IA generativa ou tradicional: qual usar para cada problema da tua empresa

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IA generativa ou tradicional

Em 2023, uma equipa de investigadores de Harvard, Wharton, MIT e Warwick fez uma coisa que praticamente ninguém tinha feito: em vez de opinar sobre inteligência artificial, montou uma experiência. Pegou em 758 consultores de uma das maiores consultoras do mundo, dividiu-os ao acaso, deu acesso a IA generativa a uns e não a outros, e mediu o que acontecia. Nas tarefas que caíam dentro daquilo que a máquina faz bem, os que tinham IA foram significativamente mais produtivos e produziram trabalho de qualidade significativamente superior. Era o resultado esperado, e é o que toda a gente cita. O que quase ninguém cita é a outra metade. Nas tarefas que caíam fora dessa zona, aconteceu o oposto. Não é que a IA não ajudasse. É que as pessoas confiaram nela, aceitaram o que ela produziu, e passaram ao lado de coisas que teriam visto sozinhas. A ferramenta não foi neutra, foi negativa. E o achado que dá nome ao estudo é o mais incómodo de todos: a fronteira entre as duas zonas é irregular e invisível. Não corre onde a intuição diz. Há tarefas que parecem difíceis e estão do lado bom, e tarefas que parecem triviais e estão do lado mau. Não se descobre a pensar. Descobre-se a testar. Este artigo é sobre essa fronteira, e sobre a decisão que a antecede: nem todos os problemas de uma empresa se resolvem com a mesma família de inteligência artificial, e escolher a errada é a forma mais eficiente de gastar dinheiro a fazer bem uma coisa que não interessa.

Em 2023, uma equipa de investigadores de Harvard, Wharton, MIT e Warwick fez uma coisa que praticamente ninguém tinha feito: em vez de opinar sobre inteligência artificial, montou uma experiência. Pegou em 758 consultores de uma das maiores consultoras do mundo, dividiu-os ao acaso, deu acesso a IA generativa a uns e não a outros, e mediu o que acontecia. Nas tarefas que caíam dentro daquilo que a máquina faz bem, os que tinham IA foram significativamente mais produtivos e produziram trabalho de qualidade significativamente superior. Era o resultado esperado, e é o que toda a gente cita. O que quase ninguém cita é a outra metade. Nas tarefas que caíam fora dessa zona, aconteceu o oposto. Não é que a IA não ajudasse. É que as pessoas confiaram nela, aceitaram o que ela produziu, e passaram ao lado de coisas que teriam visto sozinhas. A ferramenta não foi neutra, foi negativa. E o achado que dá nome ao estudo é o mais incómodo de todos: a fronteira entre as duas zonas é irregular e invisível. Não corre onde a intuição diz. Há tarefas que parecem difíceis e estão do lado bom, e tarefas que parecem triviais e estão do lado mau. Não se descobre a pensar. Descobre-se a testar. Este artigo é sobre essa fronteira, e sobre a decisão que a antecede: nem todos os problemas de uma empresa se resolvem com a mesma família de inteligência artificial, e escolher a errada é a forma mais eficiente de gastar dinheiro a fazer bem uma coisa que não interessa.

João Pedro Carvalho

João Pedro Carvalho

Duas tecnologias, e a confusão que custa dinheiro

Duas tecnologias, e a confusão que custa dinheiro

Quando alguém diz "vamos usar IA", está a dizer uma frase tão útil como "vamos usar matemática". Existem duas famílias com naturezas opostas, e tratá-las como a mesma coisa é a origem da maioria dos projetos que não dão nada.

A IA tradicional, também chamada preditiva, aprende padrões a partir dos teus dados históricos e responde a perguntas fechadas. Que clientes vão cancelar no próximo trimestre. Que transação parece fraude. Quanto vais vender em novembro. Que produto vai faltar. Trabalha com números, produz números, e o output é verificável: daqui a três meses sabes se acertou.

