eCommerce
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Cátia Sá
Vamos começar por onde toda a gente começa, para acabar depressa com isso.
As mensalidades das plataformas andam num intervalo que qualquer pessoa consegue pagar. Há opções portuguesas a partir de cerca de 10€ por mês. Há plataformas internacionais com planos de entrada perto dos 20€ a 30€, consoante a moeda, o plano e se pagas ao ano ou ao mês. E há o caminho de código aberto, tecnicamente gratuito, que exige alojamento entre 5€ e 30€ mensais.
Este é o número mais discutido e o menos importante de todos. A diferença entre 10€ e 30€ por mês são 240€ por ano. Vais ver, daqui a três secções, que 240€ é ruído.
Uma ressalva sobre os valores que vais encontrar por aí: as fontes divergem, e divergem porque comparam coisas diferentes. O mesmo plano de entrada de uma plataforma internacional aparece a 19€, a 27€, a 29€ e a 39 dólares em quatro sítios diferentes, e todos têm razão, porque uns citam o preço com faturação anual, outros mensal, e outros o preço americano. Confirma na fonte antes de fazeres contas, e desconfia de qualquer artigo que não diga se o preço é anual ou mensal.
O custo que só existe cá, e é o maior de todos
Aqui está a parte que nenhum guia internacional te dá, e é a que decide a economia da tua loja.
O mercado português paga de forma diferente. Segundo dados da SIBS, o MB WAY representa cerca de 45% das transações de eCommerce em Portugal, o que faz dele a carteira digital líder do mercado. A tendência é sustentada pelos números oficiais: o Banco de Portugal, no Relatório dos Sistemas de Pagamentos, regista um crescimento de 46,4% em quantidade nas transferências imediatas, categoria onde o MB WAY se insere. E se juntares as referências Multibanco, que continuam a ser a forma preferida de muita gente pagar online, percebes que uma loja portuguesa sem estes métodos está a recusar a maioria dos seus clientes.
Isto não é uma preferência estética. É estrutural, e cria um problema que só existe aqui.
Nenhuma plataforma internacional traz MB WAY e Multibanco de origem. Para os teres, precisas de um gateway português, tipicamente ifthenpay, Eupago ou Easypay. Isso é um contrato à parte, uma integração à parte, e uma comissão à parte.
E há uma consequência de custo que muda a conta. A maioria das plataformas cobra uma taxa de transação adicional a quem processa pagamentos através de terceiros: na Shopify, entre 0,5% e 2% consoante o plano, somada à comissão que o gateway português já cobra. Ou seja, as encomendas pagas por MB WAY ou Multibanco custam-te duas comissões, não uma.
Faz a conta com o teu volume, porque a diferença não é simbólica: numa loja com 100.000€ de vendas anuais, 1% adicional são 1.000€ por ano só em taxa de plataforma, além do que pagas ao gateway. A saída habitual é usar o sistema de pagamentos nativo da plataforma para cartão, evitando aí a taxa extra, e reservar o gateway português para MB WAY e Multibanco, limitando a dupla comissão a esse subconjunto de encomendas.
O gateway tem dois tipos de custo, e convém separá-los. A comissão por transação é o custo recorrente e é o que pesa: consulta as tabelas públicas da ifthenpay, da Easypay e do Eupago, porque variam por método de pagamento e por volume, e a diferença entre elas é material quando escalas. O eventual custo de ativação varia com o fornecedor, havendo quem não cobre nada e viva apenas da comissão. E há um detalhe de calendário que apanha quem marcou o lançamento sem contar com ele: a abertura da conta exige validação da empresa e demora dias, não minutos. Trata isso como uma tarefa a iniciar semanas antes do lançamento, e não na véspera.
A segunda coisa que só existe cá, e que apanha toda a gente que copia um plano de negócios de fora.
Em Portugal, se emites faturas através de um programa informático, ele tem de ser certificado pela Autoridade Tributária. Não é boa prática, é lei, e numa loja online não há alternativa realista: a faturação manual no Portal das Finanças deixa de ser gerível às primeiras dezenas de encomendas. A faturação nativa das plataformas internacionais não serve, porque os documentos que elas emitem não são certificados cá.
