Loja online: quanto custa mesmo montar e manter durante o primeiro ano

Loja online: quanto custa mesmo montar e manter durante o primeiro ano

eCommerce

Última Atualização:

Loja online: quanto custa

"Quanto custa montar uma loja online? Vi que dá para começar por 29€ por mês." Dá mesmo. Só que essa é a mensalidade da plataforma, e a plataforma é a linha mais pequena da conta. Somadas as restantes, o primeiro ano de uma loja online raramente fica abaixo dos 5.000€, e com facilidade passa dos 15.000€ consoante o catálogo, o volume e quanto do trabalho fazes tu. A diferença não está onde as pessoas esperam. O desenvolvimento é a parcela que toda a gente antecipa e orçamenta. O que estoira o orçamento são linhas pequenas e inevitáveis: comissões de pagamento a cada venda, portes, embalagem, devoluções, fotografia de produto, tráfego pago, certificação da faturação. Cada uma é justificável, nenhuma é grande, e ninguém as escreve no mesmo sítio. Este artigo escreve a conta toda, linha a linha, com os valores praticados em Portugal. Inclui as parcelas que os guias internacionais não têm, porque não se aplicam ao mercado deles: software de faturação certificado pela Autoridade Tributária, IVA e as regras de venda à distância, portes de envio para as ilhas, e os métodos de pagamento que o comprador português espera encontrar e sem os quais abandona o carrinho.

"Quanto custa montar uma loja online? Vi que dá para começar por 29€ por mês." Dá mesmo. Só que essa é a mensalidade da plataforma, e a plataforma é a linha mais pequena da conta. Somadas as restantes, o primeiro ano de uma loja online raramente fica abaixo dos 5.000€, e com facilidade passa dos 15.000€ consoante o catálogo, o volume e quanto do trabalho fazes tu. A diferença não está onde as pessoas esperam. O desenvolvimento é a parcela que toda a gente antecipa e orçamenta. O que estoira o orçamento são linhas pequenas e inevitáveis: comissões de pagamento a cada venda, portes, embalagem, devoluções, fotografia de produto, tráfego pago, certificação da faturação. Cada uma é justificável, nenhuma é grande, e ninguém as escreve no mesmo sítio. Este artigo escreve a conta toda, linha a linha, com os valores praticados em Portugal. Inclui as parcelas que os guias internacionais não têm, porque não se aplicam ao mercado deles: software de faturação certificado pela Autoridade Tributária, IVA e as regras de venda à distância, portes de envio para as ilhas, e os métodos de pagamento que o comprador português espera encontrar e sem os quais abandona o carrinho.

Cátia Sá

Cátia Sá

O erro de comparar mensalidades

O erro de comparar mensalidades

Vamos começar por onde toda a gente começa, para acabar depressa com isso.

As mensalidades das plataformas andam num intervalo que qualquer pessoa consegue pagar. Há opções portuguesas a partir de cerca de 10€ por mês. Há plataformas internacionais com planos de entrada perto dos 20€ a 30€, consoante a moeda, o plano e se pagas ao ano ou ao mês. E há o caminho de código aberto, tecnicamente gratuito, que exige alojamento entre 5€ e 30€ mensais.

Este é o número mais discutido e o menos importante de todos. A diferença entre 10€ e 30€ por mês são 240€ por ano. Vais ver, daqui a três secções, que 240€ é ruído.

Uma ressalva sobre os valores que vais encontrar por aí: as fontes divergem, e divergem porque comparam coisas diferentes. O mesmo plano de entrada de uma plataforma internacional aparece a 19€, a 27€, a 29€ e a 39 dólares em quatro sítios diferentes, e todos têm razão, porque uns citam o preço com faturação anual, outros mensal, e outros o preço americano. Confirma na fonte antes de fazeres contas, e desconfia de qualquer artigo que não diga se o preço é anual ou mensal.

O custo que só existe cá, e é o maior de todos

Aqui está a parte que nenhum guia internacional te dá, e é a que decide a economia da tua loja.