A IA generativa produz conteúdo novo. Escreve, resume, traduz, transforma, conversa. Não te dá uma previsão, dá-te um texto. E o texto é plausível por construção, o que é a característica mais importante e a mais mal compreendida de toda esta tecnologia.

Aqui está a distinção que resolve metade das decisões: a IA tradicional erra e tu percebes. A IA generativa erra e parece certa. Um modelo preditivo que falha uma previsão dá-te um número diferente do real e tu vês a diferença. Um modelo generativo que inventa um facto dá-te uma frase bem escrita, gramaticalmente perfeita, com o tom certo, que está errada.

É por isto que a pergunta que devias fazer antes de escolher não é qual é mais moderna. É outra: o que sai daqui tem de estar certo, ou tem de estar bem escrito? São coisas diferentes, e há problemas de empresa em que confundi-las custa clientes.

A fronteira irregular, e porque ninguém a vê

Vale a pena voltar ao estudo, porque o conceito que ele criou é a ferramenta mental mais útil que existe nesta matéria.

O trabalho de Fabrizio Dell'Acqua e coautores de Harvard, Wharton, MIT Sloan e Warwick, feito com a Boston Consulting Group, está publicado e foi entretanto aceite na Organization Science, que é uma das revistas mais exigentes da gestão. Não é um relatório de consultora, é uma experiência aleatorizada com revisão por pares.

Dentro da zona de capacidade, os ganhos são grandes e são reais: qualidade do trabalho substancialmente superior, mais tarefas concluídas, e mais depressa. Fora dela, os consultores com IA tiveram desempenho pior do que os que não a tinham, e o mecanismo é humano e não técnico: apoiaram-se demasiado, e a confiança substituiu a verificação.

O nome que os investigadores deram a isto, fronteira irregular, descreve exatamente o problema prático. Uma fronteira reta seria fácil: aprendias onde ela estava e ficavas do lado certo. Uma fronteira irregular não tem lógica aparente. A máquina resolve uma coisa complexa com brilhantismo e falha numa coisa adjacente que parece mais simples, sem que haja forma de prever qual é qual a partir do enunciado.

A consequência para uma empresa é direta e desagradável: não consegues decidir onde usar IA generativa lendo artigos, incluindo este. Só consegues descobrindo, tarefa a tarefa, com testes que custam pouco. Quem implementa sem testar está a apostar que a sua tarefa cai do lado bom, e a apostar sem saber que está a apostar.

Vale a pena um exemplo de como a fronteira engana, porque torna a coisa palpável. Pedir a um modelo para escrever uma proposta comercial estruturada, com secções, tom certo e argumentos, corre bem: é uma tarefa que parece exigente e está bem dentro da fronteira. Pedir-lhe para verificar se a soma das linhas dessa proposta bate certo é uma tarefa que qualquer criança de dez anos faz, e está historicamente do lado mau. Ninguém adivinharia esta ordem a partir da dificuldade aparente, e é exatamente esse o ponto.

O mesmo raciocínio aplica-se quando se dá autonomia à máquina para executar tarefas em sequência, onde um erro a meio contamina tudo o que vem a seguir, uma matéria que os agentes de IA tornam ainda mais aguda: quanto mais passos a máquina dá sozinha, mais longe da fronteira acaba sem que ninguém dê por isso.

Há um segundo achado do mesmo estudo que raramente é mencionado e que devia preocupar quem trabalha em coisas criativas: os consultores que usaram a ferramenta produziram ideias com variabilidade marcadamente menor. Convergiram. Ficaram todos parecidos. Numa tarefa em que a diferenciação é o produto, isso não é uma melhoria, é uma perda que não aparece em métrica nenhuma de produtividade.

Quem ganha mais, e é quem menos se espera

Quem ganha mais, e é quem menos se espera

Há uma segunda peça de investigação que muda a decisão de gestão, e não a de tecnologia.

Erik Brynjolfsson, Danielle Li e Lindsey Raymond estudaram 5.179 agentes de apoio ao cliente com acesso faseado a um assistente generativo. O trabalho foi publicado no Quarterly Journal of Economics, que é o topo da economia. O resultado médio é o que se cita: cerca de 14% mais casos resolvidos por hora.

