a nova geração que não quer menos mas quer diferente, sobre o erro gigante que a maioria dos departamentos de recursos humanos comete, e sobre a única coisa que nos vai distinguir das máquinas no futuro.

A dificuldade não são os outros. São as emoções que os outros despertam em nós.

A conversa começou por aquilo que toda a gente diz ser o maior desafio da liderança: lidar com pessoas. Mas a Carla virou isso ao contrário. O maior desafio não é lidar com as emoções dos outros. É lidar com as emoções que os outros despertam em nós.

Alguém lhe disse uma vez que só vemos nos outros aquilo que temos em nós próprios. Aquilo que não gostamos nas acções e atitudes dos outros são, muitas vezes, as coisas que nós próprios precisamos de melhorar. E quando sentimos essas emoções de forma profunda, é difícil lidar com elas, principalmente quem nunca fez o exercício de se conhecer a si próprio.

Eu disse-lhe que é muito fácil para mim perdoar os erros dos outros, mas os meus são difíceis. Ela concordou. Porque fomos educados a colocar o outro em primeiro lugar. A satisfazer o cliente, a trabalhar para o patrão, a anular-nos para agradar. Aquela história de que o cliente tem sempre razão. E das coisas que a Carla mais se arrepende na vida profissional é exactamente essa: ter feito tantas vezes um esforço gigante para agradar a clientes que não valorizavam o seu trabalho, a sua equipa nem o esforço. Se pudesse voltar atrás, não teria feito.

A nova geração não quer menos. Quer diferente.

A Carla trabalha no recrutamento há anos e tem uma visão privilegiada sobre como mudaram os candidatos. E foi directa: a nova geração não é menos comprometida. O compromisso é diferente. Tem limites. Tem fronteiras entre a vida pessoal e profissional que a nossa geração nunca teve, porque nós nascemos para trabalhar e nunca ninguém nos disse que era possível viver de outra forma.

O que mudou foi o conceito de realização. Na nossa geração, ser realizado era ter um bom trabalho e ganhar muito dinheiro. Hoje, realização é sentir que o trabalho é valorizado e, ao mesmo tempo, ter espaço para as outras áreas da vida. A nós foi-nos ensinado a ter. A nova geração está a aprender a viver. Não sei se já estão a aprender a ser, diz a Carla, porque ainda falta introspeção. Mas estão a aprender a viver, a experienciar, a procurar liberdade. E isso é maravilhoso, mesmo que crie desafios enormes para as empresas.

Toda a gente sonhava ter uma casa. Grande, de preferência. Para a vida. Hoje, muitos jovens nem querem carta de condução. Não porque sejam preguiçosos. Porque a realização deles não está nas mesmas coisas. E quem recruta precisa de perceber isso, senão vai continuar a exigir amor à camisola 24 horas por dia e a queixar-se de que ninguém quer trabalhar.

O erro que 90% dos departamentos de recursos humanos cometem

Uma das partes mais contundentes desta conversa foi sobre gestão de recursos humanos. A Carla foi clara: a maioria dos departamentos de RH são departamentos de contratação. Fazem entrevistas, processam salários, fazem onboarding e offboarding. E ponto.

O que falta é a componente de desenvolvimento de pessoas. Uma estratégia real para fazer crescer quem já está dentro. Perceber quais são as necessidades de cada pessoa, qual é o plano de carreira, qual é o potencial que não está a ser aproveitado. Mas esta componente não é vista como lucrativa. As empresas fazem orçamento para vendas, para marketing, para stock, mas não fazem orçamento para pessoas. Como se investir nas pessoas não gerasse retorno.

A Carla diz que é possível medir esse retorno. Conseguimos medir resultados de produtividade. Conseguimos ver o impacto de uma equipa motivada versus uma equipa que está a cumprir os mínimos. E a diferença entre uma pessoa que faz os mínimos e uma que dá um bocadinho mais de si não tem a ver com o tempo que trabalha. Tem a ver com a dedicação durante as horas que lá está. E essa dedicação, muitas vezes, conquista-se com coisas tão simples como deixar alguém ir buscar a filha à escola.