O mercado português paga de forma diferente. Segundo dados da SIBS, o MB WAY representa cerca de 45% das transações de eCommerce em Portugal, o que faz dele a carteira digital líder do mercado. A tendência é sustentada pelos números oficiais: o Banco de Portugal, no Relatório dos Sistemas de Pagamentos, regista um crescimento de 46,4% em quantidade nas transferências imediatas, categoria onde o MB WAY se insere. E se juntares as referências Multibanco, que continuam a ser a forma preferida de muita gente pagar online, percebes que uma loja portuguesa sem estes métodos está a recusar a maioria dos seus clientes.

Isto não é uma preferência estética. É estrutural, e cria um problema que só existe aqui.

Nenhuma plataforma internacional traz MB WAY e Multibanco de origem. Para os teres, precisas de um gateway português, tipicamente ifthenpay, Eupago ou Easypay. Isso é um contrato à parte, uma integração à parte, e uma comissão à parte.

E há uma consequência de custo que muda a conta. A maioria das plataformas cobra uma taxa de transação adicional a quem processa pagamentos através de terceiros: na Shopify, entre 0,5% e 2% consoante o plano, somada à comissão que o gateway português já cobra. Ou seja, as encomendas pagas por MB WAY ou Multibanco custam-te duas comissões, não uma.

Faz a conta com o teu volume, porque a diferença não é simbólica: numa loja com 100.000€ de vendas anuais, 1% adicional são 1.000€ por ano só em taxa de plataforma, além do que pagas ao gateway. A saída habitual é usar o sistema de pagamentos nativo da plataforma para cartão, evitando aí a taxa extra, e reservar o gateway português para MB WAY e Multibanco, limitando a dupla comissão a esse subconjunto de encomendas.

O gateway tem dois tipos de custo, e convém separá-los. A comissão por transação é o custo recorrente e é o que pesa: consulta as tabelas públicas da ifthenpay, da Easypay e do Eupago, porque variam por método de pagamento e por volume, e a diferença entre elas é material quando escalas. O eventual custo de ativação varia com o fornecedor, havendo quem não cobre nada e viva apenas da comissão. E há um detalhe de calendário que apanha quem marcou o lançamento sem contar com ele: a abertura da conta exige validação da empresa e demora dias, não minutos. Trata isso como uma tarefa a iniciar semanas antes do lançamento, e não na véspera.

A obrigação que não é opcional

A obrigação que não é opcional

A segunda coisa que só existe cá, e que apanha toda a gente que copia um plano de negócios de fora.

Em Portugal, se emites faturas através de um programa informático, ele tem de ser certificado pela Autoridade Tributária. Não é boa prática, é lei, e numa loja online não há alternativa realista: a faturação manual no Portal das Finanças deixa de ser gerível às primeiras dezenas de encomendas. A faturação nativa das plataformas internacionais não serve, porque os documentos que elas emitem não são certificados cá.

A boa notícia é que esta linha é mais barata do que se pensa. A subscrição de um programa certificado começa nos 5€ a 10€ por mês para volumes baixos, havendo soluções de pagamento por documento emitido, sem mensalidade fixa. E a integração com a loja, ao contrário do que muita gente orçamenta, não costuma exigir desenvolvimento à medida: os principais programas portugueses disponibilizam plugins nativos para WooCommerce e Shopify, vários deles gratuitos, e os pagos andam nas dezenas de euros por ano. Só precisas de desenvolvimento à medida se tiveres um ERP, um CRM ou um fluxo pouco comum, e aí sim os valores sobem para as centenas.

E há uma armadilha nesta linha que vejo repetir-se. Muita gente monta a loja, lança, começa a vender, e emite as faturas à mão no programa de faturação enquanto "não arranja tempo" para a integração. Nas primeiras dez encomendas é gerível. Às cinquenta, é uma pessoa a tempo parcial a copiar dados entre dois sistemas, com os erros que isso traz. A integração parece um custo adiável e é a que mais depressa se paga sozinha.

A linha que ninguém orçamenta e que é a maior

Agora a parcela que, em quase todas as lojas que vejo, ultrapassa o desenvolvimento inteiro.