A média esconde o que interessa. O ganho não se distribuiu por igual. Os agentes menos experientes e com pior desempenho melhoraram cerca de 34%. Os mais experientes melhoraram pouco ou nada.

Faz sentido quando se percebe o mecanismo: a ferramenta estava, na prática, a distribuir pelos novatos aquilo que os veteranos já sabiam. Não criou conhecimento novo, propagou o que existia.

Isto tem implicações de gestão que ninguém discute nas reuniões sobre IA. Se o ganho está nos que sabem menos, então a decisão de a quem dar acesso não é uma decisão de senioridade, é o contrário do que a maioria das empresas faz, que é dar as ferramentas novas primeiro aos melhores. E há uma consequência mais desconfortável: se a ferramenta comprime a diferença entre um bom e um mau colaborador, o que é que isso faz à tua estrutura de progressão, e como é que continuas a distinguir talento quando a ferramenta nivela o output?

Um terceiro estudo, de Shakked Noy e Whitney Zhang, publicado na Science, encontra o mesmo padrão em tarefas de escrita profissional: ganhos grandes de tempo, e concentrados nos menos competentes. O padrão repete-se em contextos diferentes, com equipas diferentes, em revistas diferentes. Quando isso acontece, presta atenção.

O que cada uma resolve mesmo

Com a teoria arrumada, vale a pena descer ao concreto. Estes são os problemas típicos de uma PME e a família que os resolve:

  • Prever procura, stock ou tesouraria. Tradicional, sem discussão. Precisas de um número que se compara com a realidade. Um texto plausível sobre o que vai acontecer em novembro não vale nada.

  • Detetar anomalias. Faturas estranhas, consumos fora do padrão, transações suspeitas. Tradicional. É reconhecimento de padrões, que é exatamente o que ela faz.

  • Segmentar clientes por comportamento. Tradicional. Os dados são teus, a resposta é uma classificação, e é verificável.

  • Prever quem vai cancelar. Tradicional. E é dos casos com melhor retorno numa PME, porque a ação que se segue é barata.

  • Escrever primeiras versões. Generativa. Propostas, emails, descrições, resumos. Um humano revê e a plausibilidade é aceitável porque há verificação a seguir.

  • Resumir e extrair. Generativa. Pegar em cem páginas e devolver o essencial. Com uma ressalva: verifica o que ela decidiu que era essencial.

  • Traduzir e adaptar tom. Generativa, e é dos usos com melhor relação entre benefício e risco que existe.

  • Responder a clientes. Depende, e é a fronteira mais perigosa de todas. Perguntas frequentes com resposta fixa não precisam de IA generativa, precisam de uma base de conhecimento. Conversas abertas precisam, e trazem o risco de a máquina inventar uma política que a tua empresa não tem, matéria tratada no artigo sobre IA no atendimento ao cliente.

Repara no padrão que atravessa a lista, porque é a régua que podes aplicar a qualquer problema novo: onde a resposta tem de ser verdadeira e verificável, tradicional. Onde a resposta tem de ser plausível e alguém a vai rever, generativa.

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O problema português: não tens dados

O problema português: não tens dados

Aqui está a razão pela qual metade deste artigo pode não te servir, e é melhor ouvi-la agora do que ao fim de três meses de projeto.

A IA tradicional aprende com o teu histórico. Sem histórico, não aprende nada. E a maioria das PME não tem dados, tem registos: faturas em PDF, uma folha de cálculo por ano, um sistema que não fala com outro, e conhecimento na cabeça de três pessoas.

A quantidade necessária não é astronómica, e essa é uma boa notícia que ninguém dá. Prever cancelamentos com dois anos de histórico de clientes é perfeitamente viável. O que é preciso não é volume, é consistência: o mesmo campo, preenchido da mesma maneira, ao longo do tempo. E é aí que quase toda a gente falha, porque os dados existem e estão sujos.