As pessoas dizem "não tenho tempo para investir nas equipas". A Carla responde: não é falta de tempo, é falta de prioridade. Porque se amanhã uma equipa inteira se despedir, vais ter tempo. Vais precisar de muito mais tempo para recrutar, para formar, para recomeçar. E o retorno nunca vai ser o mesmo. É como os atalhos: para não perderes uma hora agora, vais ter de investir 10 ou 15 depois.

Para mudar empresas, precisamos mudar líderes

Perguntei à Carla se os líderes precisam de formação ou se a liderança é inata. A resposta foi das melhores que já ouvi: os grandes líderes procuram formação. Os grandes chefes não.

Há uma parte de relacionamento e atitude que pode ser mais natural em algumas pessoas. Mas tudo o resto desenvolve-se. E liderar dentro de uma empresa é diferente de liderar na generalidade. Precisas de aprender, de sair da empresa, de estar com outros líderes, de abrir horizontes. Hoje a liderança é muito mais desafiante do que há 20 anos, porque as mudanças são tão rápidas que quem não se actualiza fica para trás em meses, não em anos.

E a Carla trouxe uma observação que me ficou: as gerações mais antigas, as dos nossos pais, podiam não ter treinado liderança humanizada, podiam ser mais chefes do que líderes, mas tinham uma coisa. Falavam com as pessoas. Cumprimentavam cada colaborador de manhã. Podiam dar berros, mas estavam presentes. Conheciam os nomes, conheciam as histórias. Algumas das novas gerações de líderes, com todo o conhecimento teórico sobre liderança, não conseguem criar essa conexão básica. E a conexão humana é exactamente aquilo que nos vai distinguir da inteligência artificial no futuro. Máquinas não criam empatia. Máquinas não ouvem. Máquinas não se sentam ao lado de alguém e perguntam como é que estás.

Na pandemia, ligaram para perguntar como é que eu estava

A Carla contou uma história que eu lembro perfeitamente porque estava do outro lado. Quando veio a pandemia, a Factor H parou. Ninguém recrutava, a formação era toda presencial e acabou de um dia para o outro. Sete pessoas na equipa e zero trabalho à vista.

A primeira coisa que a Carla fez foi pedir um crédito ao banco para garantir que conseguia pagar salários durante um ano. A segunda foi pôr a equipa inteira a ligar para todos os clientes e formandos. Não para vender nada. Para perguntar como é que estavam. Três semanas inteiras a ligar para pessoas sem nenhuma expectativa de retorno. E esse gesto, que parecia não ter valor financeiro nenhum, trouxe-lhes resultados enormes depois da pandemia. Porque quando tudo recomeçou, as pessoas lembraram-se de quem ligou.

O que faz a Carla feliz hoje

Perto do final, perguntei-lhe o que a faz feliz. Em termos profissionais, é perceber que alguma coisa que fez mudou e transformou a vida de alguém. Seja no recrutamento, a colocar a pessoa certa no sítio certo. Seja na formação, quando alguém diz "eu quero mudar a minha vida". Seja dentro da sua própria equipa, quando vê as pessoas crescerem e realizarem sonhos.

Mas houve uma resposta mais pessoal que me tocou. A Carla separou-se do pai da filha quando ela ainda era pequena. Foram anos de culpa: muitas noites fora, muitas vezes a deixar com os avós, a sensação constante de que não estava a ser suficiente. E hoje, a olhar para a filha que vai fazer 17 anos, percebe que afinal não correu mal. Ela tornou-se independente, bonita, líder. Organiza tudo para toda a gente. E essa constatação trouxe uma leveza que a Carla não tinha há anos. Não é que o sacrifício não tenha existido. Existiu. Mas não teve o impacto negativo que ela tanto temia.

A Carla disse uma coisa que resume tudo: faltam-lhe as human skills. Fala-se muito em soft skills e hard skills, mas as competências humanas, essas, são as que fazem toda a diferença. Nos negócios, na liderança, na vida. E é por isso que a imersão CHECKMATE: Liderança existe: para trabalhar aquilo que nenhum manual ensina, mas que toda a gente sente quando está presente.

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