Negócios
Última Atualização:


Rafael Parreira
A escolha do horizonte temporal não é arbitrária. Trinta dias é curto demais: mostra o que vai acontecer na próxima semana mas não dá tempo suficiente para reagir a problemas que se estão a formar. Doze meses é longo demais para ser preciso: as variáveis mudam demasiado e a previsão perde fiabilidade a partir do terceiro mês. O horizonte de 90 dias é o ponto de equilíbrio entre visibilidade e precisão.
Os 90 dias funcionam porque cobrem exactamente um ciclo completo de operação para a maioria das PME. Incluem pelo menos uma data de pagamento do IVA (mensal ou trimestral), dois a três ciclos de salários, dois a três ciclos de pagamento a fornecedores, e um período suficiente para que as facturas emitidas hoje se transformem (ou não) em dinheiro na conta. Segundo o European Payment Report 2025 da Intrum Portugal, o prazo médio de pagamento B2B em Portugal é de 60 dias, com apenas 14% das empresas a pagar a 30 dias. Isto significa que uma factura emitida hoje vai, em média, transformar-se em dinheiro daqui a dois meses, e esse desfasamento é exactamente o que o orçamento de tesouraria a 90 dias torna visível e gerível.
O segundo motivo é operacional. Noventa dias dão ao empresário tempo suficiente para agir quando a previsão mostra um problema: negociar com fornecedores, antecipar cobranças, activar uma linha de crédito, ou adiar um investimento. Trinta dias é demasiado pouco para muitas destas acções. Sessenta dias é melhor mas não cobre o ciclo de IVA. Noventa é o mínimo que permite ao empresário ver, decidir, e agir antes de o problema se materializar na conta bancária.
O terceiro motivo é estratégico. O orçamento de tesouraria a 90 dias é o documento que permite ao empresário dizer sim ou não a oportunidades com fundamento financeiro em vez de com intuição. Um cliente grande pede uma proposta que exige investimento antecipado? O orçamento de tesouraria mostra se a empresa tem liquidez para financiar esse projecto sem comprometer os pagamentos correntes. A empresa quer contratar mais uma pessoa? O orçamento mostra se os próximos três meses de tesouraria suportam o custo adicional. Sem esta visibilidade, o empresário decide com base no saldo de hoje, que é uma fotografia de um momento, em vez de decidir com base na trajectória dos próximos 90 dias, que é um filme com enredo previsível.
A estrutura do orçamento de tesouraria
O orçamento de tesouraria não é a demonstração de resultados nem o balanço. Não mede lucro. Não mede activos. Mede uma coisa e uma coisa apenas: quanto dinheiro vai entrar, quanto vai sair, e quanto vai sobrar (ou faltar) em cada semana dos próximos 90 dias. A diferença fundamental face aos outros mapas financeiros é que o orçamento de tesouraria usa o princípio de caixa (quando o dinheiro efectivamente entra ou sai da conta), não o princípio de acréscimo (quando a receita é reconhecida contabilisticamente).
A construção segue cinco blocos que qualquer empresário pode montar numa folha de cálculo em menos de duas horas.
Bloco 1: o saldo inicial
O ponto de partida é o saldo bancário real no momento em que a previsão começa. Não é o saldo contabilístico (que pode incluir cheques emitidos mas não descontados, transferências pendentes, ou movimentos que ainda não foram processados). É o valor que aparece quando o empresário abre o homebanking e olha para o saldo disponível. Se a empresa tem mais do que uma conta bancária, o saldo inicial é a soma de todas.
Bloco 2: as entradas previstas
As entradas são organizadas por fonte e por semana. As mais comuns numa PME incluem cobranças de facturas emitidas (a fonte principal para a maioria das empresas), vendas a pronto (receita que entra no momento da venda, como retalho ou eCommerce), recebimentos recorrentes (contratos mensais, retainers, rendas), reembolsos e devoluções de impostos (IVA a recuperar, benefícios fiscais), e entradas de financiamento (prestações de empréstimos aprovados, entradas de capital).
O ponto crítico das entradas é a data de recebimento, não a data de facturação. O empresário que regista uma factura de 10.000€ emitida hoje como entrada desta semana está a mentir à previsão, porque essa factura só se transforma em dinheiro quando o cliente paga, e o cliente pode pagar a 30 dias, a 60 dias, ou a 90 dias. A previsão deve usar a data realista de recebimento, baseada no comportamento histórico de cada cliente e não no prazo contratual, que é muitas vezes uma ficção. O cliente que tem prazo de 30 dias mas que paga sistematicamente a 50 dias deve ser registado a 50 dias na previsão. O controlo de gestão que alimenta o orçamento de tesouraria precisa desta honestidade radical para produzir previsões fiáveis.
