Aumentar preços sem perder clientes: a quem comunicar e por que ordem

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Aumentar preços sem perder clientes

Poucas decisões de gestão são adiadas com tanta convicção como esta. A margem aperta há dois anos, os custos subiram, toda a gente na empresa sabe que a tabela está desatualizada, e mesmo assim o assunto reaparece em cada reunião de direção para voltar a ficar para depois. O argumento é sempre o mesmo e tem a forma de uma pergunta: e se perdermos clientes? O medo é legítimo e a resposta que ele recebe raramente o é. Quem quer subir preços costuma apresentar uma percentagem. Quem tem medo costuma apresentar um nome, o do cliente que vai reagir mal. E a conversa termina empatada, porque ninguém trouxe a única coisa que resolveria a discussão: uma lista de clientes ordenada por quanto cada um paga hoje face ao que devia pagar, e um plano que trate cada grupo de forma diferente. O aumento de preços quase nunca corre mal por causa do valor. Corre mal por causa da sequência, do enquadramento e do momento. Um aumento de 8% comunicado na ordem certa, com a razão certa, às pessoas certas, passa quase sem ruído. O mesmo aumento anunciado numa circular igual para toda a gente na semana em que um cliente está aborrecido com um atraso de entrega custa contas que demoraram anos a construir. O que se segue é o método. Primeiro os números que dizem por que motivo isto importa mais do que parece, depois o que a investigação diz sobre quando é que um aumento é aceite, e por fim a ordem concreta pela qual se comunica.

Poucas decisões de gestão são adiadas com tanta convicção como esta. A margem aperta há dois anos, os custos subiram, toda a gente na empresa sabe que a tabela está desatualizada, e mesmo assim o assunto reaparece em cada reunião de direção para voltar a ficar para depois. O argumento é sempre o mesmo e tem a forma de uma pergunta: e se perdermos clientes? O medo é legítimo e a resposta que ele recebe raramente o é. Quem quer subir preços costuma apresentar uma percentagem. Quem tem medo costuma apresentar um nome, o do cliente que vai reagir mal. E a conversa termina empatada, porque ninguém trouxe a única coisa que resolveria a discussão: uma lista de clientes ordenada por quanto cada um paga hoje face ao que devia pagar, e um plano que trate cada grupo de forma diferente. O aumento de preços quase nunca corre mal por causa do valor. Corre mal por causa da sequência, do enquadramento e do momento. Um aumento de 8% comunicado na ordem certa, com a razão certa, às pessoas certas, passa quase sem ruído. O mesmo aumento anunciado numa circular igual para toda a gente na semana em que um cliente está aborrecido com um atraso de entrega custa contas que demoraram anos a construir. O que se segue é o método. Primeiro os números que dizem por que motivo isto importa mais do que parece, depois o que a investigação diz sobre quando é que um aumento é aceite, e por fim a ordem concreta pela qual se comunica.

Paulo Faustino

Paulo Faustino

O que está em jogo, em números

O que está em jogo, em números

Vale a pena começar pela alavanca, porque muita gente adia esta decisão sem perceber a assimetria que tem em mãos.

Michael Marn e Robert Rosiello, então na McKinsey, publicaram na Harvard Business Review um estudo que se tornou referência sobre o efeito do preço na rentabilidade. Trabalhando sobre a economia média de 2.463 empresas do agregado Compustat, calcularam que uma melhoria de 1% no preço, sem perda de volume, aumenta o lucro operacional em 11,1%.

A comparação com as outras alavancas é o que torna o número desconfortável. Uma melhoria de 1% no custo variável produz 7,8%. Uma melhoria de 1% no volume produz 3,3%. Uma melhoria de 1% no custo fixo produz 2,3%. Os autores resumem assim: melhorias de preço têm tipicamente 3 a 4 vezes o efeito na rentabilidade face a aumentos proporcionais de volume.