Isto explica, aliás, porque é que a IA generativa explodiu em PME e a tradicional não. A generativa não precisa dos teus dados. Vem treinada, funciona no primeiro dia, e o custo de entrada é uma subscrição. A tradicional precisa de ti, do teu histórico, e de alguém que o organize.

A generativa é fácil de começar e difícil de confiar. A tradicional é difícil de começar e fácil de confiar. É a assimetria que decide a ordem por que uma PME as adota, e não tem nada que ver com qual delas resolve o problema.

Se a tua situação é esta, e provavelmente é, há um trabalho que antecede qualquer projeto de IA e que se parece muito pouco com IA: perceber que números tens, onde estão, e se merecem confiança. É o mesmo trabalho que sustenta qualquer painel de gestão que preste, e é a razão pela qual empresas que não conseguem responder a "quanto faturei por cliente no ano passado" não têm um problema de IA, têm um problema anterior.

Este é exatamente o tipo de diagnóstico que a imersão CHECKMATE: Inteligência Artificial faz com empresários que chegam a querer implementar e saem a perceber o que têm de arrumar primeiro.

As duas juntas, que é onde está o interessante

A discussão como se fosse uma escolha entre as duas é, na verdade, um falso dilema em muitos casos.

O padrão que mais valor gera numa PME é sequencial: a tradicional decide, a generativa comunica. O modelo preditivo identifica os clientes com risco de saída, com uma probabilidade que se pode verificar. A generativa escreve a mensagem para cada um, adaptada ao histórico dele. A primeira faz a parte que tem de estar certa. A segunda faz a parte que tem de estar bem escrita.

Repara no que este desenho faz ao risco: a máquina que pode inventar nunca decide nada. Só redige. A decisão vem de um sistema verificável, e a criatividade fica confinada à embalagem.

O mesmo padrão aplica-se em toda a parte. Um modelo prevê a procura, a generativa escreve o pedido ao fornecedor. Um modelo pontua os contactos por probabilidade de fechar, a generativa prepara a abordagem, uma combinação que se cruza com o que se explora em IA para vendas. Um modelo deteta a anomalia na fatura, a generativa explica em português a um humano o que está estranho.

E há a direção inversa, menos óbvia e muito útil: a generativa como porta de entrada para dados que a tradicional não conseguia ler. Transformar mil emails de reclamações em categorias estruturadas, e depois correr análise sobre isso. Aqui a generativa faz o trabalho que era caro e chato, e o resultado alimenta um sistema que se verifica.

Os erros que custam projetos

Os erros que custam projetos

Vistos muitos projetos de IA em empresas pequenas, os padrões são consistentes:

  • Começar pela ferramenta. Alguém viu uma demonstração e agora há um projeto. A pergunta certa vem do lado do problema, não do lado do fornecedor.

  • Usar generativa para coisas que têm de estar certas. Números, prazos, condições contratuais, preços. Se a máquina inventar, e vai, o custo não é o erro, é a confiança.

  • Pilotos sem critério de sucesso. Se ninguém definiu o que era ganhar antes de começar, o piloto vai ser declarado um sucesso e não vai a lado nenhum.

  • Ignorar o que o output faz ao trabalho de quem o recebe. Uma máquina que produz o dobro dos rascunhos gera o dobro do trabalho de revisão. Se ninguém aumentou a capacidade de rever, criaste um congestionamento a montante.

  • Confundir automatizar com melhorar. Automatizar um processo mau produz um processo mau mais depressa, e é matéria que a automação de processos resolve antes de qualquer modelo entrar.

  • Não pensar em dados pessoais. Meter informação de clientes numa ferramenta sem perceber para onde vai e quem a vê é uma decisão jurídica disfarçada de decisão técnica, e faz parte dos riscos que a IA traz e que quase ninguém avalia antes.

O padrão que os une é o de sempre em tecnologia: são todos erros de gestão a fingir de erros técnicos. Nenhum deles se resolve com um modelo melhor.

