Financeiro
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Rafael Parreira
A análise de crédito a empresas obedece a critérios definidos. Na União Europeia, as orientações da Autoridade Bancária Europeia sobre concessão e monitorização de empréstimos, em vigor desde 2021, definem como os bancos devem avaliar a capacidade de reembolso dos clientes, que informação devem recolher e que métricas podem usar na concessão e no acompanhamento dos créditos. Cada banco tem os seus modelos e limites, mas todos partem de uma lógica comum.
Essa lógica pode resumir-se em 4 perguntas:
A empresa gera dinheiro suficiente para pagar a dívida? É a pergunta central, e responde-se com rácios de cobertura do serviço da dívida.
A empresa já está demasiado endividada? Responde-se com rácios de endividamento e de autonomia financeira.
A empresa tem liquidez para aguentar o dia a dia? Responde-se com rácios de liquidez e com a análise do ciclo de tesouraria.
Se tudo correr mal, o que protege o banco? Responde-se com garantias, avales e colaterais.
A ordem importa. As garantias são a última linha de defesa do banco, não a primeira. Um banco que concede crédito apenas porque há garantias está a assumir que o crédito pode não ser pago, e isso reflete-se no preço, no prazo e nas condições.
A Central de Responsabilidades de Crédito
Antes de olhar para os rácios, o banco consulta a Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal, onde estão as responsabilidades de crédito da empresa junto do sistema financeiro a partir de 50€, incluindo as responsabilidades potenciais, como garantias e avales prestados. Os avales dados pelos sócios constam do mapa de cada sócio, que o banco pode também ter em conta quando os sócios são chamados a garantir a operação. Como explica a DECO Proteste, o objetivo é permitir aos bancos perceber que responsabilidades existem, se estão regulares ou em incumprimento e se o cliente já está muito exposto ao crédito.
Daqui resultam 3 implicações práticas:
Um incumprimento, mesmo pequeno e antigo, pesa muito. Uma prestação em atraso num cartão de crédito da empresa pode travar um financiamento muito maior.
Os avales pessoais dos sócios contam. Um sócio que avalizou créditos de outras empresas tem responsabilidades que o banco vai considerar.
A empresa pode e deve consultar o seu próprio mapa antes de pedir crédito, para detetar erros ou situações esquecidas.
Os rácios que decidem
Não há uma lista oficial e única de rácios, e cada banco tem os seus limites. Mas há um conjunto de indicadores que aparecem em praticamente todas as análises de crédito a PME. Todos se calculam a partir do balanço, da demonstração de resultados e, cada vez mais, da demonstração de fluxos de caixa.
Cobertura do serviço da dívida
É o rácio mais importante, e o que mais empresários desconhecem. Mede se o dinheiro gerado pela atividade chega para pagar as prestações da dívida, ou seja, juros e amortizações de capital, num determinado período.
A forma de cálculo varia entre bancos, mas uma versão simples é esta:
Cobertura do serviço da dívida = (EBITDA − impostos pagos − investimento de manutenção) / (juros + amortizações de capital do período)
Um rácio de 1 significa que a empresa gera exatamente o necessário para pagar a dívida, sem qualquer margem. Abaixo de 1, não gera o suficiente e terá de recorrer a mais dívida, a capitais dos sócios ou às reservas de tesouraria. Os bancos procuram, em regra, uma margem de segurança acima de 1, com limites internos que variam consoante o banco, o setor e o tipo de operação.
É este rácio que explica porque é que empresas com lucro veem créditos recusados. Uma empresa pode ter lucro e, ao mesmo tempo, ter prestações anuais superiores ao dinheiro que gera, sobretudo quando tem dívida de curto prazo a financiar investimentos de longo prazo.
Dívida financeira líquida sobre EBITDA
Mede quantos anos de EBITDA seriam necessários para pagar toda a dívida financeira, descontada a tesouraria disponível. Calcula-se dividindo a dívida financeira, empréstimos bancários, leasings e outros financiamentos remunerados, menos as disponibilidades, pelo EBITDA anual.
É um rácio de endividamento simples e muito usado. Quanto mais alto, mais tempo a empresa levaria a pagar a dívida e mais vulnerável fica a uma quebra de resultados. Os valores aceitáveis dependem muito do setor: uma empresa com receitas muito estáveis e ativos sólidos pode sustentar um rácio mais alto do que uma empresa com resultados voláteis.