E a lâmina corta dos dois lados. Os mesmos autores notam que, para uma empresa com economia média, uma descida de 1% no preço destrói 11,1% do lucro operacional. É por isso que o desconto concedido numa negociação difícil, na sexta-feira à tarde, para não perder um cliente, é quase sempre a decisão mais cara tomada nessa semana em toda a empresa.

Há um caso no mesmo estudo que vale mais do que qualquer teoria. Um fabricante de baterias identificou que o preço efetivamente recebido variava muito entre clientes sem justificação económica, corrigiu essas situações e, no primeiro ano, subiu o preço médio recebido 3% com volume estável. O lucro operacional cresceu 42%. Não foi um aumento de tabela para toda a gente, foi arrumar quem estava a pagar a menos.

Guarda este ponto, porque é a chave de toda a sequência que vem a seguir. Na maioria das empresas, o maior ganho de preço não está em subir a tabela. Está em corrigir os clientes que se afastaram dela.

Quando é que um aumento é aceite, segundo quem estudou o assunto

Aqui está a parte que quase ninguém domina e que decide se o aumento passa ou explode. A aceitação de um aumento não depende sobretudo do valor. Depende da razão que o cliente atribui ao aumento.

Daniel Kahneman, Jack Knetsch e Richard Thaler publicaram na American Economic Review um estudo que continua a ser a referência sobre este tema. Através de inquéritos telefónicos a residentes selecionados aleatoriamente em duas áreas metropolitanas, entre maio de 1984 e julho de 1985, mediram o que as pessoas consideram justo quando uma empresa altera preços. O resultado ficou conhecido como princípio da dupla titularidade: os clientes sentem-se com direito às condições da transação de referência, e a empresa sente-se com direito ao seu lucro de referência.

Traduzindo, e é aqui que fica interessante. A empresa pode proteger o seu lucro quando ele é ameaçado, e isso é considerado justo. Mas não pode aumentar o lucro impondo uma perda ao cliente, e isso é considerado injusto.

Os números do estudo são explícitos.

Quando uma loja de ferragens sobe o preço de uma pá de neve de 15 para 20 euros na manhã seguinte a uma tempestade, 82% dos inquiridos consideram a ação injusta. É o aumento por aproveitamento da procura.

Quando um merceeiro compra alface a um preço 30 cêntimos acima do normal por causa de uma rutura no transporte e sobe o preço ao consumidor exatamente nesses 30 cêntimos, 79% consideram a ação aceitável. É o aumento por repercussão de custo.

Quando um senhorio sobe a renda para cobrir aumentos substanciais dos seus custos, mesmo sabendo que o inquilino terá de mudar de casa, 75% consideram a ação aceitável. Repara na dureza deste resultado: as regras de justiça percebida permitem que a empresa se proteja de perdas mesmo quando o cliente sofre um transtorno significativo.

Há ainda um resultado que devia mudar a forma como pensas sobre a dimensão do aumento. Quando uma cadeia de mercearias cobra em média 5% mais na única localidade onde não tem concorrência, 76% consideram injusto. Os autores testaram também versões com 10% e 15%, e as respostas não diferiram significativamente. Ou seja, a perceção de injustiça é quase binária. Se a razão for lida como oportunismo, o cliente reage da mesma maneira a 5% e a 15%.

A implicação prática é dura e libertadora ao mesmo tempo. Se tens uma razão legítima, comunica-a bem e não estás a ganhar nada em pedir menos do que precisas. Se não tens razão legítima, nenhum valor pequeno te safa.

Antes de comunicar, descobre a banda de preços que já tens

Antes de comunicar, descobre a banda de preços que já tens

Antes de decidir a quem comunicar, é preciso saber quem está onde. Este é o exercício que separa uma decisão informada de uma circular às cegas, e faz-se com dados que já tens.

Pega no último ano completo de faturação e, para cada cliente, calcula o preço efetivamente recebido por unidade comparável. Não o preço de tabela, não o preço da proposta. O que sobra depois de descontos de volume, condições especiais, portes suportados, brindes, prazos de pagamento alargados, horas oferecidas e tudo o resto que erode a fatura sem aparecer na tabela.