A boa notícia é que esta linha é mais barata do que se pensa. A subscrição de um programa certificado começa nos 5€ a 10€ por mês para volumes baixos, havendo soluções de pagamento por documento emitido, sem mensalidade fixa. E a integração com a loja, ao contrário do que muita gente orçamenta, não costuma exigir desenvolvimento à medida: os principais programas portugueses disponibilizam plugins nativos para WooCommerce e Shopify, vários deles gratuitos, e os pagos andam nas dezenas de euros por ano. Só precisas de desenvolvimento à medida se tiveres um ERP, um CRM ou um fluxo pouco comum, e aí sim os valores sobem para as centenas.
E há uma armadilha nesta linha que vejo repetir-se. Muita gente monta a loja, lança, começa a vender, e emite as faturas à mão no programa de faturação enquanto "não arranja tempo" para a integração. Nas primeiras dez encomendas é gerível. Às cinquenta, é uma pessoa a tempo parcial a copiar dados entre dois sistemas, com os erros que isso traz. A integração parece um custo adiável e é a que mais depressa se paga sozinha.
A linha que ninguém orçamenta e que é a maior
Agora a parcela que, em quase todas as lojas que vejo, ultrapassa o desenvolvimento inteiro.
Fotografia de produto. Um catálogo de cinquenta produtos pode custar entre 500€ e 2.000€ para fotografar em condições. E não é um custo de arranque, é recorrente: cada produto novo precisa de fotografia, e o teu catálogo não vai ficar parado.
Sei o que estás a pensar, porque é o que toda a gente pensa: tiro eu com o telemóvel. Podes. E vais descobrir uma coisa que nenhuma folha de cálculo prevê, que é que a fotografia é a única coisa que o cliente tem para avaliar o produto. Não pode tocar, não pode ver ao vivo, não pode experimentar. Numa loja física, a fotografia é publicidade. Numa loja online, a fotografia é o produto. Poupar aqui não é poupar num custo, é degradar aquilo que estás a vender, e o efeito aparece na conversão sem que ninguém consiga apontar a causa. É a razão pela qual a fotografia de produto merece tratamento próprio e não uma linha no fim do orçamento.
O mesmo vale para os textos. Descrições, especificações, respostas às perguntas que o cliente faria a um vendedor se houvesse um. Cinquenta fichas de produto bem escritas são semanas de trabalho de alguém, e esse alguém custa dinheiro, mesmo que sejas tu, porque o teu tempo é o recurso mais caro que tens.
Vale a pena juntar tudo. Uso valores de arranque conservadores, para uma loja pequena com cerca de cinquenta produtos, montada por alguém competente e sem luxos:
Arranque | Estimativa |
|---|---|
Desenvolvimento e configuração | 1.500€ a 3.000€ |
Fotografia de 50 produtos | 500€ a 2.000€ |
Textos e fichas de produto | 300€ a 1.500€ |
Integração de faturação certificada | 0€ a 100€ |
Integração com transportadoras | 200€ a 600€ |
Domínio e configuração inicial | 20€ a 50€ |
Total de arranque | 2.500€ a 7.250€ |
E depois o que corre todos os meses:
Mensal | Estimativa |
|---|---|
Plataforma ou alojamento | 10€ a 50€ |
Faturação certificada | 5€ a 20€ |
Módulos e aplicações | 20€ a 80€ |
Manutenção e atualizações | 30€ a 100€ |
Subtotal fixo | 65€ a 250€ |
Olha para a última linha e compara-a com os 29€ da conversa inicial. E repara no que ainda não está lá: comissões de transação, portes, embalagem, devoluções, e a linha que decide se a loja existe ou não, que é o marketing.
A parte variável, que é onde a margem mora
As linhas fixas assustam e não são as que matam. As variáveis são.
Comissões de pagamento. Cada venda paga uma percentagem, tipicamente entre 1% e 3%, mais um valor fixo por operação. Para cartões emitidos no Espaço Económico Europeu, os processadores internacionais andam à volta de 1,5% mais 25 cêntimos, com variações consoante o plano e a origem do cartão. O MB WAY e as referências Multibanco têm comissões próprias, cobradas pelo gateway português. E se optares por esse gateway em vez do sistema de pagamentos nativo da plataforma, junta ainda a taxa de transação que ela cobra a quem processa por terceiros.