Fotografia de produto. Um catálogo de cinquenta produtos pode custar entre 500€ e 2.000€ para fotografar em condições. E não é um custo de arranque, é recorrente: cada produto novo precisa de fotografia, e o teu catálogo não vai ficar parado.

Sei o que estás a pensar, porque é o que toda a gente pensa: tiro eu com o telemóvel. Podes. E vais descobrir uma coisa que nenhuma folha de cálculo prevê, que é que a fotografia é a única coisa que o cliente tem para avaliar o produto. Não pode tocar, não pode ver ao vivo, não pode experimentar. Numa loja física, a fotografia é publicidade. Numa loja online, a fotografia é o produto. Poupar aqui não é poupar num custo, é degradar aquilo que estás a vender, e o efeito aparece na conversão sem que ninguém consiga apontar a causa. É a razão pela qual a fotografia de produto merece tratamento próprio e não uma linha no fim do orçamento.

O mesmo vale para os textos. Descrições, especificações, respostas às perguntas que o cliente faria a um vendedor se houvesse um. Cinquenta fichas de produto bem escritas são semanas de trabalho de alguém, e esse alguém custa dinheiro, mesmo que sejas tu, porque o teu tempo é o recurso mais caro que tens.

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A conta do primeiro ano

A conta do primeiro ano

Vale a pena juntar tudo. Uso valores de arranque conservadores, para uma loja pequena com cerca de cinquenta produtos, montada por alguém competente e sem luxos:

Arranque

Estimativa

Desenvolvimento e configuração

1.500€ a 3.000€

Fotografia de 50 produtos

500€ a 2.000€

Textos e fichas de produto

300€ a 1.500€

Integração de faturação certificada

0€ a 100€

Integração com transportadoras

200€ a 600€

Domínio e configuração inicial

20€ a 50€

Total de arranque

2.500€ a 7.250€

E depois o que corre todos os meses:

Mensal

Estimativa

Plataforma ou alojamento

10€ a 50€

Faturação certificada

5€ a 20€

Módulos e aplicações

20€ a 80€

Manutenção e atualizações

30€ a 100€

Subtotal fixo

65€ a 250€

Olha para a última linha e compara-a com os 29€ da conversa inicial. E repara no que ainda não está lá: comissões de transação, portes, embalagem, devoluções, e a linha que decide se a loja existe ou não, que é o marketing.

A parte variável, que é onde a margem mora

As linhas fixas assustam e não são as que matam. As variáveis são.

Comissões de pagamento. Cada venda paga uma percentagem, tipicamente entre 1% e 3%, mais um valor fixo por operação. Para cartões emitidos no Espaço Económico Europeu, os processadores internacionais andam à volta de 1,5% mais 25 cêntimos, com variações consoante o plano e a origem do cartão. O MB WAY e as referências Multibanco têm comissões próprias, cobradas pelo gateway português. E se optares por esse gateway em vez do sistema de pagamentos nativo da plataforma, junta ainda a taxa de transação que ela cobra a quem processa por terceiros.

Portes de envio. É, na maioria das lojas físicas de produto, o fator que decide a rentabilidade. E há uma decisão que toda a gente toma sem fazer as contas: os portes grátis. Aumentam a conversão de forma real e mensurável, e ou saem da tua margem ou estão no preço. Não há terceira opção, e quem os oferece sem os pôr no preço está a subsidiar cada venda, uma matéria que atravessa toda a logística de envios.

Devoluções. Existem, são um direito, e custam duas vezes: o custo de retorno e o produto que volta em condições de revenda ou não volta. Uma loja de vestuário com taxas de devolução altas tem uma economia completamente diferente de uma loja de consumíveis, e a política que escolhes é uma decisão financeira antes de ser de serviço.

Embalagem. Parece pequeno e não é, sobretudo em produtos frágeis ou volumosos, onde a caixa e o enchimento podem ser uma fração relevante do valor.

Todas estas linhas se comportam da mesma maneira: crescem exatamente ao ritmo das tuas vendas. Não se diluem. É por isso que uma loja pode duplicar a faturação e não melhorar nada, e a razão está numa conta que ninguém fez ao início, que é a margem líquida por encomenda depois de tudo, e é o que a estratégia de preços em eCommerce existe para resolver.