Bloco 3: as saídas previstas
As saídas são igualmente organizadas por categoria e por semana. As categorias mais relevantes para uma PME são salários e encargos sociais (a saída mais previsível e mais pesada na maioria das empresas, paga entre o dia 25 e o dia 1 do mês seguinte, com a Segurança Social devida até ao dia 20), rendas e utilidades (valores fixos, datas conhecidas), fornecedores (pagamentos com datas contratuais, que o empresário deve registar na semana em que efectivamente vai pagar, não na semana em que recebe a factura), impostos (IVA mensal ou trimestral, IRC, IRS retido, pagamentos por conta, com datas de vencimento conhecidas com meses de antecedência), prestações de crédito (valores e datas fixos), e despesas variáveis (viagens, marketing, manutenção, imprevistos).
As despesas variáveis são o ponto onde a maioria das previsões falha. O empresário tende a subestimá-las porque são, por definição, irregulares e imprevisíveis. A solução é analisar os últimos 12 meses de extracto bancário, calcular a média mensal de despesas variáveis, e incluir esse valor como linha fixa na previsão, com uma margem de segurança de 10% a 15%. É melhor prever a mais e ter uma surpresa positiva do que prever a menos e descobrir que o dinheiro não chega.
Bloco 4: o saldo semanal e o saldo acumulado
Para cada semana, o cálculo é simples: saldo inicial + entradas previstas - saídas previstas = saldo final da semana. O saldo final de uma semana é o saldo inicial da semana seguinte. O resultado é uma linha temporal de 13 semanas (90 dias) que mostra exactamente em que semana o saldo estará mais alto, em que semana estará mais baixo, e se em algum momento ficará negativo ou abaixo do nível mínimo de conforto que o empresário define para a empresa.
O nível mínimo de conforto é uma decisão do empresário, não um valor universal. Para empresas com receita previsível e recorrente (subscrições, contratos de longo prazo), o mínimo pode ser um mês de custos fixos. Para empresas com receita irregular ou sazonal, o mínimo deveria ser dois a três meses. O importante é definir um valor e monitorizar se o saldo previsto cai abaixo dele em algum momento dos próximos 90 dias, porque essa queda é o sinal de alerta que exige acção imediata.
Bloco 5: os cenários
O orçamento de tesouraria que só tem um cenário é um exercício de optimismo disfarçado de planeamento. A previsão base (cenário realista) assume que os clientes pagam nos prazos habituais, que as vendas se mantêm no nível actual, e que não surgem despesas inesperadas. Mas a realidade raramente corresponde ao cenário base. O empresário deve construir pelo menos dois cenários adicionais: um cenário pessimista (o maior cliente atrasa 30 dias, as vendas caem 20%, surge uma despesa imprevista significativa) e um cenário optimista (um cliente paga antecipadamente, as vendas crescem 10%, uma despesa prevista não se concretiza). A comparação dos três cenários mostra ao empresário a amplitude da incerteza e permite-lhe preparar planos de contingência para o pior caso em vez de ser apanhado de surpresa.
O orçamento de tesouraria é tão bom quanto os dados que o alimentam. Uma previsão baseada em estimativas vagas é pouco melhor do que não ter previsão nenhuma. Uma previsão baseada em dados reais, actualizados, e honestos é uma ferramenta de decisão poderosa.
As seis fontes de dados que alimentam uma previsão fiável são:
O mapa de contas a receber (aged receivables, ou antiguidade de saldos de clientes), que mostra quanto está por cobrar, de quem, e há quanto tempo está em atraso;
O mapa de contas a pagar (aged payables), que mostra quanto está por pagar, a quem, e em que data;
O calendário fiscal da empresa (com todas as datas de entrega de impostos e contribuições para os próximos 90 dias);
O pipeline comercial (propostas em negociação que podem gerar receita nos próximos 90 dias, com probabilidade de fecho estimada);
O histórico de cobranças dos últimos 12 meses (que revela padrões de sazonalidade, prazos reais de pagamento por cliente, e percentagem de incobráveis);
O plano de investimentos e de contratações previsto para o período (despesas extraordinárias que não aparecem no histórico mas que vão acontecer).