Uma nota importante: o EBITDA é um indicador útil, mas não é dinheiro. Não inclui os impostos, o investimento necessário para manter a atividade nem as variações do fundo de maneio. Um EBITDA saudável pode conviver com uma tesouraria em sofrimento, e os bancos mais cuidadosos sabem disso.
Cobertura de juros
Mede quantas vezes o resultado operacional, ou o EBITDA, cobre os juros pagos. É um indicador de folga: uma empresa com uma cobertura de juros confortável aguenta melhor uma subida das taxas de juro ou uma quebra de resultados.
Com a subida das taxas de juro entre 2022 e 2023, este rácio ganhou peso. Muitas empresas contrataram crédito com taxas variáveis num período de juros muito baixos e viram a cobertura de juros deteriorar-se sem que a atividade tivesse piorado. Quando o banco analisa um novo pedido, é comum testar a resistência da empresa a cenários de subida de taxas ou de quebra de vendas, e uma cobertura de juros apertada é das primeiras a ceder nesses testes. Simular esses cenários antes do pedido permite chegar à reunião com a resposta já preparada.
Autonomia financeira
É a proporção do ativo financiada por capitais próprios. Calcula-se dividindo o capital próprio pelo ativo total. Uma empresa com uma autonomia financeira de 40% financia 40% dos seus ativos com dinheiro dos sócios e resultados acumulados, e 60% com passivos.
Para o banco, a autonomia financeira mede o compromisso dos sócios e a capacidade da empresa para absorver perdas. Uma empresa com capital próprio reduzido, ou negativo, tem pouca almofada: qualquer prejuízo coloca em risco os credores. É um dos rácios que mais pesa nos modelos de risco, e um dos mais fáceis de melhorar com decisões dos sócios.
A alavancagem financeira pode aumentar a rentabilidade dos capitais próprios quando os negócios correm bem, mas reduz a autonomia financeira e aumenta a vulnerabilidade quando correm mal. Os bancos olham para esse equilíbrio.
Liquidez
Os rácios de liquidez comparam os ativos que se transformam em dinheiro no curto prazo com as dívidas a pagar no mesmo período. O mais comum é a liquidez geral, que divide o ativo corrente pelo passivo corrente. Um valor inferior a 1 significa que as dívidas de curto prazo são superiores aos ativos de curto prazo, o que pode indicar dificuldades de tesouraria.
Mas o rácio conta só uma parte da história. Um ativo corrente cheio de stocks parados ou de clientes que não pagam não é liquidez real. Por isso, os bancos olham também para o fundo de maneio e para os prazos médios.
Prazos médios de recebimento, pagamento e stocks
Os prazos médios mostram quanto tempo a empresa demora a receber dos clientes, a pagar aos fornecedores e a vender os stocks. Juntos, definem o ciclo de conversão de caixa: quanto tempo o dinheiro fica preso na atividade antes de voltar.
Uma empresa que recebe a 90 dias, paga a 30 e tem stocks para 60 dias tem 120 dias de dinheiro preso, que tem de ser financiado de alguma forma. Quando uma empresa pede crédito de curto prazo, o banco quer perceber se está a financiar crescimento saudável ou a tapar um ciclo de tesouraria desequilibrado.
Leasings, rendas e outras dívidas que não parecem dívida
Nem toda a dívida aparece como empréstimo bancário. Os contratos de leasing financeiro são dívida financeira e entram nos rácios de endividamento. Os contratos de aluguer operacional de longa duração, de viaturas ou equipamentos, e as rendas de instalações podem não aparecer no balanço de uma PME da mesma forma, mas representam compromissos fixos de pagamento que muitos analistas consideram na avaliação da capacidade de reembolso.
Também contam as dívidas ao Estado e à Segurança Social. Uma empresa com planos prestacionais em curso, ou com dívidas fiscais em atraso, apresenta ao banco um sinal de pressão de tesouraria, e a falta de situação regularizada pode, por si só, impedir o acesso a determinados financiamentos e apoios. Para o banco, o que conta é o total dos compromissos, incluindo os que não têm o nome de empréstimo.
