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Regina Santana
Durante meio século, a psicologia do trabalho ensinou que o melhor preditor isolado de desempenho profissional era a capacidade cognitiva. A entrevista aparecia mais abaixo nas tabelas, tratada com alguma condescendência.
Isso mudou. Uma reanálise das meta-análises anteriores, publicada no Journal of Applied Psychology, identificou que as correções estatísticas usadas durante décadas inflacionavam sistematicamente as estimativas de validade. Ao recalcular com correções mais conservadoras, o resultado inverteu a hierarquia estabelecida.
A síntese publicada pela sociedade profissional da área colocou as entrevistas estruturadas no topo, com validade operacional média de .42, acima dos testes de conhecimento do trabalho (.40), dos dados biográficos com chave empírica (.38), das amostras de trabalho (.33) e da capacidade cognitiva (.31). Os autores foram longe ao ponto de sugerir uma reformulação: em vez de tratar a capacidade cognitiva como preditor focal e avaliar os outros pela validade que acrescentam a ela, talvez faça mais sentido colocar a entrevista estruturada nesse lugar.
Para quem gere uma empresa, a leitura é confortável e enganadora ao mesmo tempo. Confortável porque valida o instrumento que já usas. Enganadora porque o número diz respeito a entrevistas estruturadas, e a esmagadora maioria das entrevistas que se fazem no mundo não é nada disso.
O detalhe que quase toda a gente ignora naquele número
Há uma segunda parte da conclusão que raramente é citada e que muda tudo.
Num comentário publicado na revista da mesma sociedade, 2 investigadores da área assinalaram que as entrevistas estruturadas apresentam, entre os melhores preditores, a maior variabilidade de validade: .42 com um desvio de .24. Nas suas palavras, um nível de inconsistência preocupante.
Traduzindo para linguagem operacional: não existe uma coisa chamada entrevista que funciona. Existe um intervalo enorme entre entrevistas que preveem desempenho com precisão notável e entrevistas que, apesar de terem uma folha com perguntas, não preveem praticamente nada. A distância entre esses extremos não está na simpatia do entrevistador nem na sua experiência. Está em decisões técnicas que quase ninguém toma conscientemente.
Os mesmos autores identificam a origem provável. A literatura descreve até 18 elementos distintos de estruturação de uma entrevista, e as organizações incorporam, em média, apenas 6. Quais 6 varia caso a caso, e ninguém verifica se são os que importam.
Comecemos pelo que não funciona, porque é o que se usa mais.
Existe um conjunto de perguntas que qualquer candidato com acesso à internet encontrou, leu, e para as quais preparou resposta. Não medem o que julgas que medem, medem preparação.
"Fala-me de ti." Mede capacidade de construir uma narrativa profissional. Útil para cargos onde essa competência é central, ruído para todos os outros.
"Quais são os teus pontos fracos?" A resposta correta está publicada em milhares de sítios: escolhe um defeito reconvertível em qualidade. Mede leitura de convenções sociais.
"Onde te vês daqui a 5 anos?" Mede a capacidade de dar uma resposta ambiciosa mas não ameaçadora. Quem responde com honestidade brutal costuma ser penalizado, o que torna a pergunta um teste de conformidade.
"Porque queres trabalhar connosco?" Mede quem fez pesquisa sobre a empresa na noite anterior. Pode ter valor como filtro mínimo de esforço, nenhum como preditor de desempenho.
"Como lidas com a pressão?" Ninguém responde mal. É uma pergunta com uma única resposta socialmente aceitável.
"Consideras-te uma pessoa organizada?" Autoavaliação direta de um traço desejável. A taxa de respostas negativas tende para zero.
O problema comum a todas é estrutural: são perguntas cuja resposta ótima é conhecida antecipadamente e não exige que exista qualquer facto por trás dela. O candidato não tem de ter feito nada. Só tem de saber o que se diz.
O achado que contraria tudo o que se ensina sobre insistir
Aqui entra a parte incómoda, e vem de investigação que mediu o fenómeno em vez de o supor.