Portes de envio. É, na maioria das lojas físicas de produto, o fator que decide a rentabilidade. E há uma decisão que toda a gente toma sem fazer as contas: os portes grátis. Aumentam a conversão de forma real e mensurável, e ou saem da tua margem ou estão no preço. Não há terceira opção, e quem os oferece sem os pôr no preço está a subsidiar cada venda, uma matéria que atravessa toda a logística de envios.
Devoluções. Existem, são um direito, e custam duas vezes: o custo de retorno e o produto que volta em condições de revenda ou não volta. Uma loja de vestuário com taxas de devolução altas tem uma economia completamente diferente de uma loja de consumíveis, e a política que escolhes é uma decisão financeira antes de ser de serviço.
Embalagem. Parece pequeno e não é, sobretudo em produtos frágeis ou volumosos, onde a caixa e o enchimento podem ser uma fração relevante do valor.
Todas estas linhas se comportam da mesma maneira: crescem exatamente ao ritmo das tuas vendas. Não se diluem. É por isso que uma loja pode duplicar a faturação e não melhorar nada, e a razão está numa conta que ninguém fez ao início, que é a margem líquida por encomenda depois de tudo, e é o que a estratégia de preços em eCommerce existe para resolver.
Chegamos à linha maior de todas e à que quase nunca aparece nas contas de quem está a orçamentar uma loja.
Uma loja online sem tráfego é um armazém sem porta. Não tem montra, não tem passagem de pé, não tem ninguém a entrar por engano. Se não trouxeres pessoas, não entra ninguém, e essa é a diferença estrutural entre comércio físico e digital que toda a gente sabe e ninguém orçamenta.
Não há uma percentagem universal, mas há uma verdade incómoda: o marketing é, na maioria das lojas em arranque, a maior linha de custo do primeiro ano, várias vezes superior a tudo o que somámos acima. Faz a conta ao contrário, a partir do que precisas de vender: se prevês faturar 5.000€ por mês e o teu custo de aquisição por cliente for de 15€, com um ticket médio de 50€ precisas de 100 encomendas e de 1.500€ de investimento em tráfego. É esse o número que devia entrar no orçamento, e não uma percentagem copiada de um artigo.
E é aqui que a maioria dos projetos morre, e morre de uma forma específica e evitável. Gasta-se o orçamento inteiro a construir, lança-se com a loja perfeita, e não sobra dinheiro para trazer ninguém. A loja fica pronta e vazia, e a conclusão que se tira é que o eCommerce não funciona. Funciona. O que não funciona é gastar 100% do dinheiro na parte que não vende.
A decisão sobre onde investir esse dinheiro e por que ordem é outra conversa e tem regras próprias, e é a diferença entre comprar tráfego para descobrir se a oferta interessa e comprar tráfego para escalar uma coisa que já sabes que funciona. O contexto geral está no artigo sobre vendas online.
O ponto de equilíbrio, e é a única conta que interessa
Com os números na mesa, a pergunta certa deixa de ser quanto custa e passa a ser quantas encomendas por mês é que isto exige para não perder dinheiro.
A conta é simples e quase ninguém a faz antes de começar. Pegas nos custos fixos mensais, incluindo o marketing. Divides pela margem líquida de uma encomenda média, ou seja, o que sobra depois do custo do produto, da comissão de pagamento, dos portes e da embalagem. O resultado é o número de encomendas de que precisas.
Faz o exercício com números redondos. Se tens 800€ de custos fixos por mês e sobram 20€ por encomenda depois de tudo, precisas de 40 encomendas mensais só para empatar. Mais de uma por dia, todos os dias, incluindo domingos e agosto.
Esse é o número que devia estar na primeira página do teu plano, e é o que transforma a discussão sobre a mensalidade da plataforma no ruído que ela é. Vinte euros de diferença na plataforma são uma encomenda por mês. Cinco euros de margem a mais por encomenda baixam o teu ponto de equilíbrio de 40 para 32 encomendas, ou seja, menos oito vendas por mês para chegar ao mesmo sítio. É aí que o esforço rende, e é a razão pela qual a mecânica do ponto de equilíbrio vale mais do que qualquer comparação de planos.
O passo seguinte, que quase ninguém dá
Tens 40 encomendas por mês como objetivo. Agora responde a esta: quantas visitas é que isso exige?