Como decidir, tarefa a tarefa

Posto isto, aqui está o método, e é deliberadamente simples porque a fronteira irregular torna qualquer método complexo inútil.

Pega numa tarefa concreta, não numa área. Não "melhorar o atendimento", mas "responder a pedidos de segunda via de fatura". Depois faz três perguntas.

  • O que sai daqui tem de estar certo ou tem de estar bem escrito? Se certo, procura tradicional ou não procures IA nenhuma. Se bem escrito, generativa.

  • Tenho histórico consistente disto? Se sim, a tradicional está disponível. Se não, ou arrumas os dados primeiro, ou ficas com a generativa por defeito.

  • Quem verifica o resultado, e quanto custa se passar um erro? É a pergunta que fecha tudo. Se ninguém verifica e o erro é caro, não uses generativa, independentemente de quão bem ela pareça funcionar no teste.

E depois testa, porque é a única forma de descobrir de que lado da fronteira estás. Vinte casos reais, feitos à mão pelas duas vias, comparados por alguém que percebe do assunto. Se a IA ganhar, estás dentro da fronteira nessa tarefa. Se empatar, não vale o custo de a instalar. Se perder, acabaste de poupar um projeto.

Este teste demora uma tarde e vale mais do que qualquer relatório de tendências, e é a versão prática do que o artigo sobre como implementar inteligência artificial descreve com mais detalhe.

O que muda quando a fronteira se move

Fica uma consideração que é a única razão pela qual este artigo vai envelhecer.

A fronteira irregular não está parada. Move-se, e move-se depressa. Uma tarefa que estava do lado mau em 2024 pode estar do lado bom hoje, e o inverso é raro mas acontece quando os modelos mudam de comportamento. Isto significa que um teste que fizeste há dezoito meses já não é informação, é história.

Tem duas consequências práticas. A primeira é que "já experimentámos e não funcionou" é uma frase que caduca, e que muitas empresas usam para não voltar a olhar para coisas que entretanto passaram a funcionar. A segunda é o inverso e é mais perigosa: o que funcionava pode deixar de funcionar sem aviso, porque o fornecedor mudou o modelo por baixo e ninguém te disse. Uma empresa que depende de generativa em produção sem verificação regular está a construir sobre uma coisa que muda sozinha.

A postura que sobrevive a isto não é escolher bem hoje. É montar o hábito de reavaliar, com um calendário, e aceitar que esta é uma decisão que não se toma uma vez.

A alucinação não é um bug

Convém arrumar isto, porque é o mal-entendido técnico que mais decisões erradas produz.

Quando um modelo generativo inventa um facto, a reação típica de quem gere é achar que é um defeito que vai ser corrigido na próxima versão. Não é. É uma consequência direta de como a coisa funciona.

Um modelo generativo não consulta uma base de dados de verdades. Produz a continuação mais provável do texto que recebeu. Quando a continuação mais provável coincide com a realidade, acertou. Quando não coincide, inventou. Do ponto de vista da máquina, as duas operações são exatamente a mesma, e é por isso que a confiança com que ela afirma uma coisa verdadeira é indistinguível da confiança com que afirma uma falsa.

Isto tem uma implicação que muda a arquitetura de qualquer projeto: não podes resolver isto com melhores instruções. Podes reduzir a frequência, e as técnicas para o fazer, que atravessam todo o trabalho com instruções, reduzem mesmo. Não podes eliminar.

A defesa não é técnica, é de desenho. Nunca ponhas a máquina no sítio onde um erro passa sem ser visto. Se há verificação humana a seguir, o risco é gerível e o ganho é real. Se o output vai direto para o cliente, para um contrato ou para um sistema que age, criaste uma exposição que ninguém quantificou.

E há uma versão desta armadilha que é específica de PME e que aparece sempre. A empresa testa com dez casos, corre bem, e conclui que a máquina é fiável. Dez casos não te dizem nada sobre a taxa de erro. Se a máquina falha em 3% dos casos, a probabilidade de não veres nenhuma falha em dez tentativas é de mais de 70%. O teste pequeno não prova fiabilidade, prova apenas que não tiveste azar.

