Custo real de um colaborador: a conta que a folha de salários não mostra

Custo real de um colaborador: a conta que a folha de salários não mostra

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Custo real de um colaborador

Faz esta pergunta a dez empresários e vais ter dez respostas erradas. "Quanto te custa aquele colaborador que ganha 1.000€?" Uns dizem 1.000€, e esses estão a olhar para o contrato. Outros, mais atentos, dizem 1.237€, porque se lembram da Taxa Social Única. E os mais informados dizem 1.450€, porque somam os subsídios. Nenhum deles chega perto do número certo, e a razão não tem nada que ver com contabilidade. A razão é que todos eles estão a responder à pergunta errada. Estão a calcular quanto custa ter a pessoa. E o número que decide se o teu negócio ganha dinheiro é outro: quanto custa cada hora em que ela está a trabalhar. Entre os dois há uma distância que a esmagadora maioria das PME nunca mediu, e é essa distância que explica por que motivo tantas empresas de serviços têm equipas ocupadas, faturação a crescer, e margem a desaparecer. Este artigo faz essa conta, encargo a encargo. Adianto o resultado, para não te fazer esperar por ele: um colaborador custa à empresa entre 30% e 40% mais do que o salário bruto que lhe pagas, e a diferença não está escondida em nada de exótico, está em rubricas que qualquer folha de salários mostra e que quase ninguém soma. Fica também um aviso: se leste algures que tens de contar com o Fundo de Compensação do Trabalho, esse encargo deixou de existir e continua a aparecer em contas feitas com informação velha.

Faz esta pergunta a dez empresários e vais ter dez respostas erradas. "Quanto te custa aquele colaborador que ganha 1.000€?" Uns dizem 1.000€, e esses estão a olhar para o contrato. Outros, mais atentos, dizem 1.237€, porque se lembram da Taxa Social Única. E os mais informados dizem 1.450€, porque somam os subsídios. Nenhum deles chega perto do número certo, e a razão não tem nada que ver com contabilidade. A razão é que todos eles estão a responder à pergunta errada. Estão a calcular quanto custa ter a pessoa. E o número que decide se o teu negócio ganha dinheiro é outro: quanto custa cada hora em que ela está a trabalhar. Entre os dois há uma distância que a esmagadora maioria das PME nunca mediu, e é essa distância que explica por que motivo tantas empresas de serviços têm equipas ocupadas, faturação a crescer, e margem a desaparecer. Este artigo faz essa conta, encargo a encargo. Adianto o resultado, para não te fazer esperar por ele: um colaborador custa à empresa entre 30% e 40% mais do que o salário bruto que lhe pagas, e a diferença não está escondida em nada de exótico, está em rubricas que qualquer folha de salários mostra e que quase ninguém soma. Fica também um aviso: se leste algures que tens de contar com o Fundo de Compensação do Trabalho, esse encargo deixou de existir e continua a aparecer em contas feitas com informação velha.

Rafael Parreira

Rafael Parreira

A conta que quase toda a gente faz

A conta que quase toda a gente faz

Comecemos pelo território conhecido, porque é o alicerce.

O salário paga-se 14 vezes por ano, com o subsídio de férias e o de Natal. Isto não é um extra, é a base, e a primeira correção é dividir por 12 para obter o custo médio mensal real. Um salário de 1.000€ custa-te, só nesta parcela, 1.166,67€ por mês, e não 1.000€.

Depois vem a Taxa Social Única. Segundo o Guia da PwC, a taxa contributiva geral é de 34,75%, repartida em 23,75% a cargo da entidade empregadora e 11% a cargo do trabalhador. E aqui há um ponto que gera confusão permanente: os 11% não são um custo teu, são um desconto no salário dele. O teu custo são os 23,75%, e eles incidem sobre a remuneração relevante, o que inclui os subsídios de férias e de Natal.

Sobre 14.000€ anuais, isso dá 3.325€ por ano, ou 277,08€ por mês.