É aqui que a conta deixa de ser sobre custos e passa a ser sobre realidade. A taxa de conversão média no eCommerce europeu andou pelos 1,8% num levantamento recente, e a análise que a Littledata fez a lojas Shopify, citada pela própria plataforma, aponta para uma média de 1,4%, com 3,2% a colocar-te no melhor quinto das lojas e 4,7% no melhor décimo.
Faz a divisão. Quarenta encomendas a uma conversão de 1,5% exigem cerca de 2.700 visitas por mês. Todos os meses. Noventa por dia.
Volta agora à linha do marketing e percebe porque é que ela é a maior de todas. Noventa visitas por dia não aparecem sozinhas num site que ninguém conhece. Ou as compras, e a conta muda com o teu custo por clique, ou as constróis, e isso demora anos.
Este é o cálculo que separa um plano de uma fantasia, e demora dois minutos. A maior parte das pessoas que monta uma loja nunca o fez, e é por isso que "afinal ninguém entra no site" é a frase mais comum do sexto mês.
Nota que estes são valores médios de mercados maiores e que a tua taxa depende do teu produto, do teu preço e da qualidade da loja. Usa 1,5% para fazer a conta e assume que vais estar abaixo nos primeiros meses, porque toda a gente está.
O dado português que muda a tua decisão de preço
Há um número específico do mercado nacional que devia estar em qualquer conversa sobre custos, e vem do CTT E-Commerce Report, o estudo anual de referência do setor em Portugal.
66,3% dos clientes abandonam o carrinho porque o preço final é mais alto do que esperavam. Dois em cada três. Não é o preço, é a surpresa do preço final, e a surpresa chama-se quase sempre portes de envio. Os outros motivos ficam muito atrás: problemas técnicos com 22,4%, prazo de entrega longo com 19,6%, e desconfiança nos pagamentos com 16,9%.
Percebe o que isto faz à tua conta. Se a maioria dos abandonos vem de o cliente descobrir os custos de envio no fim, então a decisão sobre portes de envio não é uma linha de custo, é a variável que mais mexe na tua conversão. E a conversão é o divisor da conta anterior: melhorar de 1,5% para 2% corta em 25% o tráfego de que precisas, o que vale mais do que qualquer poupança em todas as linhas fixas deste artigo somadas.
O mesmo estudo aponta para um gasto médio anual de 1.319€ por comprador, um valor médio por compra de 55,9€, e para 5,5 milhões de portugueses a comprar online num mercado que vale 12,9 mil milhões de euros e cresceu 6,7%. O mercado existe. O que não existe é a versão em que se monta a loja e ele aparece sozinho.
Este raciocínio, o de olhar para uma loja como um sistema económico em vez de um projeto técnico, é exatamente o trabalho que a imersão CHECKMATE: eCommerce faz com quem já vende online e descobriu que faturar não é o mesmo que ganhar.
O custo que não tem fatura
Falta a parcela mais cara de todas e a que não aparece em orçamento nenhum: o teu tempo.
Uma loja online não é um ativo passivo. É uma operação. Todos os dias há encomendas para processar, perguntas para responder, stock para atualizar, devoluções para tratar, e problemas para resolver. E o trabalho não é proporcional às vendas: mesmo com as 40 encomendas mensais do exemplo anterior, a loja exige presença diária, porque quem compra à quinta à noite espera resposta à sexta de manhã.
A conta que ninguém faz é esta: duas horas por dia, todos os dias, a 20€ por hora, são 1.200€ por mês que não estão em fatura nenhuma. Mesmo contando apenas dias úteis, são 880€. Em qualquer dos casos, é várias vezes mais do que todos os custos fixos que somámos.
Vale a pena separar duas coisas que se confundem. Há o tempo de operar, que baixa com volume porque se cria rotina e se automatiza. E há o tempo de resolver, que sobe com volume, porque mais encomendas significam mais exceções, mais devoluções e mais clientes com problemas. Quem assume que o segundo se dilui está a projetar uma economia que não existe: a partir de determinado ponto, ou contratas ou paras de crescer, e essa contratação nunca está no plano do primeiro ano.
E há o custo de aprendizagem, que existe e não se orçamenta. Os primeiros meses são de erros: a configuração fiscal que ficou mal, o envio que foi para a morada errada, o preço que estava sem IVA. Cada um custa dinheiro ou custa um cliente, e nenhum aparece numa folha de cálculo de arranque.