Um estudo publicado no Journal of Applied Psychology desenvolveu e validou uma escala para medir comportamentos de embelezamento em entrevistas, ao longo de 6 estudos com 1.346 participantes. A taxonomia resultante tem 4 fatores e 11 subfactores com nomes que descrevem exatamente o que acontece na sala: embelezar, adaptar, melhorar o ajuste, construir, inventar, pedir emprestado, mascarar, distanciar, omitir, conformar-se e elogiar o entrevistador.
O resultado agregado: mais de 90% dos candidatos universitários da amostra praticaram alguma forma de embelezamento, embora a proporção que se envolve em comportamentos semanticamente mais próximos da mentira seja menor, num intervalo entre 28% e 75% consoante o tipo.
E depois vem a descoberta que interessa a quem conduz entrevistas. Segundo a divulgação da universidade que acolheu o estudo, os investigadores verificaram que as estratégias habitualmente usadas para reduzir respostas enganadoras, como perguntas de seguimento e de clarificação, aumentam de facto a quantidade de respostas falsas. A explicação dada pelo autor principal é simples e desmonta uma prática universal: insistir revela ao candidato aquilo em que o entrevistador está interessado, e o candidato passa a exagerar, embelezar ou ocultar para dizer o que percebeu que se quer ouvir.
Todas as vezes que fazes uma pergunta de seguimento improvisada, estás a dar pistas. O tom com que insistes, a parte da resposta que escolhes aprofundar, a expressão facial que fazes quando ouves algo que gostas: tudo isso é informação que o candidato usa para calibrar a resposta seguinte.
Isto não significa abandonar as perguntas de seguimento. Significa que elas têm de ser decididas antes da entrevista, iguais para todos os candidatos, e não improvisadas em função do que estás a achar da pessoa.
Passemos ao que funciona, e a distinção mais fina começa na redação.
Os investigadores que estudaram a variabilidade da validade apontam um problema quase invisível: a diferença entre desempenho típico, ou seja, o que a pessoa faz no dia a dia, e desempenho máximo, o melhor de que é capaz quando se esforça. A correlação entre ambos é baixa. São coisas diferentes.
Considera a pergunta que aparece em todos os guiões: fala-me de uma ocasião em que tiveste de lidar com um cliente irritado. Um candidato responde com um episódio banal de terça-feira. Outro responde com o pior caso da carreira, resolvido brilhantemente. Ambos responderam corretamente à pergunta. Estás a comparar 2 medições de construtos diferentes e a chamar-lhes a mesma coisa.
A correção é trivial e quase ninguém a faz. Decide antes qual deles queres medir e escreve a pergunta de forma a que só admita esse. Se queres desempenho máximo, a redação passa a ser algo como fala-me de uma ocasião em que foste particularmente eficaz a lidar com um cliente muito difícil. Se queres desempenho típico, perguntas pela última vez que aconteceu, não pela melhor.
Há mais 3 propriedades que separam uma pergunta útil de uma pergunta decorativa:
Tem de estar ancorada num facto verificável. Não em opinião sobre si próprio nem em intenção futura. Um episódio com data aproximada, pessoas envolvidas e resultado observável.
Tem de derivar de uma competência identificada na análise da função, não de uma lista genérica. Se não consegues explicar qual comportamento no trabalho aquela pergunta prevê, a pergunta não pertence ao guião. Este trabalho começa muito antes da entrevista, na definição do que a função exige, e é a mesma matéria-prima que sustenta um bom anúncio de emprego.
Tem de admitir respostas más. Se todas as respostas plausíveis são aceitáveis, a pergunta não discrimina. Uma pergunta que ninguém consegue responder mal não mede nada.
Traduzir as perguntas ensaiadas em perguntas que medem
Vale a pena mostrar a conversão, porque o exercício é mais simples do que parece e revela imediatamente o que estava a faltar.
O princípio é sempre o mesmo: substituir uma pergunta cuja resposta é uma opinião sobre si próprio por uma pergunta cuja resposta obriga a descrever factos que aconteceram, com detalhe suficiente para ser difícil inventar.