O custo que representa metade do orçamento e que ninguém mete no orçamento

O custo que representa metade do orçamento e que ninguém mete no orçamento

Chegamos à linha maior de todas e à que quase nunca aparece nas contas de quem está a orçamentar uma loja.

Uma loja online sem tráfego é um armazém sem porta. Não tem montra, não tem passagem de pé, não tem ninguém a entrar por engano. Se não trouxeres pessoas, não entra ninguém, e essa é a diferença estrutural entre comércio físico e digital que toda a gente sabe e ninguém orçamenta.

Não há uma percentagem universal, mas há uma verdade incómoda: o marketing é, na maioria das lojas em arranque, a maior linha de custo do primeiro ano, várias vezes superior a tudo o que somámos acima. Faz a conta ao contrário, a partir do que precisas de vender: se prevês faturar 5.000€ por mês e o teu custo de aquisição por cliente for de 15€, com um ticket médio de 50€ precisas de 100 encomendas e de 1.500€ de investimento em tráfego. É esse o número que devia entrar no orçamento, e não uma percentagem copiada de um artigo.

E é aqui que a maioria dos projetos morre, e morre de uma forma específica e evitável. Gasta-se o orçamento inteiro a construir, lança-se com a loja perfeita, e não sobra dinheiro para trazer ninguém. A loja fica pronta e vazia, e a conclusão que se tira é que o eCommerce não funciona. Funciona. O que não funciona é gastar 100% do dinheiro na parte que não vende.

A decisão sobre onde investir esse dinheiro e por que ordem é outra conversa e tem regras próprias, e é a diferença entre comprar tráfego para descobrir se a oferta interessa e comprar tráfego para escalar uma coisa que já sabes que funciona. O contexto geral está no artigo sobre vendas online.

O ponto de equilíbrio, e é a única conta que interessa

Com os números na mesa, a pergunta certa deixa de ser quanto custa e passa a ser quantas encomendas por mês é que isto exige para não perder dinheiro.

A conta é simples e quase ninguém a faz antes de começar. Pegas nos custos fixos mensais, incluindo o marketing. Divides pela margem líquida de uma encomenda média, ou seja, o que sobra depois do custo do produto, da comissão de pagamento, dos portes e da embalagem. O resultado é o número de encomendas de que precisas.

Faz o exercício com números redondos. Se tens 800€ de custos fixos por mês e sobram 20€ por encomenda depois de tudo, precisas de 40 encomendas mensais só para empatar. Mais de uma por dia, todos os dias, incluindo domingos e agosto.

Esse é o número que devia estar na primeira página do teu plano, e é o que transforma a discussão sobre a mensalidade da plataforma no ruído que ela é. Vinte euros de diferença na plataforma são uma encomenda por mês. Cinco euros de margem a mais por encomenda baixam o teu ponto de equilíbrio de 40 para 32 encomendas, ou seja, menos oito vendas por mês para chegar ao mesmo sítio. É aí que o esforço rende, e é a razão pela qual a mecânica do ponto de equilíbrio vale mais do que qualquer comparação de planos.

O passo seguinte, que quase ninguém dá

Tens 40 encomendas por mês como objetivo. Agora responde a esta: quantas visitas é que isso exige?

É aqui que a conta deixa de ser sobre custos e passa a ser sobre realidade. A taxa de conversão média no eCommerce europeu andou pelos 1,8% num levantamento recente, e a análise que a Littledata fez a lojas Shopify, citada pela própria plataforma, aponta para uma média de 1,4%, com 3,2% a colocar-te no melhor quinto das lojas e 4,7% no melhor décimo.

Faz a divisão. Quarenta encomendas a uma conversão de 1,5% exigem cerca de 2.700 visitas por mês. Todos os meses. Noventa por dia.

Volta agora à linha do marketing e percebe porque é que ela é a maior de todas. Noventa visitas por dia não aparecem sozinhas num site que ninguém conhece. Ou as compras, e a conta muda com o teu custo por clique, ou as constróis, e isso demora anos.