O mapa de contas a receber merece atenção especial porque é a fonte de erro mais comum. Segundo o European Payment Report 2026 da Intrum, 60% das empresas em Portugal pagam tarde aos seus fornecedores porque também recebem fora de prazo, e o desfasamento entre o prazo acordado e o pagamento real B2B aumentou de 16 dias para 20 dias entre 2023 e 2026. Isto significa que o empresário que regista as entradas na data contratual de pagamento está a sobrestimar a tesouraria em 20 dias, o que pode ser a diferença entre um mês folgado e um mês de pânico. A previsão deve usar os prazos reais, não os contratuais.
A rotina semanal de 15 minutos
O orçamento de tesouraria não é um documento que se constrói uma vez e se guarda na gaveta. É um instrumento vivo que deve ser actualizado todas as semanas, idealmente à sexta-feira ao final da tarde, quando a semana de trabalho termina e os dados da semana estão completos.
A rotina semanal segue quatro passos que, com prática, demoram 15 minutos.
O primeiro passo é actualizar o saldo real. O empresário verifica o saldo bancário actual e compara-o com o que a previsão tinha projectado para esta semana. Se o saldo real é superior ao previsto, a previsão foi conservadora (bom sinal). Se é inferior, algo correu diferente do previsto e precisa de ser investigado: um recebimento que não entrou, uma despesa que não estava prevista, ou uma estimativa que estava errada.
O segundo passo é ajustar as próximas semanas. Com base na informação mais recente (facturas emitidas durante a semana, pagamentos recebidos, novos compromissos assumidos), o empresário actualiza as entradas e saídas previstas para as semanas seguintes. Uma factura grande emitida na quarta-feira é adicionada às entradas da semana em que se espera receber. Um fornecedor que avisou que vai antecipar a cobrança é movido para a semana correcta.
O terceiro passo é estender o horizonte. Cada semana que passa remove uma semana do início da previsão. O empresário adiciona uma semana nova no final para manter os 90 dias completos. Esta semana nova é a mais incerta (está a 13 semanas de distância) e deve usar estimativas baseadas no padrão das semanas anteriores.
O quarto passo é identificar alertas. O empresário olha para o saldo acumulado das próximas 13 semanas e verifica: há alguma semana em que o saldo cai abaixo do nível mínimo de conforto? Há alguma semana em que o saldo fica negativo? Se sim, essa semana é o ponto de acção: o empresário tem agora X semanas para resolver o problema antes de ele acontecer. Pode antecipar cobranças, negociar prazos, adiar investimentos, ou activar uma linha de crédito. A antecipação é o que distingue a gestão de tesouraria profissional da gestão de tesouraria por intuição.
A gestão de tesouraria que se apoia num orçamento de tesouraria actualizado semanalmente transforma o empresário de alguém que reage a crises em alguém que as prevê e as evita.
Os impostos são a causa mais previsível e mais evitável de crises de tesouraria em PME. São previsíveis porque as datas de pagamento são conhecidas com meses ou anos de antecedência. E são evitáveis porque bastaria separar o dinheiro à medida que é gerado em vez de o gastar e depois não ter com que pagar.
O calendário fiscal de uma PME típica inclui obrigações que, somadas, representam saídas de tesouraria significativas e concentradas em datas específicas. O IVA é entregue e pago em regime trimestral (para empresas com volume de negócios inferior a 650.000€ no ano civil anterior) ou em regime mensal (obrigatório para empresas com volume de negócios igual ou superior a 650.000€). Em ambos os casos, a declaração periódica deve ser entregue até ao dia 20 do segundo mês seguinte ao período de referência (mês ou trimestre), com pagamento até ao dia 25 do mesmo mês. Para uma empresa no regime trimestral, isto significa quatro pagamentos por ano que podem representar dezenas de milhares de euros cada. Para uma empresa no regime mensal, são doze pagamentos mais frequentes mas de valor unitário inferior, o que exige uma gestão de tesouraria mais apertada mas com impactos menos concentrados. O IRC (pagamento por conta e pagamento especial por conta) tem datas em Julho, Setembro, e Dezembro. O IRS retido na fonte sobre salários é pago até ao dia 20 do mês seguinte. As contribuições para a Segurança Social (23,75% de encargo patronal sobre a massa salarial) são pagas até ao dia 20 do mês seguinte. A retenção na fonte sobre rendimentos de prestadores de serviços é paga mensalmente.