Depois vem o seguro de acidentes de trabalho, que é obrigatório para todas as empresas sem exceção, independentemente da dimensão ou do número de trabalhadores. O prémio varia com a atividade e com o histórico de sinistralidade, e a ordem de grandeza que costuma usar-se para trabalho de escritório é de cerca de 1% da massa salarial. Num escritório é isso. Numa obra é várias vezes mais, e quem tem atividade de risco sabe que este número não é um detalhe.

Somado: cerca de 1.455€ por mês para um salário de 1.000€. Um multiplicador de quase 1,46 antes de qualquer regalia. É onde a maioria das pessoas para de contar, e é precisamente onde a conta começa a ficar interessante.

O 1% que saiu da conta, e o dinheiro que ficou lá

Durante dez anos, a conta do custo de um trabalhador incluiu 1% para o Fundo de Compensação do Trabalho e para o Fundo de Garantia de Compensação do Trabalho. Esse 1% já não se paga. O Decreto-Lei n.º 115/2023, de 15 de dezembro, cessou definitivamente a obrigação de entregas para o FCT e extinguiu as dívidas dos empregadores ao fundo, e suspendeu as entregas para o FGCT. Na prática, as contribuições estavam suspensas desde maio de 2023 e deixaram de ser exigíveis a partir de 1 de janeiro de 2024.

Isto tem duas consequências para ti, e ambas valem dinheiro.

A primeira é imediata: o capital que entregaste ao FCT entre 2013 e 2023 é reembolsável, mediante pedido no site oficial dos Fundos de Compensação, e o prazo para o solicitar termina a 31 de dezembro de 2026. Se contrataste alguém nesse período, tens saldo lá dentro. Passado o prazo, o remanescente é integrado no FGCT e deixa de ser teu.

A segunda é permanente: confirma que as folhas de cálculo com que orçamentas contratações já não somam aquele 1%. Uma folha herdada que ainda o inclua inflaciona o custo previsto de cada contratação e leva-te a recusar admissões que compensavam.

O subsídio de refeição, e a escolha que muita gente faz sem pensar

O subsídio de refeição, e a escolha que muita gente faz sem pensar

Não é obrigatório por lei no setor privado, ao contrário do que muita gente julga. É obrigatório na administração pública, e no privado tornou-se prática comum, muitas vezes fixada em contrato ou em convenção coletiva. Se está no contrato ou na convenção que te aplica, é obrigatório para ti.

O que interessa aqui é a decisão de formato, porque tem consequências fiscais diretas e a maioria dos empresários escolhe por hábito.

Pago em dinheiro, o limite de isenção é mais baixo. Pago em cartão ou vale de refeição, o limite é substancialmente mais alto. A diferença não é cosmética: acima do limite de isenção, o valor passa a estar sujeito a IRS e a contribuições, o que significa que estás a pagar imposto sobre um benefício que querias dar.

Os limites estão fixados pela Portaria n.º 51-B/2026/1, de 30 de janeiro, com efeitos a 1 de janeiro de 2026: 6,15€ por dia em dinheiro e 10,46€ por dia em cartão ou vale de refeição. A diferença não é arbitrária, resulta de uma regra do Código do IRS que majora em 70% o limite quando o subsídio é pago em vales, e é por isso que o teto do cartão sobe automaticamente sempre que o valor da função pública é atualizado. Se ainda tens 6,00€ e 10,20€ nas tuas contas, são os valores de 2025.

Traduzido em euros: podes dar mais 4,31€ por dia a cada colaborador, cerca de 950€ por ano, sem qualquer custo fiscal adicional para ti nem desconto para ele, apenas por mudar o formato. Acima destes limites, o excedente é tributado em IRS e sujeito a TSU dos dois lados.

O que não muda é a lógica, e é ela que devias reter: o cartão permite-te dar mais valor ao colaborador pelo mesmo custo fiscal, e a escolha do dinheiro é quase sempre inércia e não decisão. Há uma contrapartida honesta que convém dizer: o cartão tem custos de emissão e gestão que o dinheiro não tem, e há colaboradores que preferem liquidez a benefício. É uma conversa que se tem com eles, e não uma imposição que se justifica com poupança fiscal.

Agora a conta que ninguém faz

Chegámos ao ponto do artigo.