Em vez de perguntar se a pessoa é organizada, pede que descreva como estava organizado o trabalho dela no último emprego, que ferramentas usava, com que frequência as atualizava e o que acontecia quando falhava um prazo.
Em vez de perguntar como lida com a pressão, pede o período mais exigente dos últimos 2 anos, o que estava em causa, quantas pessoas estavam envolvidas e o que ficou por fazer.
Em vez de perguntar se sabe trabalhar em equipa, pede a última vez em que discordou de um colega sobre a forma de fazer alguma coisa, como se resolveu e qual foi o desfecho.
Em vez de perguntar quais são os pontos fracos, pede o último erro com consequência visível, o que aconteceu a seguir e o que mudou na forma de trabalhar depois disso.
Em vez de perguntar porque quer sair do emprego atual, pede que descreva o que teria de mudar naquele emprego para ficar.
Repara no que acontece com esta última. É a mesma informação que a pergunta original tenta obter, mas obriga a uma resposta específica em vez de uma queixa genérica ou de uma formulação diplomática decorada. E dá-te informação sobre o que vais ter de garantir para a pessoa não sair da tua empresa pela mesma razão.
A regra de ouro é a especificidade do pedido. Uma pergunta que peça "uma situação em que" recebe uma história construída. Uma pergunta que peça "a última vez em que" recebe um episódio real, porque a pessoa não teve tempo de escolher o melhor exemplo do repertório.
Isto tem um custo que convém antecipar: as respostas ficam menos brilhantes. Um candidato a descrever a última vez que algo correu mal soa menos impressionante do que o mesmo candidato a contar a sua melhor história. Estás a trocar espetáculo por informação, e essa troca só compensa se o critério de decisão estiver definido de antemão.
As 2 famílias de perguntas estruturadas medem coisas diferentes e não são intercambiáveis.
As perguntas de descrição comportamental pedem um episódio real do passado. Assentam no princípio da consistência comportamental: o melhor preditor de comportamento futuro é o comportamento passado em situação equivalente.
As perguntas situacionais apresentam um cenário hipotético e perguntam como a pessoa agiria. O guia oficial de avaliação e seleção da administração pública norte-americana dá um exemplo do formato: foste destacado para um projeto com colegas, reparas que vários estão a marcar passo, sabes que vão falhar o prazo, o que fazes.
A regra de escolha tem evidência por trás. O mesmo guia regista que as entrevistas de descrição comportamental mostram níveis de validade superiores quando a natureza do trabalho é altamente complexa, ou seja, em cargos profissionais e de direção. E há investigação a sugerir que algumas formas de entrevista estruturada perdem eficácia à medida que a complexidade do cargo sobe, o que exige que os cenários e as escalas de pontuação sejam construídos com complexidade proporcional.
Do outro lado, as perguntas situacionais funcionam melhor com candidatos sem experiência relevante, pela razão óbvia de que não é possível pedir um episódio passado a quem não o teve. A investigadora que estudou o embelezamento acrescentou um aviso sobre este formato: perguntas hipotéticas são mais versáteis e conseguem medir uma gama ampla de atributos, mas são um pouco mais propensas a respostas inventadas, porque o candidato não tem de sustentar a resposta com uma experiência concreta.
A tradução prática: para cargos com exigência técnica ou de gestão e candidatos com percurso, usa descrição comportamental. Para posições de entrada e candidatos sem histórico relevante, usa situacionais e aceita que estás a medir raciocínio, não comportamento.
A sobrecarga cognitiva que confundes com incompetência
Esta parte explica uma quantidade considerável de decisões erradas e quase nunca aparece em formações de recrutamento.
Responder a uma pergunta de descrição comportamental exige, pelo menos, 5 passos mentais encadeados:
Decifrar a pergunta;
Procurar na memória de longo prazo experiências relevantes;
Comparar essas experiências para escolher a melhor;
Recordar o máximo de detalhes sobre a escolhida;
Organizar tudo para entrega oral coerente.