Rentabilidade
O último bloco é a rentabilidade: margem bruta, margem EBITDA, resultado líquido, rentabilidade do ativo. Quem paga a dívida é o dinheiro gerado, e uma empresa rentável tem mais capacidade de o gerar de forma sustentável. A evolução ao longo de vários anos pesa tanto como o valor de um ano isolado.
Considere-se uma empresa industrial com os seguintes números ilustrativos, em milhares de euros:
Indicador | Valor |
|---|---|
Volume de negócios | 1.200 |
EBITDA | 120 |
Dívida financeira | 480 |
Disponibilidades | 60 |
Juros anuais | 25 |
Serviço da dívida anual (juros e amortizações) | 80 |
Impostos pagos | 15 |
Investimento de manutenção | 20 |
Capital próprio | 150 |
Ativo total | 900 |
Com estes dados:
Rácio | Cálculo | Resultado |
|---|---|---|
Dívida financeira líquida / EBITDA | (480 − 60) / 120 | 3,5 |
Cobertura de juros | 120 / 25 | 4,8 |
Cobertura do serviço da dívida | (120 − 15 − 20) / 80 | 1,06 |
Autonomia financeira | 150 / 900 | 16,7% |
A empresa é lucrativa, cobre os juros com folga, mas tem uma margem muito curta na cobertura do serviço da dívida e uma autonomia financeira baixa.
Agora, a empresa pede 200.000€ para comprar um equipamento, a 6% ao ano, a 5 anos. O empresário estima que o equipamento aumente o EBITDA em 40.000€ por ano. A prestação anual do novo empréstimo é de cerca de 47.500€.
Com crédito a 5 anos | Com crédito a 7 anos | |
|---|---|---|
Prestação anual do novo crédito | 47,5 | 35,8 |
Serviço da dívida total | 127,5 | 115,8 |
Cobertura do serviço da dívida, com o novo EBITDA | 0,94 | 1,04 |
Dívida financeira líquida / EBITDA | 3,88 | 3,88 |
Autonomia financeira | 13,6% | 13,6% |
Mesmo assumindo que o equipamento gera exatamente o EBITDA adicional previsto, e considerando que os impostos pagos sobem para 20.000€, a cobertura do serviço da dívida fica em 0,94, abaixo de 1, com o crédito a 5 anos. No primeiro ano, antes de o equipamento estar a produzir em pleno, com o EBITDA ainda nos 120.000€, a cobertura cairia para cerca de 0,67.
O que trava a operação é sobretudo o prazo e a estrutura, mais do que o montante. Com um prazo de 7 anos, a cobertura sobe para 1,04, ainda curta. Com um período de carência inicial, um reforço de capital próprio ou uma parte do investimento financiada por leasing ou apoios públicos, a operação pode tornar-se viável. É o tipo de conversa que vale a pena ter com o banco antes de apresentar o pedido.
Rating interno: o número que resume tudo
Os rácios não são avaliados um a um, de forma isolada. A maior parte dos bancos combina-os num modelo interno de rating, que atribui à empresa uma nota de risco. Essa nota influencia se o crédito é aprovado, a que nível hierárquico tem de ser decidido, que taxa é aplicada e que garantias são pedidas.
Os modelos de rating combinam informação financeira com informação qualitativa. Entre os fatores mais comuns estão:
Os rácios financeiros e a sua evolução nos últimos anos.
O setor de atividade e o risco que o banco lhe atribui.
A antiguidade da empresa e o historial de relação com o banco.
O comportamento na Central de Responsabilidades e nas contas do próprio banco.
A experiência e a estabilidade da gestão.
A dependência de poucos clientes ou fornecedores.
Há 2 consequências que merecem atenção. A mesma empresa pode ter notas diferentes em bancos diferentes, porque cada banco tem o seu modelo e a sua apetência por risco em cada setor. E uma parte da nota depende de fatores que a empresa não controla no curto prazo, como o setor, o que torna ainda mais importante controlar aquilo que depende dela. Uma empresa num setor considerado arriscado precisa de rácios melhores do que uma empresa num setor considerado seguro para obter as mesmas condições.
Os rácios calculam-se com as contas oficiais, e as contas oficiais têm características que muitas vezes prejudicam a empresa perante o banco.