Tens um colaborador que te custa cerca de 1.455€ por mês, ou 17.465€ por ano, mais o subsídio de refeição. Digamos, com números redondos e conservadores, cerca de 20.000€ por ano.

Agora responde a esta pergunta: quantas horas é que ele trabalha?

A resposta intuitiva é 40 horas por semana, 160 horas por mês, 1.920 horas por ano. E está errada, porque tu pagas o ano inteiro e ele não trabalha o ano inteiro.

Faz a conta a sério. O ano tem 365 dias. Tira os fins de semana, que são cerca de 104. Tira as férias, que são 22 dias úteis. Tira os feriados, que rondam os 13. Sobram cerca de 226 dias úteis efetivos, o que a 8 horas dá 1.808 horas por ano.

Divide: 20.000€ por 1.808 horas dá cerca de 11€ por hora.

Compara com a conta ingénua que quase toda a gente faz de cabeça: 1.000€ a dividir por 160 horas dá 6,25€ por hora. A diferença é de 77%. Quem faz preços com base nos 6,25€ está a vender abaixo do custo e a estranhar que não sobre nada.

E ainda nem chegámos ao mais desconfortável.

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As horas que pagas e que não produzem nada

As horas que pagas e que não produzem nada

Aquelas 1.808 horas são as horas em que ele está lá. Não são as horas em que ele está a produzir alguma coisa que tu possas faturar.

Descontar o quê? Formação, que é obrigatória e são 40 horas por ano de direito a formação contínua. Baixas médicas, que existem e que numa média histórica normal consomem alguns dias. Reuniões internas, que não são desperdício e não são faturáveis. Tempo administrativo. Tempo de espera entre tarefas. Formação de novos colegas. Aquele bocado do dia em que ninguém consegue ser produtivo.

Não te vou dar uma percentagem de utilização como se fosse lei, porque ela depende do teu negócio: uma equipa de produção industrial não se parece com uma equipa de consultoria. O que te dou é o método. Mede quantas horas do ano passado foram efetivamente faturáveis ou produtivas, divide pelas horas pagas, e usa esse rácio. Se nunca mediste, começa por 75% como hipótese de trabalho e corrige-a com os teus próprios dados: aplicado às 1.808 horas, dá 1.356 horas produtivas, e é sobre esse número que a conta seguinte se faz.

Refaz a divisão: 20.000€ por 1.356 horas dá quase 15€ por hora produtiva.

Contra os 6,25€ da conta de cabeça. Mais do dobro.

Este é o número que devia estar na tua folha de cálculo de preços, e é o número que quase nenhuma PME portuguesa conhece. Não é pessimismo, é aritmética, e é exatamente o mesmo cálculo que separa uma empresa de serviços rentável de uma empresa de serviços ocupada, um tema que se cruza com toda a lógica de precificação e com o cálculo honesto da margem.

Os custos que não aparecem em fatura nenhuma

Somámos o que se paga. Falta o que se gasta e que ninguém regista como custo de pessoal:

  • O espaço. Secretária, cadeira, metros quadrados, luz, água, limpeza. Numa empresa com escritório, isto é dinheiro real por cabeça e ninguém o imputa a ninguém.

  • O equipamento. Computador, telemóvel, licenças de software, ferramentas. E não é uma vez, é um ciclo de substituição.

  • A medicina do trabalho. Obrigatória, com periodicidade definida, e tratada como formalidade até ao dia em que a ACT pergunta.

  • O tempo de quem gere. Cada pessoa consome atenção de um chefe. Se um gestor que custa 3.000€ passa 20% do tempo com quatro pessoas, são 150€ por mês por cabeça que ninguém contabiliza.

  • A rampa de produtividade. Um colaborador novo custa desde o dia um e produz a partir do mês três, ou do sexto. Esse buraco é um investimento e comporta-se como um custo.

  • O risco. Uma indemnização, um litígio, uma inspeção. Não acontece todos os anos e acontece.