Este é o cálculo que separa um plano de uma fantasia, e demora dois minutos. A maior parte das pessoas que monta uma loja nunca o fez, e é por isso que "afinal ninguém entra no site" é a frase mais comum do sexto mês.

Nota que estes são valores médios de mercados maiores e que a tua taxa depende do teu produto, do teu preço e da qualidade da loja. Usa 1,5% para fazer a conta e assume que vais estar abaixo nos primeiros meses, porque toda a gente está.

O dado português que muda a tua decisão de preço

Há um número específico do mercado nacional que devia estar em qualquer conversa sobre custos, e vem do CTT E-Commerce Report, o estudo anual de referência do setor em Portugal.

66,3% dos clientes abandonam o carrinho porque o preço final é mais alto do que esperavam. Dois em cada três. Não é o preço, é a surpresa do preço final, e a surpresa chama-se quase sempre portes de envio. Os outros motivos ficam muito atrás: problemas técnicos com 22,4%, prazo de entrega longo com 19,6%, e desconfiança nos pagamentos com 16,9%.

Percebe o que isto faz à tua conta. Se a maioria dos abandonos vem de o cliente descobrir os custos de envio no fim, então a decisão sobre portes de envio não é uma linha de custo, é a variável que mais mexe na tua conversão. E a conversão é o divisor da conta anterior: melhorar de 1,5% para 2% corta em 25% o tráfego de que precisas, o que vale mais do que qualquer poupança em todas as linhas fixas deste artigo somadas.

O mesmo estudo aponta para um gasto médio anual de 1.319€ por comprador, um valor médio por compra de 55,9€, e para 5,5 milhões de portugueses a comprar online num mercado que vale 12,9 mil milhões de euros e cresceu 6,7%. O mercado existe. O que não existe é a versão em que se monta a loja e ele aparece sozinho.

Este raciocínio, o de olhar para uma loja como um sistema económico em vez de um projeto técnico, é exatamente o trabalho que a imersão CHECKMATE: eCommerce faz com quem já vende online e descobriu que faturar não é o mesmo que ganhar.

O custo que não tem fatura

Falta a parcela mais cara de todas e a que não aparece em orçamento nenhum: o teu tempo.

Uma loja online não é um ativo passivo. É uma operação. Todos os dias há encomendas para processar, perguntas para responder, stock para atualizar, devoluções para tratar, e problemas para resolver. E o trabalho não é proporcional às vendas: mesmo com as 40 encomendas mensais do exemplo anterior, a loja exige presença diária, porque quem compra à quinta à noite espera resposta à sexta de manhã.

A conta que ninguém faz é esta: duas horas por dia, todos os dias, a 20€ por hora, são 1.200€ por mês que não estão em fatura nenhuma. Mesmo contando apenas dias úteis, são 880€. Em qualquer dos casos, é várias vezes mais do que todos os custos fixos que somámos.

Vale a pena separar duas coisas que se confundem. Há o tempo de operar, que baixa com volume porque se cria rotina e se automatiza. E há o tempo de resolver, que sobe com volume, porque mais encomendas significam mais exceções, mais devoluções e mais clientes com problemas. Quem assume que o segundo se dilui está a projetar uma economia que não existe: a partir de determinado ponto, ou contratas ou paras de crescer, e essa contratação nunca está no plano do primeiro ano.

E há o custo de aprendizagem, que existe e não se orçamenta. Os primeiros meses são de erros: a configuração fiscal que ficou mal, o envio que foi para a morada errada, o preço que estava sem IVA. Cada um custa dinheiro ou custa um cliente, e nenhum aparece numa folha de cálculo de arranque.

A pergunta honesta antes de montares uma loja não é se consegues pagar a mensalidade. É se tens duas horas por dia, todos os dias, para sempre. Se a resposta for não, e não sabes quem as vai ter, acabaste de descobrir uma coisa importante antes de gastar nada.

Quando não vale a pena montar loja

Convém dizer isto num artigo sobre custos de lojas, porque é a resposta certa mais vezes do que a indústria admite.

Se vendes três referências, não precisas de uma loja completa com plataforma, tema, aplicações e gateway. Uma página de venda simples faz o mesmo trabalho e configura-se numa tarde. Montar a infraestrutura de uma loja para vender três produtos é comprar um camião para transportar uma mala.