A prática mais eficaz, e a que já abordámos no guia de cash flow, é separar o dinheiro dos impostos no momento em que entra na conta. A componente de IVA de cada recebimento deve ser transferida automaticamente para uma conta dedicada que não se toca para despesas operacionais. O mesmo princípio aplica-se às retenções na fonte e às contribuições para a Segurança Social: calcular o valor no momento do pagamento do salário e separá-lo imediatamente. O empresário que mistura o dinheiro dos impostos com o dinheiro operacional está a usar dinheiro que não é seu para financiar a operação, e quando o Fisco bate à porta, descobre que já o gastou.
No orçamento de tesouraria, cada obrigação fiscal deve aparecer como uma saída fixa na semana exacta do vencimento, com o valor estimado com base na facturação do período correspondente. Não são surpresas. São compromissos com data marcada no calendário que só apanham desprevenido quem não planeou.
Quando a previsão mostra um buraco
O valor do orçamento de tesouraria não está nas semanas em que tudo corre bem. Está nas semanas em que a previsão mostra que o saldo vai ser insuficiente. Esses são os momentos que justificam todo o trabalho de construção e de manutenção da previsão, porque são os momentos em que o empresário tem a oportunidade de agir antes de a crise acontecer.
Quando a previsão mostra um défice a quatro ou mais semanas de distância, as opções são abundantes e baratas. Contactar clientes com facturas pendentes e negociar antecipação de pagamento (com ou sem desconto por pagamento antecipado). Contactar fornecedores e negociar extensão de prazo de 15 dias a 30 dias, o que desloca a saída para uma semana com mais folga. Adiar investimentos ou despesas discricionárias que podem esperar sem prejudicar a operação. Activar uma linha de crédito pré-aprovada (que tem custo de juro mas é incomparavelmente mais barata do que um descoberto não autorizado). Acelerar a facturação de trabalho já realizado mas ainda não facturado.
Quando a previsão mostra um défice a menos de duas semanas, as opções são mais limitadas e mais caras. O empresário está em modo de gestão de crise, não de prevenção. As negociações com fornecedores são mais difíceis porque a urgência é visível. O recurso a crédito de emergência tem custos mais elevados. E o stress emocional, que afecta a qualidade de todas as outras decisões do dia, é significativamente maior.
A diferença entre estas duas situações é exactamente o que o orçamento de tesouraria produz: tempo. Tempo para agir com calma, com opções, e com poder negocial. Quem descobre que não tem dinheiro no dia em que o pagamento é exigido não tem tempo nenhum, e paga o preço máximo por cada solução de emergência.
Ser optimista nas entradas e realista nas saídas. É a tendência natural do empresário: acreditar que os clientes vão pagar a tempo (apesar do histórico mostrar o contrário), que as vendas vão manter o ritmo actual (apesar de não haver garantia), e que os projectos em pipeline vão fechar (apesar de apenas 30% a 40% se concretizarem tipicamente). Nas saídas, é mais fácil ser realista porque os valores são conhecidos e as datas são fixas. O resultado é uma previsão enviesada que mostra mais dinheiro do que vai realmente existir, o que anula o propósito da ferramenta.
A regra é simples: nas entradas, usar os prazos reais de pagamento de cada cliente (não os contratuais), aplicar uma taxa de não-recebimento baseada no histórico (se 5% das facturas resultam em incobráveis, reduzir as entradas em 5%), e registar os projectos do pipeline com a probabilidade de fecho, não com o valor total. Uma proposta de 50.000€ com 40% de probabilidade entra na previsão como 20.000€, não como 50.000€.
Não actualizar semanalmente. A previsão que é feita na primeira segunda-feira do mês e guardada até ao mês seguinte é ficção disfarçada de planeamento. Em duas semanas, a realidade pode ter mudado o suficiente para tornar a previsão irrelevante: um cliente pagou antecipadamente, outro atrasou, uma despesa imprevista surgiu, uma venda que não estava no radar concretizou-se. A actualização semanal não é um luxo. É o que mantém a previsão viva e útil.
Esquecer os pagamentos anuais e trimestrais. O seguro anual da empresa, o pagamento do IRC, a renovação de licenças, a manutenção do equipamento, e os prémios de desempenho de final de ano são despesas que acontecem uma ou duas vezes por ano mas que representam saídas significativas. Se não estiverem na previsão, criam buracos que parecem imprevisíveis mas que eram totalmente previsíveis. No início de cada ano, o empresário deve listar todas as despesas não mensais com as respectivas datas e valores, e introduzi-las no orçamento de tesouraria como saídas fixas nas semanas correspondentes.