Somados, estes acrescentam facilmente 20% a 30% ao custo direto em atividades de escritório, e mais em atividades com equipamento pesado. O que significa que aquele colaborador de 1.000€ pode andar perto dos 25.000€ por ano de custo total para a empresa, com o número da folha de salários a dizer 14.000€.

Vale a pena parar num deles, porque é o mais invisível de todos e o mais caro em empresas pequenas: o tempo de quem gere. Numa empresa de dez pessoas, quem gere é o dono. E o tempo do dono não aparece em folha nenhuma, o que cria a ilusão de que é gratuito. Não é. É o recurso mais escasso que a empresa tem, e cada pessoa contratada consome uma fatia dele que deixa de estar disponível para vender, para negociar ou para pensar. É a razão pela qual empresas crescem de cinco para doze pessoas e o dono descobre, ao fim de um ano, que trabalha mais e ganha o mesmo. Não é má sorte, é o custo de gestão a aparecer numa linha que ninguém abriu.

E há um custo que só existe em empresas pequenas e que ninguém nomeia: o custo de errar. Uma empresa de duzentas pessoas absorve uma contratação má sem dar por isso. Uma de oito não. Naquela escala, uma pessoa errada não é um oitavo do problema, é uma fração muito maior, porque contamina o ambiente, ocupa a atenção de quem manda, e faz sair quem é bom. Nenhuma folha de cálculo captura isto, e é frequentemente o mais caro de tudo o que este artigo enumera.

O erro de comparar com um prestador de serviços

O erro de comparar com um prestador de serviços

Este é o cálculo que mais vezes vejo feito ao contrário, e custa decisões estruturais.

Alguém que ganha 1.000€ recebe uma proposta para fazer o mesmo trabalho a recibo verde por 1.500€ e acha que a empresa está a ser generosa. E alguém do outro lado da mesa acha que está a poupar 500€. Ambos estão a comparar números que não são comparáveis.

Do teu lado, o colaborador de 1.000€ custa-te, como já vimos, perto de 1.455€ por mês só em encargos diretos. O prestador de 1.500€ custa-te 1.500€. A poupança não é de 500€, é de 45€ mais tudo o que deixas de suportar em férias pagas, subsídios, seguro e responsabilidade.

Mas há a outra coluna, e ninguém a preenche. O prestador não te dá exclusividade, não te dá disponibilidade garantida, não fica sujeito ao teu poder de direção, e se ficar, a lei permite reclassificar a relação anos depois com contribuições retroativas e coima. E se ele te sair, leva o conhecimento.

A comparação honesta não é entre 1.455€ e 1.500€, é entre dois modelos de operação com riscos diferentes, e é o terreno da decisão entre outsourcing e contratação direta. Fazer a conta na mesma base é o mínimo, e para isso serve o simulador de salário líquido quando mostra o custo do empregador em vez do valor da folha.

O que reduz o custo de forma legítima

Antes que alguém conclua que contratar é impossível, há mecanismos previstos na lei que quase ninguém usa por desconhecimento.

A PwC identifica um dos mais relevantes no seu guia: existe uma redução temporária de 50% da taxa contributiva da responsabilidade da entidade empregadora na contratação de jovens à procura do primeiro emprego, durante cinco anos, e por três anos na contratação de desempregados de longa duração, mediante o cumprimento de determinados requisitos e condições.

Lê outra vez, porque é enorme. Metade da TSU patronal durante cinco anos. Num salário de 1.000€, são cerca de 1.660€ por ano poupados, durante cinco anos, ou seja mais de 8.000€ por colaborador. E a esmagadora maioria das PME nunca verificou se os candidatos que entrevistou se enquadram.

Repara no que isto faz a uma decisão de contratação. Aquela vaga que não abriste porque a conta não fechava por 100€ pode fechar perfeitamente se o candidato certo estiver na condição certa. E note-se a ironia: o benefício aplica-se a quem tem menos experiência, que é exatamente o perfil que as PME evitam contratar por medo do custo de formação. O Estado está a subsidiar precisamente a contratação que tu recusas por instinto.