Se ainda não sabes se alguém compra o que vendes, uma loja é a forma mais cara possível de descobrir. Vende primeiro à mão, por mensagem, por telefone, por transferência. É deselegante, custa zero, e responde à única pergunta que interessa.

E se o teu produto vive num mercado onde as pessoas já procuram, pode fazer mais sentido começar por lá e ter loja depois. É uma decisão com economia própria e está tratada na comparação entre marketplace e loja própria.

A loja não é o começo do negócio, é a formalização de um negócio que já existe. Quem monta primeiro e procura clientes depois tem uma loja. Quem tem clientes e monta a loja para os servir melhor tem um negócio.

O que fazer com estes números

Antes de decidires seja o que for, faz três coisas que cabem numa tarde e que valem mais do que qualquer orçamento de agência.

Escreve a tua conta, com as tuas linhas, na estrutura deste artigo. Não copies os intervalos, que são estimativas construídas a partir de fontes que consultei e que variam com o teu caso. Pede preços reais para as três maiores: desenvolvimento, fotografia e integrações.

Depois calcula o ponto de equilíbrio, com a tua margem real por encomenda. Se o número te parecer confortável, refaz a conta com metade das vendas que estimaste, porque a tua estimativa está otimista, como todas as estimativas de quem está entusiasmado.

E, finalmente, decide onde vais buscar as pessoas antes de decidires a plataforma. É a inversão que quase ninguém faz e é a única que importa: a plataforma é uma decisão de dez minutos se souberes de onde vêm os clientes, e é uma decisão de três semanas se não souberes, porque na ausência de resposta à pergunta que interessa, o cérebro agarra-se à pergunta que tem resposta.

Quando pedires orçamentos, vais receber propostas que diferem em dez vezes, e a diferença raramente é qualidade: é perímetro. Uns contam só a infraestrutura, outros incluem fotografia, textos, integrações, marketing e horas de acompanhamento. Antes de comparares preços, exige que cada proposta diga o que inclui, o que fica de fora, e o que passa a custar depois da entrega. A pergunta que separa propostas não é quanto custa, é o que está lá dentro e quem paga o que faltar.

Os três caminhos, e o que cada um esconde

Vale a pena arrumar as opções por economia em vez de por marca, porque cada uma esconde o custo num sítio diferente.

A plataforma alojada. Pagas mensalidade e alguém trata do servidor, da segurança e das atualizações. O Shopify é o exemplo mais conhecido e o que mais recomendo. O custo esconde-se em dois sítios: nas aplicações, que somam sem que ninguém decida somar, e nas comissões de transação, que doem se optares por um gateway português para MB WAY e Multibanco, porque aí acumulas a taxa da plataforma com a do gateway. É a escolha de quem quer vender e não quer gerir infraestrutura.

O código aberto. O WooCommerce sobre WordPress é o caso dominante, e não cobra comissão por venda. O custo esconde-se no que tens de montar e manter: alojamento, segurança, atualizações, e alguém que resolva quando dá problemas. É frequentemente apresentado como a opção barata e é a opção que troca dinheiro por trabalho. Se o trabalho é teu e o teu tempo vale alguma coisa, a poupança é menor do que parece.

As plataformas portuguesas. Começam mais baratas do que as internacionais e trazem de origem aquilo que as outras te obrigam a integrar: MB WAY, Multibanco, transportadoras nacionais, faturação certificada e suporte em português europeu. O custo esconde-se noutro sítio: ecossistema mais pequeno, menos temas e integrações, menos programadores no mercado que as conheçam, e maior dependência de um fornecedor único.

Repara no que isto faz à comparação. Uma plataforma internacional a 19€ que te obriga a integrar gateway, faturação e transportadora pode acabar mais cara e mais demorada do que uma nacional a 30€ que já traz tudo. A mensalidade compara-se em segundos e a integração paga-se durante meses, e é por isso que a comparação de mensalidades engana tanto.