Marn e Rosiello chamaram a este conjunto de fugas a cascata do preço de bolso, e documentaram quedas médias entre o preço de fatura e o preço efetivo de 16,7% numa empresa de bens de consumo embalados, 20,3% numa de calçado, 21,9% numa fabricante de automóveis e 28,9% numa de produtos de iluminação. Não são descontos que alguém decidiu, são camadas que se acumularam ao longo de anos.

Quando ordenas os clientes por preço efetivo, aparece uma banda. E as bandas são invariavelmente mais largas do que qualquer gestor espera. Os autores encontraram amplitudes de 35% num produto de pavimentos, e bandas até 60% num fabricante de iluminação, 70% num fornecedor de periféricos informáticos, 200% numa empresa de químicos de especialidade e 500% num fornecedor de fixações.

O que aparece a seguir é o que interessa. No caso do fabricante de baterias, a gestão presumiu que a largura da banda se explicava pelas diferenças de dimensão das contas, porque a política era premiar volume com preço. Ao cruzar preço efetivo com dimensão de conta numa amostra de 50 clientes, não encontraram correlação nenhuma. Contas pequenas compravam muito barato e contas grandes muito caro.

A explicação, quando investigaram, foi esta: os clientes com melhores condições eram contas antigas e experientes, com 20 anos ou mais de relação, que sabiam exatamente a quem ligar dentro da empresa para conseguir mais um ponto de desconto, mais um mês de prazo, mais uma verba de campanha. Recebiam condições extra por familiaridade e relação, não por justificação económica.

Se fizeres este exercício na tua empresa, vais encontrar o mesmo. E vais encontrar a resposta à pergunta do título antes de teres decidido qualquer percentagem, porque a ordem sai da banda.

A ordem, cliente a cliente

Aqui está a sequência que funciona, e a lógica de cada onda é diferente da anterior. Não se trata de espaçar o mesmo aumento no tempo, trata-se de aplicar aumentos diferentes a grupos com posições diferentes.

  • Primeiro, os que estão fora da banda sem justificação. São os clientes cujo preço efetivo está muito abaixo de outros com perfil equivalente, por acumulação de condições ao longo dos anos. Aqui não estás a subir preços, estás a corrigir uma anomalia, e esse enquadramento muda tudo. É também onde está o maior ganho e o menor risco relativo, porque estes clientes sabem, no fundo, que têm condições excecionais.

  • Depois, os clientes novos, antes de existir preço de referência. O estudo de Kahneman e colegas mostra que a titularidade ao preço de referência não se transmite a novas transações. No caso paralelo do arrendamento, uma subida de renda considerada justa para um novo contrato pode ser injusta para uma renovação. Aplicado ao teu negócio: todo o cliente que entra depois de hoje entra na tabela nova, e isso não gera atrito nenhum porque não há histórico a violar.

  • A seguir, os contratos que estão a chegar a renovação. A renovação é o momento natural para rever condições, é esperado, e evita a sensação de alteração unilateral a meio da relação. Se tens avenças ou contratos com prazo, ordena-os por data de renovação e trata cada um no seu momento em vez de os tratar todos em janeiro.

  • Depois, a carteira geral com relação saudável. Clientes satisfeitos, sem incidentes recentes, com preço dentro da banda. Aqui aplica-se o aumento de tabela, comunicado com antecedência e com a razão explicada. É a onda maior em número de clientes e a menos arriscada, o que contraria a intuição de muita gente que começa por aqui a tremer.

  • Por último, ou nunca, os casos frágeis. Contas em recuperação depois de um problema de serviço, clientes em dificuldade conhecida, relações em que estás a meio de resolver alguma coisa. Adiar aqui não é fraqueza, é sequenciamento. Um aumento comunicado a quem tem uma reclamação em aberto não é lido como ajuste de preço, é lido como falta de respeito.

Uma nota sobre ritmo. Entre a primeira e a última onda deve haver semanas, não meses, e a razão é prática: os clientes falam entre si. Se um cliente descobre que outro semelhante recebeu condições diferentes na mesma altura, o problema deixa de ser o preço e passa a ser a confiança. Sequenciar não é esconder, é dar tempo à empresa para conduzir bem cada conversa.