Contas que não refletem a realidade
Em muitas PME, as contas são preparadas com uma preocupação sobretudo fiscal: reduzir o resultado para reduzir o imposto. É uma escolha compreensível, mas tem um custo. Uma empresa que apresenta resultados mínimos durante anos, para pagar menos IRC, apresenta ao banco uma capacidade de gerar dinheiro também mínima. O banco não pode conceder crédito com base em resultados que a empresa não declarou.
O mesmo se passa com despesas pessoais dos sócios contabilizadas na empresa, remunerações artificialmente baixas ou altas, e ativos que não pertencem à atividade. Cada distorção nas contas é uma distorção nos rácios, e o banco decide com base no que vê.
Suprimentos e capital próprio
Muitas PME são financiadas pelos sócios através de suprimentos, empréstimos dos sócios à empresa, em vez de capital. Contabilisticamente, os suprimentos são passivo, e por isso reduzem a autonomia financeira. Alguns bancos tratam-nos de forma mais favorável quando existe um compromisso de subordinação, ou seja, quando os sócios aceitam ser pagos depois do banco, mas não é uma regra geral.
Converter suprimentos em capital, através de um aumento de capital, pode melhorar significativamente a autonomia financeira. No exemplo anterior, se os sócios tivessem 100.000€ em suprimentos e os convertessem em capital, o capital próprio subiria para 250.000€ e a autonomia financeira passaria de 16,7% para cerca de 27,8%, sem entrada de um único euro novo.
Capital próprio negativo
Uma empresa com capital próprio negativo tem mais passivo do que ativo. Para o banco, é um sinal de alerta forte: significa que, se a empresa fosse liquidada ao valor contabilístico, não conseguiria pagar a todos os credores. Muitas empresas chegam a esta situação por prejuízos acumulados nos primeiros anos, e ficam depois com dificuldade em obter crédito mesmo quando a atividade já é rentável. Resolver esta situação antes de pedir crédito, através de reforço de capital ou de cobertura de prejuízos pelos sócios, é quase sempre condição para uma resposta positiva.
A relação com o banco
Os números são essenciais, mas não são tudo. A relação entre a empresa e o banco pesa na decisão, e a investigação ajuda a perceber como.
Um estudo clássico publicado no Journal of Finance por Petersen e Rajan, com dados de pequenas empresas norte-americanas, concluiu que o principal benefício de uma relação próxima com um credor é o aumento da disponibilidade de financiamento, com efeitos menores no preço. No mesmo estudo, alargar a relação a vários credores estava associado a crédito mais caro e menos disponível.
Os dados portugueses contam uma história mais matizada. Um estudo de Farinha e Santos, com dados de empresas portuguesas, mostrou que a maioria das empresas começa por pedir crédito a um único banco, mas que muitas passam depois a trabalhar com vários, sobretudo as que têm mais oportunidades de crescimento, mais dívida bancária ou pior desempenho. Os autores sugerem que, em muitos casos, a passagem a vários bancos resulta da indisponibilidade do banco inicial para aumentar a exposição à empresa. E um estudo posterior de Bonfim, Dai e Franco, publicado pelo Banco de Portugal, concluiu que, quando uma empresa passa a trabalhar com mais um banco, a taxa de juro dos seus empréstimos desce, em média, entre 9 e 20 pontos base, embora esse efeito não se observe nas empresas mais pequenas e mais jovens.
A lição prática é que a relação conta, e que a concorrência entre bancos também conta. Uma empresa que tem um banco principal que a conhece bem e, ao mesmo tempo, alternativas reais, está em melhor posição do que uma empresa que depende de um único banco ou que dispersa pequenas operações por muitos sem relação com nenhum.
O que torna a relação útil
Informar o banco de forma regular, e não apenas quando é preciso crédito.
Entregar as contas anuais e, se possível, contas intercalares, sem ser preciso pedir.
Avisar com antecedência quando se preveem dificuldades, em vez de deixar que o banco as descubra num atraso.
Concentrar uma parte relevante da atividade, como pagamentos, recebimentos e operações correntes, no banco principal, porque isso lhe dá informação sobre a empresa.
Manter a Central de Responsabilidades sem incidentes.