Quanto custa mesmo cada uma

Vale a pena falar de dinheiro, porque a estrutura de custos das duas famílias é oposta e ninguém compara na mesma base.

A generativa tem custo de entrada quase nulo e custo marginal permanente. Pagas por uso ou por subscrição, todos os meses, para sempre, e o custo escala com a utilização. Começas hoje por vinte euros e não tens surpresas de arranque. Ao fim de três anos, somaste.

A tradicional tem o oposto. Custo de entrada considerável, porque alguém tem de arrumar dados, construir e validar o modelo, e depois custo marginal próximo de zero: uma vez treinado, correr previsões custa quase nada. Demora meses a produzir alguma coisa e depois produz durante anos.

Há uma terceira coluna que ninguém põe na folha e que costuma ser a maior de todas: o custo de verificação. Uma ferramenta generativa que produz vinte rascunhos por dia exige que alguém os leia. Esse alguém custa dinheiro, e o custo dele não aparece na fatura da ferramenta. É frequente ver empresas a poupar quatro horas de redação e a gastar três de revisão, e a chamar a isso uma poupança de quatro horas.

E há um custo que só aparece anos depois e que devia entrar na decisão: dependência. Um modelo tradicional treinado com os teus dados é teu. Uma dependência de uma ferramenta generativa de terceiros é uma renda, com um preço que sobe quando o fornecedor quiser e um comportamento que muda sem te avisar.

O que isto não é

Fica uma delimitação, porque este espaço está cheio de coisas que se apresentam como escolhas e não são.

Não é uma escolha entre moderno e antigo. A IA tradicional não é uma tecnologia ultrapassada que a generativa veio substituir. São ferramentas para problemas diferentes, e a maioria dos problemas rentáveis de uma PME, previsão, deteção, classificação, continua a ser território da tradicional, que faz isso há duas décadas e faz bem.

Não é uma escolha entre cara e barata. Já vimos que as estruturas de custo são opostas e que a comparação depende inteiramente do horizonte.

E não é uma escolha entre sofisticada e simples. Há problemas de empresa que se resolvem com uma folha de cálculo bem feita e uma regra de negócio, e chamar-lhes IA não os melhora. A pergunta anterior a este artigo inteiro é se o problema precisa de aprendizagem de máquina, e a resposta honesta é que muitos não precisam. Uma regra que diz "avisa-me quando um cliente não compra há noventa dias" resolve mais do que um modelo de previsão de cancelamento na maioria das empresas com menos de cem clientes, e custa uma tarde em vez de um trimestre.

O panorama completo das ferramentas disponíveis e do que cada uma faz está no artigo sobre ferramentas de inteligência artificial para gestão, e a natureza específica da tecnologia generativa está tratada no artigo sobre IA generativa. Este ficou-se pela decisão que vem antes de escolher qualquer uma: qual das duas famílias resolve o teu problema.

O que acontece às pessoas

Fica a dimensão que quase nenhuma discussão sobre IA em empresas aborda, e que decide se o projeto sobrevive ao segundo trimestre.

Volta ao achado do estudo dos 5.179 agentes: o ganho concentrou-se nos menos experientes. Isso é excelente para a empresa e é ambíguo para as pessoas, e a ambiguidade tem consequências práticas.

Se a ferramenta faz um novato produzir como um veterano, a vantagem competitiva do veterano dentro da tua empresa acabou de encolher. Ele percebe isso antes de ti. E a reação natural de alguém cuja vantagem está a ser dissolvida não é entusiasmo, é resistência, e a resistência aparece disfarçada de preocupação técnica: a ferramenta não é fiável, os clientes vão notar, isto não serve para o nosso caso.

Às vezes têm razão, e é por isso que despachar a objeção como medo é um erro. Mas convém saber que a conversa tem duas camadas, e que só uma delas está a ser dita.