Há uma decisão de execução que vale a pena tomar de forma explícita: quem comunica. A primeira onda, que é a mais delicada, exige quem tem relação e autoridade, tipicamente o dono ou o responsável comercial. As ondas seguintes podem ser conduzidas pela equipa, desde que com argumentário treinado. Delegar a primeira onda a quem não tem margem de decisão é garantir que a conversa acaba em desconto.

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Como enquadrar sem parecer oportunismo

Como enquadrar sem parecer oportunismo

O enquadramento é onde se ganha ou perde a maior parte das reações, e a investigação sobre justiça percebida dá regras concretas.

  • Ancora no custo, nunca na procura. Esta é a regra central e a mais violada. Dizer que se está a subir preços porque a agenda está cheia e a procura é forte é exatamente o cenário da pá de neve que 82% consideram injusto. Dizer que os custos de matéria-prima, energia ou trabalho subiram, e apresentar a ordem de grandeza, é o cenário da alface que 79% consideram aceitável.

  • Retirar um desconto custa menos do que subir um preço. No mesmo estudo, um aumento de 200 dólares acima do preço de tabela num automóvel escasso foi considerado injusto por 71%, enquanto eliminar um desconto de 200 dólares que vinha a ser praticado foi considerado injusto por apenas 42%. É objetivamente a mesma perda para o cliente e a leitura é diferente, porque uma é codificada como perda e a outra como fim de um ganho. Se tens descontos históricos por retirar, retira-os antes de mexer na tabela.

  • Não subas o preço do que já está em stock. Quando um merceeiro que tem meses de manteiga de amendoim comprada sobe o preço dessa mercadoria por saber que o preço grossista subiu, 79% consideram injusto. Ao cliente, custos futuros justificam preços futuros, e o que já está em casa devia manter o preço a que foi comprado.

  • Nunca explores a dependência de um cliente concreto. O resultado mais duro de todo o estudo é este: quando um senhorio descobre que o inquilino arranjou emprego perto de casa e por isso sobe a renda mais 40 dólares do que planeava, 91% consideram injusto. Subir a um cliente porque ele não tem alternativa é a forma mais eficaz de garantir que ele passa a procurar uma.

  • Usa referências externas verificáveis. A inflação anual na área do euro foi de 2,8% em junho de 2026, com Portugal nos 3,1%, e dentro desse agregado a energia subiu 8,5% e os serviços 3,2%, de acordo com os dados harmonizados do Eurostat. Se o teu aumento está em linha com a evolução de custos do teu setor, dizê-lo com um número público torna o argumento verificável em vez de opinativo.

Há um efeito adicional documentado no mesmo trabalho que interessa a quem tem componentes variáveis. As pessoas resistem muito mais a cortes nominais do que a aumentos abaixo da inflação. Perante uma redução salarial de 7% sem inflação, 62% consideraram injusto. Perante um aumento de apenas 5% com inflação de 12%, que é uma perda real semelhante, apenas 22% consideraram injusto. A forma como o número é apresentado altera a leitura mesmo quando a substância é a mesma.

Isto não é convite a manipular. É informação sobre como as pessoas processam mudanças de preço, e usá-la para comunicar com clareza aquilo que já é verdadeiro é diferente de a usar para disfarçar o que não é.

Os sinais de que já devias ter subido há muito

Antes de discutir percentagens, vale a pena reconhecer os sintomas. Nenhum destes prova sozinho que os preços estão baixos, mas dois ou três em simultâneo raramente enganam.

  • Ganhas quase todas as propostas que apresentas. Uma taxa de fecho muito alta é frequentemente lida como sinal de excelência comercial e é, na maior parte dos casos, sinal de que estás barato. Se praticamente ninguém recusa o teu preço, não estás a testar o limite do que o mercado paga.