As garantias não substituem a capacidade de reembolso, mas influenciam muito as condições. As mais comuns em PME são:
Avales pessoais dos sócios. Muito frequentes em pequenas empresas. Tornam os sócios responsáveis pela dívida com o seu património pessoal, e ficam registados na Central de Responsabilidades. Antes de assinar, os sócios devem perceber o que estão a garantir, até quando e em que montante.
Garantias reais. Hipotecas sobre imóveis, penhores sobre equipamentos ou sobre saldos de contas.
Garantias mútuas. O sistema nacional de garantia mútua pode garantir uma parte do crédito, através de linhas protocoladas com os bancos, o que reduz o risco do banco e pode melhorar as condições ou viabilizar operações que, de outra forma, não seriam aprovadas.
Livranças em branco avalizadas. Muito usadas em créditos a PME, com os riscos inerentes a quem as avaliza.
Uma regra útil: negociar garantias proporcionais ao risco, com limites de montante e de prazo sempre que possível, e revê-las quando o crédito é reduzido ou a situação da empresa melhora. Muitos avales ficam em vigor muito depois de terem deixado de fazer sentido, simplesmente porque ninguém pediu para os libertar.
O mesmo vale para as garantias reais. Uma hipoteca constituída para garantir um crédito antigo pode continuar a onerar um imóvel depois de o crédito estar pago, se o seu cancelamento não for pedido e registado. E uma garantia genérica, que cobre todas as responsabilidades presentes e futuras da empresa perante o banco, é muito mais abrangente do que uma garantia associada a uma operação concreta. Ler estas cláusulas com atenção, e com apoio jurídico quando os montantes são relevantes, evita surpresas desagradáveis anos mais tarde.
O que fazer antes de pedir crédito
A maior parte do trabalho para obter crédito faz-se antes de o pedir, muitas vezes com meses de antecedência. As ações com mais impacto são:
Calcular os próprios rácios. Com as últimas contas, calcular a cobertura do serviço da dívida, a dívida líquida sobre EBITDA, a cobertura de juros, a autonomia financeira e a liquidez. Os indicadores financeiros que o banco vai usar não devem ser uma surpresa.
Simular o impacto do novo crédito. Refazer os rácios com a nova prestação, com cenários prudentes para o EBITDA adicional, e testar diferentes prazos e estruturas.
Corrigir o que é corrigível. Converter suprimentos em capital, cobrir prejuízos acumulados, liquidar pequenos incidentes na Central de Responsabilidades, reduzir prazos de recebimento.
Preparar um plano financeiro credível. Um plano financeiro com pressupostos realistas, projeções de tesouraria e explicação de como a dívida será paga vale mais do que uma apresentação sobre o potencial do negócio.
Ajustar a estrutura ao investimento. Financiar investimentos de longo prazo com dívida de longo prazo, e fundo de maneio com linhas de curto prazo ajustadas ao ciclo. Considerar leasing, carência inicial e apoios públicos que reduzam a necessidade de dívida bancária.
Pedir a vários bancos, com a mesma informação. Comparar propostas não apenas pela taxa, mas pelo prazo, pelas comissões, pelas garantias exigidas e pelas condições contratuais.
Conhecer as formas de financiamento disponíveis ajuda a escolher a solução certa para cada necessidade, em vez de tentar encaixar tudo num empréstimo bancário tradicional.
Um calendário de preparação
Como a maior parte do que o banco analisa vem das contas anuais, a preparação de um pedido de crédito relevante deve começar muito antes. Um calendário possível, para uma empresa que sabe que vai precisar de financiamento no ano seguinte:
Com 12 meses de antecedência, rever com o contabilista a forma como as contas estão a ser preparadas, e perceber que impacto têm nos rácios as opções de natureza fiscal.
Com 9 meses de antecedência, decidir sobre reforços de capital, conversão de suprimentos e cobertura de prejuízos, para que se reflitam nas contas do exercício.
Com 6 meses de antecedência, consultar o mapa de responsabilidades de crédito, resolver incidentes e rever avales antigos.
Com 3 meses de antecedência, preparar o plano financeiro, as projeções de tesouraria e a simulação dos rácios com o novo crédito.
No momento do pedido, apresentar a mesma informação a vários bancos, com um pedido claro de montante, prazo, finalidade e estrutura.