O segundo ano, que ninguém orçamenta

Este artigo prometeu o primeiro ano e vale a pena olhar para o seguinte, porque é onde a conta muda de forma.

O arranque acaba. Aquelas linhas grandes, o desenvolvimento, a fotografia inicial, as integrações, não voltam. Uma pessoa desatenta conclui que o segundo ano é mais barato.

Não é, e por três razões.

  • O catálogo cresce. Cada produto novo é fotografia nova, texto novo, e configuração nova. Se lanças 30 referências no segundo ano, tens outra vez a linha da fotografia, só que agora ninguém a orçamentou porque "isso foi no arranque".

  • A dívida técnica chega. O template desatualiza-se, os módulos param de ser mantidos, a plataforma muda de versão. Ao fim de dois anos há sempre uma conta de manutenção que ninguém previu, e ela é maior do que a soma de todas as mensalidades do ano.

  • O marketing sobe em vez de descer. É o oposto do que toda a gente assume. Assume-se que a marca ganha tração e a aquisição fica mais barata. Às vezes acontece. O que acontece mais vezes é o leilão ficar mais caro à medida que mais gente entra na tua categoria, e o teu custo por cliente subir enquanto tu não mudaste nada. É preciso pensar entre tráfego orgânico versus tráfego pago.

A conta honesta de um projeto de comércio eletrónico não é a do primeiro ano, é a dos três primeiros, e quase toda a gente decide com base numa folha que acaba em dezembro do primeiro.

Onde se poupa sem estragar

Depois de tudo isto, a pergunta legítima: onde é que se corta sem destruir?

Na plataforma, sim. É a linha onde a diferença de preço tem menos efeito no resultado. Começar numa opção mais barata e mudar depois custa, mas custa menos do que sobre-investir agora numa infraestrutura para um volume que ainda não tens.

No template, sim. Um template comprado e bem configurado faz, para a esmagadora maioria das lojas, o mesmo trabalho que um desenho à medida que custa dez vezes mais. O desenho à medida é uma decisão de marca, e é legítima, e não é uma decisão de conversão.

Nas aplicações, com força. É a linha onde a inflação acontece sem que ninguém decida. Cada módulo parece 15€ e ao fim de um ano são 120€ por mês. A regra que funciona: instala apenas o que resolve um problema que já tiveste, nunca o que resolve um problema que imaginas vir a ter.

Na fotografia, não. É a única linha deste artigo onde poupar destrói o produto, pela razão que já vimos.

No checkout, muito menos. Cada campo desnecessário custa vendas, todos os dias, para sempre, e é matéria do abandono de carrinho, que é onde a esmagadora maioria das lojas perde mais dinheiro do que poupou em tudo o resto junto.

E há um sítio onde poupar é uma ilusão perigosa: na faturação certificada e no cumprimento legal. Não é opcional, não é negociável, e o custo de estar errado não se compara com a poupança de estar em falta.

Conclusão

Conclusão

Há uma assimetria neste tema que explica por que motivo tanta gente competente se engana. Os custos de montar uma loja são visíveis, discutem-se, pedem-se orçamentos, comparam-se propostas. Os custos de a manter são invisíveis, chegam aos poucos, cada um justificável, e nunca aparecem juntos num único documento até ao dia em que alguém soma o ano e apanha um susto. É por isso que a conversa se concentra sempre na mensalidade da plataforma, que é a coisa mais fácil de comparar e a menos importante de todas, enquanto a fotografia, os gateways de pagamento, a faturação certificada e o marketing, que são o dinheiro a sério, ficam para depois. Se levares um único cálculo deste artigo, que seja o do ponto de equilíbrio, feito com a tua margem real e com todos os custos lá dentro, incluindo o teu tempo. Vai dar-te um número de encomendas por mês, e esse número vai fazer uma de duas coisas: ou te vai parecer alcançável, e nesse caso tens um projeto, ou te vai parecer absurdo, e nesse caso acabaste de poupar alguns milhares de euros e um ano de trabalho. Ambos os resultados são bons. O mau é o terceiro, que é montar sem fazer a conta e descobri-la ao décimo mês, quando o dinheiro já foi e a loja está lá, bonita e vazia.

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