Os requisitos são concretos e vale a pena conhecê-los antes de abrir a vaga. O contrato tem de ser sem termo, a empresa tem de ter a situação contributiva e tributária regularizada e sem atrasos nas retribuições, e tem de haver criação líquida de emprego, ou seja, no mês do pedido tens de ter mais trabalhadores do que a média dos 12 meses anteriores. Substituir quem saiu não conta.

E há o detalhe que faz toda a diferença: a redução tem de ser requerida na Segurança Social Direta no prazo de 10 dias a contar do início do contrato. Passado esse prazo, perdeste o benefício desse contrato. Fica ainda a nota de que a contratação de desempregados de muito longa duração dá isenção total da TSU patronal durante 3 anos, e não apenas metade.

Há outros caminhos legítimos que não passam por baixar salários. O subsídio de refeição em cartão, que já vimos. Benefícios com enquadramento fiscal próprio. E há a componente que não custa dinheiro nenhum e que retém melhor do que muitos aumentos, matéria do salário emocional, que não é uma alternativa ao dinheiro mas é uma alavanca que quase ninguém puxa.

Perceber esta camada, e olhar para o custo de pessoal como uma estrutura que se desenha em vez de uma fatura que se recebe, é exatamente o trabalho que a imersão CHECKMATE: Gestão 2.0 faz com empresários que já perceberam que a maior linha de custo da empresa deles nunca foi gerida, foi apenas paga.

O que fazer com este número

Conhecer o custo por hora produtiva não serve para te deprimir, serve para três decisões concretas.

  • Preço. Se sabes que uma hora te custa 15€, sabes que vender a 20€ te deixa 5€ para cobrir estrutura, risco e lucro, e que isso não chega. É a conta que transforma uma discussão sobre preço numa conversa sobre aritmética.

  • Contratar ou não. A pergunta deixa de ser "posso pagar 1.000€" e passa a ser "esta pessoa consegue gerar mais de 25.000€ de margem por ano". São perguntas completamente diferentes e só a segunda é a certa.

  • Onde está a fuga. Se a utilização produtiva é de 60% e não de 75%, o problema não é o custo do trabalho, é a organização. Nenhuma renegociação de salário resolve 15 pontos de utilização perdida, e é matéria da gestão de custos que quase nunca é vista assim.

E há uma quarta, que é a mais difícil: este número muda a conversa sobre despedir. Um colaborador que não gera 25.000€ de margem não é um problema de atitude, é uma decisão de gestão adiada, e conhecer o número tira-lhe a ambiguidade emocional que faz com que essas decisões demorem anos.

Como usar estes números

Os valores deste artigo dividem-se em dois tipos, e convém saber qual é qual. Uns são regra, iguais para toda a gente: os 23,75% de TSU patronal, os 14 meses, os 22 dias de férias, as 40 horas de formação, os limites do subsídio de refeição e a extinção das entregas para o FCT. Esses podes usar tal como estão.

Outros são variáveis tuas e têm de ser medidos: o prémio do seguro, que depende da atividade e da sinistralidade, a taxa de utilização produtiva, e o peso de espaço, equipamento e gestão. Refaz a conta com esses três substituídos pelos teus números e terás o custo real da tua empresa, não o de um exemplo. E antes de decidir sobre pessoas, confirma a mecânica concreta do que entra e não entra na base de incidência com o teu contabilista, porque é aí que estão os detalhes que nenhum texto genérico apanha.

A tabela que devias ter

Vale a pena arrumar tudo num sítio, com um salário de 1.000€ como base, para veres a estrutura em vez de números soltos:

Componente

Por ano

Por mês

Salário (14 meses)

14.000€

1.166,67€

TSU patronal (23,75%)

3.325€

277,08€

Seguro de acidentes (≈1%)

140€

11,67€

Subtotal encargos diretos

17.465€

1.455,42€

Subsídio de refeição (estimado)

≈2.500€

≈208€

Total folha

≈20.000€

≈1.663€

Espaço, equipamento, gestão (+25%)

≈5.000€

≈417€

Custo total real

≈25.000€

≈2.080€

Olha para a última linha e para a primeira. O contrato diz 1.000€. A realidade diz 2.080€. O multiplicador é de mais do dobro, e não há nada de excecional nesta empresa: é uma empresa de escritório normal, com um seguro barato e sem regalias extraordinárias.