Não separar o certo do provável. Um salário é certo: o valor é fixo, a data é conhecida, e não há incerteza. Uma cobrança de um cliente é provável: o valor é conhecido mas a data é estimada e pode não se concretizar. Uma venda futura é possível: nem o valor nem a data são certos. Misturar estas três categorias na mesma coluna sem distinção produz uma previsão que parece precisa mas que não é. A solução é usar cores ou colunas separadas: verde para entradas certas (facturas vencidas de clientes com bom historial), amarelo para entradas prováveis (facturas emitidas mas ainda dentro do prazo), e vermelho para entradas possíveis (vendas do pipeline que ainda não se concretizaram). As decisões devem ser baseadas nas entradas verdes e amarelas, nunca nas vermelhas.
Não incluir uma margem de segurança. Mesmo a previsão mais rigorosa terá desvios. Despesas que não foram previstas, recebimentos que atrasam, ou vendas que não se concretizam são ocorrências normais que fazem parte de qualquer negócio. Uma margem de segurança de 10% a 15% nas saídas (ou seja, prever saídas 10% a 15% superiores às estimadas) cria um amortecedor que absorve os desvios normais sem transformar cada imprevisto numa crise. O empresário que calcula a previsão sem margem está a assumir que tudo vai correr exactamente como planeado, o que acontece aproximadamente nunca.
Da folha de cálculo ao sistema
Para a maioria das PME, uma folha de cálculo bem construída é tudo o que precisam para gerir o orçamento de tesouraria com eficácia. Não é preciso investir em software de tesouraria quando a empresa tem um volume de transacções que uma folha de cálculo consegue acomodar sem dificuldade.
A folha de cálculo mínima tem quatro elementos. Uma linha por semana (13 semanas = 90 dias). Uma secção de entradas com linhas para cada fonte de receita. Uma secção de saídas com linhas para cada categoria de despesa. E uma linha de saldo acumulado que é a soma do saldo inicial mais todas as entradas menos todas as saídas até essa semana. Se o saldo acumulado alguma vez fica vermelho (abaixo do mínimo definido pelo empresário), essa célula deve estar formatada com destaque visual para ser imediatamente visível.
Para empresas com maior volume de transacções ou com necessidades de previsão mais sofisticadas, existem soluções que automatizam parte do trabalho. Ferramentas como o GoCardless automatizam as cobranças por débito directo e eliminam a incerteza sobre quando o cliente vai pagar, porque o dinheiro é debitado automaticamente na data acordada. Softwares de facturação como o Moloni ou o InvoiceXpress integram-se com a conta bancária e podem alimentar automaticamente o mapa de contas a receber. E plataformas de business intelligence permitem criar dashboards de tesouraria que agregam dados de múltiplas fontes num painel visual actualizado em tempo real.
A tecnologia deve servir o processo, não substituí-lo. O empresário que investe em software de tesouraria mas que não tem a disciplina de actualizar os dados semanalmente vai ter um dashboard bonito com informação desactualizada, o que é pior do que uma folha de cálculo simples com dados reais, porque cria a ilusão de controlo onde controlo não existe.
O orçamento de tesouraria como ferramenta de decisão
O orçamento de tesouraria não é apenas um instrumento de prevenção de crises. É uma ferramenta de decisão estratégica que muda a forma como o empresário pensa sobre investimentos, sobre contratações, e sobre crescimento.
Decisão de investimento. A empresa quer comprar um equipamento de 25.000€. O orçamento de tesouraria mostra que, se pagar a pronto, o saldo vai cair abaixo do mínimo de conforto durante três semanas no segundo mês. A solução pode ser negociar pagamento em três prestações, adiar a compra para um mês em que a tesouraria esteja mais folgada, ou financiar a compra com leasing que distribui o custo ao longo de 24 ou 36 meses sem impacto concentrado na tesouraria.
Decisão de contratação. O empresário quer contratar mais uma pessoa com um salário bruto de 1.500€ (custo total para a empresa de aproximadamente 2.200€ por mês, incluindo encargos sociais, subsídios de férias e de Natal, e seguro). O orçamento de tesouraria mostra se os próximos três meses suportam este custo adicional de 6.600€ sem comprometer as obrigações existentes. Se não suportam, a contratação deve ser adiada ou financiada por um aumento de receita que já esteja confirmado (não apenas esperado). O simulador de salário líquido permite calcular o custo total exacto de cada contratação para incluir na previsão com precisão.