Há uma segunda consequência, mais estrutural. Se a ferramenta nivela o output, como é que continuas a distinguir quem é bom? Uma empresa que avalia pessoas pelo resultado do trabalho, e cujo trabalho passou a ser feito metade por uma máquina, deixou de ter um sistema de avaliação a funcionar sem que ninguém tenha mexido nele. A resposta não é proibir a ferramenta. É perceber que o critério mudou: o que distingue passa a ser o julgamento, a decisão sobre o que aceitar e o que rejeitar, e isso é muito mais difícil de medir do que velocidade.

E há a questão que ninguém quer fazer e que os teus colaboradores estão a fazer sozinhos: se a máquina faz isto, o que é que eu faço? A resposta honesta em quase todos os casos de PME não é despedir ninguém, é fazer mais com os mesmos. Mas essa resposta só é credível se for dita, e o silêncio é lido como confirmação do pior. Uma implementação de IA sem uma conversa explícita sobre o que acontece às pessoas é uma implementação que vai ser sabotada por gente educada, através daquele mecanismo eficaz que é usar a ferramenta o mínimo indispensável e reportar que não ajuda muito.

Por onde começar se não tens nada

Se chegaste aqui e a tua empresa não usa nada disto, há uma sequência que funciona e que é o oposto da que a maioria segue.

A maioria começa pelo mais visível: um projeto grande, com fornecedor, com apresentação à gerência. Consome meses, produz uma demonstração, e morre quando alguém pergunta quanto poupou.

A sequência que funciona começa pelo mais aborrecido. Escolhe a tarefa que mais horas consome na tua empresa e que menos julgamento exige. Não a mais estratégica, a mais repetitiva. Transcrever, resumir, classificar, redigir a partir de um formato fixo. Essas tarefas estão quase sempre bem dentro da fronteira, o risco de erro é baixo porque alguém revê de qualquer maneira, e o ganho é imediato e mensurável em horas.

Depois mede. Não a satisfação de quem usa, que é sempre alta porque é novidade. Horas, casos processados, tempo de resposta. Coisas que existiam antes e existem depois.

E só depois, quando tiveres uma vitória concreta e alguém internamente que percebe da coisa, é que faz sentido olhar para os problemas onde a IA tradicional entra, porque esses exigem dados arrumados, exigem tempo, e exigem que a organização já acredite que isto dá alguma coisa. Ninguém aguenta seis meses de projeto de dados sem uma vitória pequena antes, e as empresas que tentam fazer o difícil primeiro raramente chegam ao fim.

Há uma variante desta sequência que vale para quem já tem alguma coisa a correr e não sabe se vale a pena: para de perguntar se a ferramenta é boa e começa a perguntar o que aconteceria se a desligasses amanhã. Se a resposta for que ninguém notava, tens a tua avaliação.

Conclusão

Conclusão

Vale a pena reparar no que a investigação séria sobre este tema tem em comum, e no que a distingue de tudo o resto que vais ler. Os três trabalhos que sustentam este artigo têm uma coisa em comum: mediram em vez de opinar, publicaram em revistas que os obrigaram a mostrar o método, e encontraram resultados que ninguém queria. Que a ferramenta prejudica em algumas tarefas. Que o ganho está nos piores e não nos melhores. Que quem a usa converge e fica menos original. Nenhuma destas conclusões vende software, e é precisamente por isso que não as ouves em lado nenhum, num mercado onde praticamente toda a informação disponível é produzida por quem lucra com a adoção. Se ficares com uma coisa, que seja o hábito e não a taxonomia. Escolhe uma tarefa pequena esta semana, faz vinte casos das duas maneiras, e compara com honestidade. Vais descobrir uma de três coisas, e todas te fazem ganhar: ou a máquina ganha e tens um caso de uso comprovado em vez de uma intuição, ou empata e poupaste o custo de a instalar, ou perde e acabaste de evitar o projeto que ias defender na próxima reunião. Nenhum artigo, incluindo este, te consegue dizer de que lado da fronteira está a tua tarefa. Vinte casos e uma tarde dizem-te.

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