A pergunta honesta antes de montares uma loja não é se consegues pagar a mensalidade. É se tens duas horas por dia, todos os dias, para sempre. Se a resposta for não, e não sabes quem as vai ter, acabaste de descobrir uma coisa importante antes de gastar nada.
Quando não vale a pena montar loja
Convém dizer isto num artigo sobre custos de lojas, porque é a resposta certa mais vezes do que a indústria admite.
Se vendes três referências, não precisas de uma loja completa com plataforma, tema, aplicações e gateway. Uma página de venda simples faz o mesmo trabalho e configura-se numa tarde. Montar a infraestrutura de uma loja para vender três produtos é comprar um camião para transportar uma mala.
Se ainda não sabes se alguém compra o que vendes, uma loja é a forma mais cara possível de descobrir. Vende primeiro à mão, por mensagem, por telefone, por transferência. É deselegante, custa zero, e responde à única pergunta que interessa.
E se o teu produto vive num mercado onde as pessoas já procuram, pode fazer mais sentido começar por lá e ter loja depois. É uma decisão com economia própria e está tratada na comparação entre marketplace e loja própria.
A loja não é o começo do negócio, é a formalização de um negócio que já existe. Quem monta primeiro e procura clientes depois tem uma loja. Quem tem clientes e monta a loja para os servir melhor tem um negócio.
O que fazer com estes números
Antes de decidires seja o que for, faz três coisas que cabem numa tarde e que valem mais do que qualquer orçamento de agência.
Escreve a tua conta, com as tuas linhas, na estrutura deste artigo. Não copies os intervalos, que são estimativas construídas a partir de fontes que consultei e que variam com o teu caso. Pede preços reais para as três maiores: desenvolvimento, fotografia e integrações.
Depois calcula o ponto de equilíbrio, com a tua margem real por encomenda. Se o número te parecer confortável, refaz a conta com metade das vendas que estimaste, porque a tua estimativa está otimista, como todas as estimativas de quem está entusiasmado.
E, finalmente, decide onde vais buscar as pessoas antes de decidires a plataforma. É a inversão que quase ninguém faz e é a única que importa: a plataforma é uma decisão de dez minutos se souberes de onde vêm os clientes, e é uma decisão de três semanas se não souberes, porque na ausência de resposta à pergunta que interessa, o cérebro agarra-se à pergunta que tem resposta.
Quando pedires orçamentos, vais receber propostas que diferem em dez vezes, e a diferença raramente é qualidade: é perímetro. Uns contam só a infraestrutura, outros incluem fotografia, textos, integrações, marketing e horas de acompanhamento. Antes de comparares preços, exige que cada proposta diga o que inclui, o que fica de fora, e o que passa a custar depois da entrega. A pergunta que separa propostas não é quanto custa, é o que está lá dentro e quem paga o que faltar.
Os três caminhos, e o que cada um esconde
Vale a pena arrumar as opções por economia em vez de por marca, porque cada uma esconde o custo num sítio diferente.
A plataforma alojada. Pagas mensalidade e alguém trata do servidor, da segurança e das atualizações. O Shopify é o exemplo mais conhecido e o que mais recomendo. O custo esconde-se em dois sítios: nas aplicações, que somam sem que ninguém decida somar, e nas comissões de transação, que doem se optares por um gateway português para MB WAY e Multibanco, porque aí acumulas a taxa da plataforma com a do gateway. É a escolha de quem quer vender e não quer gerir infraestrutura.
O código aberto. O WooCommerce sobre WordPress é o caso dominante, e não cobra comissão por venda. O custo esconde-se no que tens de montar e manter: alojamento, segurança, atualizações, e alguém que resolva quando dá problemas. É frequentemente apresentado como a opção barata e é a opção que troca dinheiro por trabalho. Se o trabalho é teu e o teu tempo vale alguma coisa, a poupança é menor do que parece.
As plataformas portuguesas. Começam mais baratas do que as internacionais e trazem de origem aquilo que as outras te obrigam a integrar: MB WAY, Multibanco, transportadoras nacionais, faturação certificada e suporte em português europeu. O custo esconde-se noutro sítio: ecossistema mais pequeno, menos temas e integrações, menos programadores no mercado que as conheçam, e maior dependência de um fornecedor único.