Um pedido de crédito que chega ao banco com as respostas às perguntas do analista já preparadas é tratado de forma diferente de um pedido que obriga o banco a descobrir sozinho os pontos fracos.
Quando a resposta é não
Uma recusa não é o fim da conversa. É informação. Antes de procurar outro banco, vale a pena perceber porque é que a resposta foi negativa, e a maior parte dos gestores de conta está disponível para o explicar, pelo menos em termos gerais.
As razões mais comuns são a cobertura do serviço da dívida insuficiente, o endividamento já elevado, a autonomia financeira baixa ou negativa, incidentes na Central de Responsabilidades ou uma estrutura de operação desadequada, por exemplo um prazo demasiado curto para o investimento. Cada uma destas razões aponta para uma solução diferente: reduzir o montante, alongar o prazo, reforçar o capital, oferecer garantias adicionais, recorrer a garantia mútua ou combinar o crédito com outras formas de financiamento.
Há também recusas que resultam de fatores externos à empresa, como a exposição do banco ao setor ou a sua política de risco num determinado momento. Nesses casos, outro banco pode ter uma resposta diferente com exatamente os mesmos números. Perceber qual é o caso evita repetir o mesmo pedido, com os mesmos pontos fracos, em vários bancos seguidos.
Os compromissos que vêm com o crédito
Muitos contratos de crédito a empresas, sobretudo os de montante mais elevado, incluem compromissos financeiros: a empresa obriga-se a manter certos rácios dentro de limites definidos, como uma autonomia financeira mínima ou uma dívida líquida sobre EBITDA máxima, durante a vida do crédito.
Estes compromissos são muitas vezes aceites sem grande atenção no momento da assinatura, e só lembrados quando são incumpridos. As consequências podem ser sérias: o banco pode, consoante o contrato, exigir o reembolso antecipado, rever as condições ou pedir garantias adicionais. Antes de assinar, vale a pena simular os rácios para os anos seguintes, com cenários prudentes, e negociar limites com margem suficiente. Depois de assinar, vale a pena acompanhá-los ao longo do ano, e não apenas no fecho das contas.
Os erros mais comuns
Pedir crédito sem conhecer os próprios rácios.
Apresentar contas preparadas apenas para minimizar impostos e esperar que o banco veja outra realidade.
Financiar investimentos de longo prazo com crédito de curto prazo.
Deixar incidentes pequenos por resolver na Central de Responsabilidades.
Manter capital próprio negativo ou muito baixo quando os sócios poderiam reforçá-lo.
Tratar suprimentos como se fossem capital, sem perceber como o banco os lê.
Assinar avales sem limite de montante ou de prazo.
Aceitar compromissos financeiros no contrato sem simular o seu cumprimento.
Contactar o banco apenas quando é preciso dinheiro com urgência.
Pedir crédito a um único banco, sem alternativas.
Uma análise regular das demonstrações financeiras, com os mesmos rácios que o banco usa, é a melhor preparação para qualquer pedido de crédito. Ferramentas de inteligência artificial aplicadas à análise financeira podem acelerar esse trabalho, mas não substituem a leitura crítica de quem conhece o negócio.
Ler as contas como o banco as lê, e gerir a empresa para que esses números contem a história certa, é uma competência que se aprende. É esse o trabalho que a imersão CHECKMATE: Financeiro faz com empresários que querem decidir com números.
O analista de risco que recebe o pedido não conhece o empresário, não sente o entusiasmo do projeto e não vê as encomendas que estão a chegar. Vê os rácios, o mapa de responsabilidades e a forma como o novo crédito encaixa, ou não, no dinheiro que a empresa já gera. E responde, quase sempre, à mesma pergunta: com o que esta empresa gera, consegue pagar o que deve? A boa notícia é que a resposta a essa pergunta se prepara. Contas que refletem a realidade, capital próprio compatível com o risco, prazos ajustados aos investimentos, um mapa de responsabilidades limpo e uma relação com o banco que não começa no dia em que é preciso dinheiro. Nada disto se resolve na semana do pedido. Tudo isto se resolve nos meses anteriores, por quem decide olhar para a própria empresa com os olhos de quem lhe vai emprestar.