E é por isto que a conversa "não posso pagar mais 100€ a este colaborador" está quase sempre mal enquadrada. Mais 100€ de salário não custam 100€, custam cerca de 166€ com encargos, e talvez 208€ com tudo. Quem negoceia aumentos sem saber isto está a negociar com um número que não existe. E o mesmo raciocínio aplica-se ao calendário: os subsídios provisionam-se mensalmente em vez de se tratarem como surpresas de junho e novembro, que é a lógica que atravessa toda a gestão de tesouraria.

Provisionar, e porque é que quase ninguém o faz

Aqui está um erro de tesouraria que mata empresas rentáveis e que não é um erro de cálculo, é de hábito.

Os subsídios de férias e de Natal existem o ano inteiro e pagam-se em dois momentos. Uma empresa que não os provisione mensalmente vai ter, em junho e em novembro, uma saída de caixa equivalente a um mês inteiro de salários, mais a TSU respetiva, num mês em que a faturação é a de sempre.

A defesa é banal: dividir o encargo anual por 12 e tratar cada duodécimo como um custo do mês, mesmo que o dinheiro só saia depois. Não é contabilidade criativa, é o que a contabilidade já faz. O problema é que a tesouraria de muita PME não segue a contabilidade, segue o extrato, e o extrato só vê o subsídio no dia em que ele sai.

Repara no que isto produz. Uma empresa que fecha o ano com lucro e passa dois meses por ano em aperto não tem um problema de rentabilidade, tem um problema de calendário que se resolvia com uma conta separada e uma transferência mensal. E a razão pela qual não se resolve é sempre a mesma: em janeiro parece longe, e em junho já é tarde.

O que custa acabar

Falta a parcela que ninguém orça e que aparece no pior momento possível.

Uma relação de trabalho tem um custo de saída, e ele existe independentemente de quem decide sair. Se és tu a terminar, há regras, prazos, procedimentos e, consoante a via, compensação. Se é ele, tens de substituir, e substituir tem custo próprio.

O custo de substituição é o que ninguém mede e é frequentemente maior do que a compensação. Tens o processo de recrutamento, que consome tempo de gente cara. Tens o período em que a vaga está aberta e o trabalho não se faz ou se distribui por quem já estava cheio. Tens a rampa do novo, que custa desde o dia um e produz mais tarde. E tens o conhecimento que saiu pela porta e que ninguém tinha documentado.

Em funções qualificadas, a soma disto tudo anda com frequência acima de meio ano de salário, e pode ultrapassar um ano inteiro em posições onde a curva de aprendizagem é longa. Isto significa que reter alguém competente com um aumento de 5% pode ser o melhor investimento financeiro que a tua empresa faz nesse ano, e a conta nunca é feita porque o aumento aparece no orçamento e a substituição não aparece em lado nenhum.

É a mesma lógica que atravessa toda a gestão de recursos humanos quando ela é tratada como função de gestão e não como departamento administrativo: as decisões sobre pessoas têm um custo financeiro que raramente aparece na linha onde é decidido.

Contratar com a conta na mão

Se este artigo servir para uma coisa, que seja mudar a pergunta que fazes antes de contratar.

A pergunta errada é "posso pagar este salário?". Consegues quase sempre, e é por isso que é uma pergunta inútil. A pergunta certa é quanto é que esta pessoa tem de gerar para valer a pena, e ela obriga-te a três verificações que quase ninguém faz.

Qual é a margem de contribuição da tua empresa? Se vendes serviços com 40% de margem, um colaborador de 25.000€ de custo tem de gerar 62.500€ de faturação só para se pagar. Só para se pagar, sem contribuir com nada para a estrutura nem para o lucro.

Em quanto tempo é que ele chega lá? Se demora seis meses a ser produtivo, o primeiro ano dele é deficitário por construção, e isso tem de estar previsto na tesouraria em vez de aparecer como surpresa em março.