Repara no que isto faz à comparação. Uma plataforma internacional a 19€ que te obriga a integrar gateway, faturação e transportadora pode acabar mais cara e mais demorada do que uma nacional a 30€ que já traz tudo. A mensalidade compara-se em segundos e a integração paga-se durante meses, e é por isso que a comparação de mensalidades engana tanto.
O segundo ano, que ninguém orçamenta
Este artigo prometeu o primeiro ano e vale a pena olhar para o seguinte, porque é onde a conta muda de forma.
O arranque acaba. Aquelas linhas grandes, o desenvolvimento, a fotografia inicial, as integrações, não voltam. Uma pessoa desatenta conclui que o segundo ano é mais barato.
Não é, e por três razões.
O catálogo cresce. Cada produto novo é fotografia nova, texto novo, e configuração nova. Se lanças 30 referências no segundo ano, tens outra vez a linha da fotografia, só que agora ninguém a orçamentou porque "isso foi no arranque".
A dívida técnica chega. O template desatualiza-se, os módulos param de ser mantidos, a plataforma muda de versão. Ao fim de dois anos há sempre uma conta de manutenção que ninguém previu, e ela é maior do que a soma de todas as mensalidades do ano.
O marketing sobe em vez de descer. É o oposto do que toda a gente assume. Assume-se que a marca ganha tração e a aquisição fica mais barata. Às vezes acontece. O que acontece mais vezes é o leilão ficar mais caro à medida que mais gente entra na tua categoria, e o teu custo por cliente subir enquanto tu não mudaste nada. É preciso pensar entre tráfego orgânico versus tráfego pago.
A conta honesta de um projeto de comércio eletrónico não é a do primeiro ano, é a dos três primeiros, e quase toda a gente decide com base numa folha que acaba em dezembro do primeiro.
Onde se poupa sem estragar
Depois de tudo isto, a pergunta legítima: onde é que se corta sem destruir?
Na plataforma, sim. É a linha onde a diferença de preço tem menos efeito no resultado. Começar numa opção mais barata e mudar depois custa, mas custa menos do que sobre-investir agora numa infraestrutura para um volume que ainda não tens.
No template, sim. Um template comprado e bem configurado faz, para a esmagadora maioria das lojas, o mesmo trabalho que um desenho à medida que custa dez vezes mais. O desenho à medida é uma decisão de marca, e é legítima, e não é uma decisão de conversão.
Nas aplicações, com força. É a linha onde a inflação acontece sem que ninguém decida. Cada módulo parece 15€ e ao fim de um ano são 120€ por mês. A regra que funciona: instala apenas o que resolve um problema que já tiveste, nunca o que resolve um problema que imaginas vir a ter.
Na fotografia, não. É a única linha deste artigo onde poupar destrói o produto, pela razão que já vimos.
No checkout, muito menos. Cada campo desnecessário custa vendas, todos os dias, para sempre, e é matéria do abandono de carrinho, que é onde a esmagadora maioria das lojas perde mais dinheiro do que poupou em tudo o resto junto.
E há um sítio onde poupar é uma ilusão perigosa: na faturação certificada e no cumprimento legal. Não é opcional, não é negociável, e o custo de estar errado não se compara com a poupança de estar em falta.
Há uma assimetria neste tema que explica por que motivo tanta gente competente se engana. Os custos de montar uma loja são visíveis, discutem-se, pedem-se orçamentos, comparam-se propostas. Os custos de a manter são invisíveis, chegam aos poucos, cada um justificável, e nunca aparecem juntos num único documento até ao dia em que alguém soma o ano e apanha um susto. É por isso que a conversa se concentra sempre na mensalidade da plataforma, que é a coisa mais fácil de comparar e a menos importante de todas, enquanto a fotografia, os gateways de pagamento, a faturação certificada e o marketing, que são o dinheiro a sério, ficam para depois. Se levares um único cálculo deste artigo, que seja o do ponto de equilíbrio, feito com a tua margem real e com todos os custos lá dentro, incluindo o teu tempo. Vai dar-te um número de encomendas por mês, e esse número vai fazer uma de duas coisas: ou te vai parecer alcançável, e nesse caso tens um projeto, ou te vai parecer absurdo, e nesse caso acabaste de poupar alguns milhares de euros e um ano de trabalho. Ambos os resultados são bons. O mau é o terceiro, que é montar sem fazer a conta e descobri-la ao décimo mês, quando o dinheiro já foi e a loja está lá, bonita e vazia.