Decisão de crescimento. A empresa recebeu uma proposta para fornecer um cliente grande que exige 45 dias de trabalho antes do primeiro pagamento. O orçamento de tesouraria mostra se a empresa tem liquidez para financiar esses 45 dias sem comprometer os pagamentos aos outros clientes, aos fornecedores, e à equipa. Aceitar um projecto grande sem verificar se a tesouraria o suporta é a receita para o paradoxo do crescimento: a empresa cresce em facturação mas morre por falta de liquidez. O planeamento financeiro que integra o orçamento de tesouraria como ferramenta de decisão evita que o crescimento mate a empresa em vez de a alimentar.
Decisão de preço. Se a previsão mostra que a tesouraria está consistentemente apertada apesar de a empresa estar a facturar bem, o problema pode estar nos preços. Margens baixas geram lucro contabilístico mas pouco cash flow, porque o dinheiro que entra é quase todo consumido pelos custos. A precificação correcta deve garantir que cada venda gera cash flow operacional positivo suficiente para cobrir os custos variáveis, contribuir para os custos fixos, e alimentar a reserva de segurança.
A ligação entre o orçamento de tesouraria e as demonstrações financeiras
O orçamento de tesouraria não substitui as demonstrações financeiras tradicionais. Complementa-as com uma dimensão que nenhuma delas cobre adequadamente: o timing do dinheiro.
A demonstração de resultados mostra se a empresa é rentável (receitas superiores aos custos), mas não mostra se tem dinheiro na conta. Uma empresa pode ter lucro de 50.000€ no trimestre e estar com o saldo bancário a zero porque os clientes não pagaram e os custos já foram cobertos.
O balanço mostra a posição patrimonial (activos, passivos, e capital próprio), mas é uma fotografia de um momento específico que não mostra o que vai acontecer nas próximas semanas. O activo pode incluir 100.000€ em contas a receber que parecem saudáveis no balanço mas que, na realidade, incluem 20.000€ de clientes que estão a atrasar sistematicamente e que podem não pagar.
O orçamento de tesouraria mostra o filme, semana a semana, do que vai acontecer ao dinheiro na conta. É a ferramenta que transforma a informação estática das demonstrações financeiras em informação dinâmica e accionável. O empresário que usa as três ferramentas em conjunto (demonstração de resultados para medir rentabilidade, balanço para medir solidez patrimonial, e orçamento de tesouraria para medir liquidez futura) tem uma visão completa da saúde financeira da empresa que nenhuma das ferramentas individualmente consegue proporcionar.
A imersão CHECKMATE: Financeiro ensina exactamente a construção e a utilização integrada destas três ferramentas, com modelos práticos de orçamento de tesouraria que os empresários configuram durante a imersão e que começam a usar na semana seguinte.
A ferramenta de avaliação de empresas permite ao empresário perceber como a gestão de tesouraria disciplinada impacta directamente o valor da empresa, porque uma empresa com tesouraria previsível e controlada vale significativamente mais do que uma empresa com a mesma facturação mas com tesouraria caótica e imprevisível.
O orçamento de tesouraria a 90 dias não é um luxo de director financeiro nem um exercício académico de planeamento. É uma folha de cálculo com 13 colunas, uma actualização de 15 minutos à sexta-feira, e a disciplina de olhar para os números com honestidade em vez de com optimismo. E é a diferença entre o empresário que descobre na segunda-feira que não tem dinheiro para pagar os salários na sexta e o empresário que soube há seis semanas que este mês ia ser apertado e que teve tempo para negociar, para antecipar, e para resolver antes de o problema se tornar uma crise. Em Portugal, onde o prazo médio de pagamento B2B é de 60 dias, onde o Estado demora 73 dias a pagar, e onde 23% das PME admitem que poderão encerrar nos próximos dois anos se as condições não melhorarem, a gestão de tesouraria por intuição não é imprudência. É negligência. O empresário que constrói o seu orçamento de tesouraria esta semana, que o actualiza todas as sextas-feiras, e que usa os números para decidir em vez de para reagir, está a proteger a empresa com a ferramenta mais simples, mais barata, e mais eficaz que a gestão financeira alguma vez inventou. E essa protecção não tem preço, porque o custo de não a ter é, frequentemente, a empresa inteira.