  • Os clientes não discutem o valor. A ausência total de objeção ao preço é mais preocupante do que a sua presença. Alguma fricção é o sinal de que estás posicionado num intervalo em que o cliente tem de decidir, e é aí que a margem vive.

  • A faturação cresce e o resultado não. É o padrão mais comum e o mais mal diagnosticado. Quando a empresa vende mais todos os anos e sobra o mesmo, o problema quase nunca é de custos, é de preço a absorver a inflação silenciosamente.

  • A tabela não muda há mais de dois anos. Com a inflação a correr acima de 2% em quase todo o período recente, manter uma tabela inalterada durante 3 anos equivale a ter feito uma descida de preço real com dois dígitos, sem que ninguém a tenha decidido.

  • Recusas trabalho por falta de capacidade. Quando a agenda está cheia e continuas a dizer que não a clientes, o mercado está a dizer-te que o preço não está a fazer o trabalho de seleção que devia fazer.

Este último sinal exige um cuidado que a secção seguinte vai tornar claro. Ter procura a mais é uma razão legítima para reposicionar a oferta, mas não é uma razão que se comunique ao cliente. É informação para ti, não é argumento para a carta.

Quanto tempo antes, e em que suporte

Quanto tempo antes, e em que suporte

O calendário é o detalhe que mais reclamações evita e o que mais empresas ignoram.

Trinta dias de antecedência é o mínimo defensável para clientes recorrentes, e sessenta é melhor quando o cliente precisa de refletir o teu preço nos preços dele. Dar tempo comunica respeito e permite que o cliente ajuste, o que é precisamente o que o transforma de vítima em interlocutor.

O suporte deve ser escrito e nominal. Uma mensagem individual, com o nome do cliente, as condições atuais e as novas, a data de entrada em vigor e o motivo. Uma circular genérica poupa uma tarde e comunica que aquele cliente é um entre muitos, o que é a mensagem oposta à que interessa quando estás a pedir mais dinheiro.

A conversa telefónica ou presencial vem antes do escrito para os clientes das primeiras ondas, e depois do escrito para os restantes. Nos casos delicados, ninguém deve receber por email uma notícia que devia ter ouvido de uma pessoa. Este é um caso particular de um princípio mais geral, o de que a forma como se dão notícias difíceis a clientes determina mais a reação do que o conteúdo em si.

Convém ainda decidir uma coisa antes de comunicar, e não a meio: se vais ou não aceitar exceções, e com que critério. Empresas que decidem isto no momento acabam a conceder ao cliente mais barulhento e não ao mais valioso. Se houver exceções, que sejam definidas antes, com prazo e contrapartida, e que não sejam abertas por insistência.

O que dizer, e o que não dizer

A mensagem eficaz é curta e tem quatro partes: o que muda, quando muda, porque muda, e o que se mantém.

O que se mantém é a parte que quase toda a gente esquece e a que mais tranquiliza. Se as condições de pagamento, o interlocutor, os prazos de entrega e o nível de serviço não mudam, dizê-lo explicitamente reduz a ansiedade de quem lê e evita que o cliente imagine que o aumento é o primeiro sinal de uma degradação.

Sobre o que não dizer, há quatro erros que se repetem.

  • Não peças desculpa. Um aumento fundamentado não é uma falta. Pedir desculpa convida à negociação e sugere que tu próprio não acreditas na legitimidade da decisão.

  • Não expliques demasiado. Uma justificação com sete razões soa a quem está a construir um caso. Uma razão verdadeira, com ordem de grandeza, é mais credível do que uma lista.

  • Não anuncies aumentos futuros que ainda não decidiste. Dizer que este é o primeiro de uma série transforma uma conversa pontual numa preocupação permanente, e dá ao cliente motivo para começar a procurar alternativas hoje.

  • Não uses a concorrência como argumento. Dizer que continuas mais barato do que os outros convida o cliente a verificar, e transfere a conversa do valor que entregas para uma comparação de tabelas que quase nunca te favorece.