O que acontece se não resultar? Contratar é uma decisão com custo de reversão, e a maioria das pessoas decide como se não tivesse. A via contratual escolhida altera esse custo de forma significativa, e é matéria que os tipos de contrato de trabalho tratam com o detalhe que a decisão exige.

Só depois destas três é que faz sentido pensar em quem contratar, que é o território de contratar bem e onde toda a gente começa, porque é a parte interessante.

O custo que não é custo

Fica uma correção de perspetiva, porque um artigo que passa 4.000 palavras a somar encargos corre o risco de deixar uma ideia errada.

Um colaborador não é um custo. É um investimento com um retorno que se mede, e o facto de a contabilidade o registar numa linha de gastos é uma convenção contabilística e não uma verdade económica. A prova é simples: se as pessoas fossem apenas custo, a empresa mais rentável do mundo seria a que não tem ninguém.

O que este artigo defende não é que contratar é caro. É que contratar sem saber o número é irresponsável, e que a mesma pessoa pode ser o melhor ou o pior investimento da tua empresa consoante duas coisas que dependem inteiramente de ti: se ela está no sítio certo, e se tu sabes quanto ela custa e quanto gera.

Empresas que conhecem este número contratam mais e melhor, não menos. Porque param de decidir por medo, e passam a decidir por conta. O medo diz não a quase tudo, porque na ausência de dados o cérebro assume o pior. A conta diz sim quando faz sentido e não quando não faz, e essa distinção vale mais do que qualquer poupança de encargos.

O mesmo custo, negócios diferentes

Fica uma consideração que muda a leitura de tudo o que ficou acima, e que raramente se faz.

O custo por hora produtiva significa coisas opostas consoante o negócio, e confundi-los é a origem de más decisões nos dois sentidos.

Numa empresa de serviços que vende tempo, consultoria, advocacia, contabilidade, agências, o custo por hora é literalmente o custo do produto. Cada hora que faturas tem um custo direto identificável, e a margem é a diferença entre o que cobras e aqueles 15€. Aqui, um erro de 50% no cálculo é um erro de 50% no preço, e é fatal.

Numa empresa de produto, o mesmo colaborador é um custo de estrutura que se dilui com o volume. A hora dele não se imputa a nada em concreto, e a pergunta muda: não é quanto custa a hora, é quantas unidades tens de vender para pagar aquela pessoa. Um erro no cálculo não te estraga o preço, estraga-te o ponto de equilíbrio.

E numa empresa onde a pessoa não produz diretamente, alguém de administrativo, de qualidade, de gestão, o cálculo por hora é quase irrelevante e substitui-se por outro: o que é que acontece se essa função não existir. É a conta mais difícil de todas e a que menos se faz, e é a razão pela qual as funções de suporte são as primeiras a ser cortadas numa crise e as últimas a ser avaliadas com rigor.

A conta é a mesma, a decisão que ela informa não é, e aplicar a lógica de uma empresa de serviços a uma empresa de produto é uma forma eficiente de chegar a conclusões erradas com aritmética correta.

Conclusão

Conclusão

Há uma assimetria neste tema que explica porque é que empresas competentes o ignoram durante anos. O custo do trabalho é a maior linha da maioria das PME de serviços, e é também a única que chega já calculada: alguém processa, alguém paga, e ninguém tem de decidir nada. Todas as outras linhas exigem escolhas, e por isso recebem atenção. Esta chega feita, e por isso passa despercebida, apesar de ser aquela onde um erro de leitura contamina o preço, a margem e a decisão de contratar, tudo ao mesmo tempo e durante anos. Se ficares com um número, que seja o que menos aparece: não é o salário, é o custo por hora produtiva, e para a maioria das empresas é mais do dobro daquilo que os donos julgam. Faz essa divisão hoje, com os teus números, num guardanapo. Vais precisar de dez minutos e vais descobrir que uma parte do que vendes está a ser vendida abaixo do custo, não por má negociação, mas porque ninguém alguma vez soube qual era o custo. E depois de o saberes, já não consegues voltar a fazer um orçamento como fazias antes, que é precisamente a razão pela qual vale a pena fazê-lo.

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