Quando o aumento é acompanhado de alguma melhoria real, ainda que pequena, a conversa muda de natureza. Não precisa de ser um serviço novo. Um prazo de resposta assumido por escrito, um relatório trimestral que não existia, um interlocutor dedicado. Empresas que já trabalham a sério a experiência do cliente empresarial têm aqui uma vantagem enorme, porque têm sempre alguma coisa concreta para colocar do outro lado da balança.

As reações que vais ouvir, e o que fazer com cada uma

Preparar as respostas antes evita que a decisão se desfaça na primeira conversa difícil.

  • "Nesse caso vou pedir propostas." É a reação mais comum e a menos perigosa. Responde com naturalidade, oferece-te para ajudar a comparar o que está incluído, e não baixes nada nessa conversa. Quem pede propostas e volta costuma voltar mais convencido do que estava.

  • "Somos clientes há muitos anos." Reconhece o que é verdadeiro e não cedas ao que não é. Antiguidade justifica atenção, prioridade e acesso, não justifica um preço abaixo do custo de servir. Esta é precisamente a situação que produz as anomalias da primeira onda.

  • "Não consigo passar isto ao meu cliente final." Pode ser verdade e merece exploração. Aqui a saída raramente é preço, é estrutura: rever o que está incluído, ajustar volumes, mudar a periodicidade. Manter o preço mudando o âmbito é um resultado legítimo. Baixar o preço mantendo tudo é uma capitulação.

  • "Só aceito se me derem algo em troca." Trata como negociação normal e usa contrapartidas que te custam pouco e valem muito: prazo de contrato mais longo, pagamento antecipado, exclusividade, previsão de volume. Quem domina técnicas de negociação sabe que a moeda de troca quase nunca precisa de ser o preço.

  • "Isso é um abuso." Não discutas a palavra, volta ao facto. Apresenta a evolução de custos e o histórico do preço daquele cliente. Se o preço não subia há três anos e os custos subiram, o número diz mais do que qualquer defesa.

A objeção de preço tem estrutura própria e trata-se com método e não com improviso, e a preparação da equipa para a objeção ao preço devia acontecer antes de a primeira carta sair, e não depois de o primeiro cliente ligar.

Quanto podes perder e ainda assim sair a ganhar

Esta é a conta que dissolve o medo, e é aritmética simples que quase nenhuma empresa faz antes de decidir.

A pergunta certa não é quantos clientes vou perder. É quantos posso perder e continuar na mesma. A resposta depende só de duas variáveis: a margem atual e a dimensão do aumento.

Imagina uma empresa com margem de contribuição de 40% que sobe preços 10%. Antes, cada 100€ de venda deixava 40€. Depois, cada 110€ deixa 50€. Para manter a mesma margem total, basta reter 80% do volume anterior. Ou seja, pode perder 20% dos clientes e ficar exatamente onde estava, com menos trabalho, menos consumo de recursos e mais folga.

A fórmula é direta: divide a percentagem do aumento pela soma da margem com o aumento. Com 10% de aumento e 40% de margem, dá 20%. Com 5% de aumento e 20% de margem, dá também 20%. Com 5% de aumento e 60% de margem, dá 7,7%.

Repara no que isto significa para negócios de margem baixa. Quanto menor a margem, mais volume podes perder sem prejuízo, o que é o inverso do que a intuição sugere. Empresas com margens finas costumam ter mais medo de subir preços e são precisamente as que mais têm a ganhar.

Agora traz a realidade. As perdas efetivas costumam ficar muito abaixo do limite calculado, porque mudar de fornecedor tem custos que o cliente não anuncia e nem sempre reconhece. E os clientes que saem por 5% ou 8% tendem a ser os que já consumiam mais atenção por menos dinheiro. Perder alguns deles melhora a empresa em dimensões que a folha de cálculo não mostra.

Isto não é convite a perder clientes por leviandade. É a diferença entre gerir para a faturação e gerir para o resultado, e é uma das discussões que mais depressa mudam a forma como um empresário olha para a rentabilidade do próprio negócio.

Quem não deve receber aumento

Nem toda a carteira deve ser tratada da mesma forma, e decidir isto antes evita improvisos.

Ficam de fora os clientes com um problema de serviço por resolver, até estar resolvido. Ficam de fora os que estão dentro de um compromisso de preço com prazo, por respeito ao que foi acordado, ainda que se marque desde já a data de revisão. E ficam de fora, mas por razão diferente, aqueles poucos clientes que valem mais pelo que representam do que pelo que pagam, seja como referência num setor, seja como fonte de recomendação.

Esta última categoria deve ser pequena, explícita e decidida por ti, não pela pessoa que tem medo da conversa. Quando é vaga, cresce. Numa empresa com dez clientes estratégicos protegidos, é quase certo que sete deles são apenas clientes com quem alguém não quer falar.

Há também um grupo que merece atenção separada e que raramente aparece nestas conversas: os clientes que perdeste no passado por preço e que agora podem voltar. Um reposicionamento de tabela é um bom momento para os contactar, porque a mensagem deixa de ser um pedido e passa a ser uma novidade sobre a empresa. Trabalhar em paralelo a recuperação de clientes perdidos compensa parte de qualquer saída e mantém a equipa comercial ocupada com boas notícias durante um período que tende a ser tenso.

Os 90 dias depois, que valem tanto como a comunicação

O aumento não acaba no dia em que entra em vigor. Acaba quando a carteira estabiliza, e há trabalho a fazer nesse intervalo.

Mede o que interessa e não o que assusta. O indicador não é quantos clientes reclamaram, é quantos saíram, quanto valiam e qual era o preço efetivo de cada um. Se saíram cinco e todos estavam no fundo da banda, a operação foi um sucesso independentemente do barulho que fizeram.

Presta atenção redobrada aos primeiros 60 dias dos clientes que ficaram com reservas. É nesse período que uma falha de serviço se transforma em saída, porque passa a haver uma razão acumulada. Reforçar acompanhamento nesse grupo é mais eficaz do que qualquer desconto de retenção, e é aqui que uma política clara de retenção de clientes mostra serviço.

Resiste à tentação de recuar. Se um cliente sai e volta duas semanas depois a pedir as condições antigas, e tu cedes, acabaste de ensinar à carteira inteira que basta ameaçar sair. O custo dessa lição é muito superior ao valor daquele cliente.

E fecha o ciclo com uma decisão de calendário. Se este aumento aconteceu depois de três anos sem mexer nos preços, o problema não foi o aumento, foi o intervalo. Uma revisão anual, pequena e previsível, é infinitamente mais fácil de comunicar e de aceitar do que um salto grande de tempos a tempos. Empresas com um programa de fidelização bem desenhado conseguem inclusivamente enquadrar essa revisão dentro de uma lógica de benefícios crescentes, o que retira ao aumento o carácter de má notícia isolada.

É este conjunto de decisões, entre a análise da banda de preços, a sequência de comunicação e a preparação da equipa, que trabalhamos na imersão CHECKMATE: Comercial. Cada participante sai com a carteira segmentada, o argumentário escrito e as datas marcadas, e não com a intenção de tratar do assunto quando houver tempo.

Conclusão

Conclusão

O que torna esta decisão difícil não é a matemática, que é elementar, nem a comunicação, que se ensina. É que subir preços obriga a olhar para uma carteira que se construiu ao longo de anos e a admitir que parte dela foi construída com concessões que já ninguém se lembra de ter feito. É desconfortável, e é exatamente por isso que fica por fazer, ano após ano, enquanto a margem se estreita e a empresa trabalha cada vez mais para ganhar cada vez menos. Quem passa por este processo com método descobre quase sempre a mesma coisa no fim. Os clientes que reagiram mal eram poucos, os que saíram valiam menos do que se temia, e a conversa que se adiou durante anos demorou vinte minutos por cliente. Fica, isso sim, um efeito colateral que ninguém antecipa e que compensa todo o desconforto: uma equipa que passou a saber defender o preço deixa de precisar de autorização para o fazer da próxima vez.

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