A capacidade média de memória de trabalho é de cerca de 4 posições. Acrescenta o efeito do stress e a tendência para recorrer a atalhos mentais sob pressão. A convenção habitual, que é fazer a pergunta inteira de uma vez, tipicamente estruturada no formato situação, tarefa, ação e resultado, e esperar uma resposta completa e organizada quase de imediato, torna a tarefa exigente para razões que nada têm que ver com competência profissional.
O resultado é previsível: candidatos que pensam depressa em voz alta parecem melhores do que candidatos que pensam bem. E a distância entre os 2 grupos correlaciona-se com desempenho profissional apenas nas funções em que responder rápido sob pressão é parte do trabalho.
A alternativa proposta por quem estudou o problema vem de outro domínio: a recolha de testemunho ocular. Os profissionais da área guiam a recordação por passos pequenos, sem pressa, construindo a memória gradualmente em vez de exigirem o relato completo de uma vez. Aplicado a uma entrevista, isso significa abrir com uma frase que ative a memória antes de pedir o episódio, e depois conduzir com uma sequência de perguntas curtas e pré-definidas até isolar uma experiência concreta com todos os detalhes.
Se estivesses a avaliar alguém para uma função de suporte técnico, em vez de pedir de uma vez a descrição completa de uma situação em que resolveu um problema difícil, começarias por reconhecer que a pessoa terá lidado com muitos problemas complicados ao longo do percurso, e só depois avançarias, passo a passo, para o caso específico.
Não é gentileza. É reduzir a variância de erro que estás a medir sem querer.
Há um efeito colateral desta abordagem que compensa referir. Quando conduzes a recordação por passos, o candidato produz detalhes que não tinha preparado, porque não sabia que ia ter de os fornecer. Um episódio construído resiste bem a uma pergunta ampla e mal a uma sequência de perguntas concretas sobre quem estava presente, quanto tempo demorou, o que se decidiu e o que aconteceu na semana seguinte. Não é um interrogatório: é a diferença entre pedir a história e pedir os factos de que ela é feita.
Isto convive mal com o hábito de fazer muitas perguntas em pouco tempo. Um guião com 14 perguntas em 45 minutos garante respostas superficiais a todas. Um guião com 8 perguntas bem conduzidas produz material com que se consegue efetivamente pontuar. A tentação de cobrir tudo é o inimigo da profundidade, e num processo onde o objetivo é medir, profundidade vence cobertura.
O viés de que ninguém fala: estás a pagar por eloquência
Ligado ao ponto anterior, há um enviesamento estrutural em qualquer entrevista presencial, e ele não desaparece com escalas de pontuação bem construídas.
Toda a entrevista assenta pesadamente em comunicação oral. Algumas pessoas têm a capacidade natural de apresentar as suas experiências, opiniões e intenções como notáveis e promissoras, independentemente de o serem. Mesmo com escalas ancoradas em comportamentos, os entrevistadores não ficam imunes a este efeito, e existe investigação abundante a mostrar que as táticas de gestão de impressão são frequentes e eficazes mesmo em entrevistas estruturadas.
Quando a comunicação oral é competência central da função, como acontece em vendas ou em relações com clientes, isto é legítimo e faz parte da avaliação. Quando não é, transforma-se em erro de medição.
O exemplo dado pelos investigadores é claro. Imagina um candidato a uma função técnica de contabilidade, excelente em todos os aspetos do ofício, mas percecionado como algo distante e pouco expansivo na conversa. Pode ser ultrapassado por outro candidato mais vivo e interpessoalmente envolvente, mas tecnicamente inferior. A longo prazo, o primeiro contribuiria mais.
Antes de construir o guião, decide explicitamente se a eloquência é competência ou ruído nesta função. Se for ruído, precisas de contrapesos: uma amostra de trabalho, um exercício escrito, uma tarefa prática. Nenhuma redação de pergunta resolve isto sozinha.
As perguntas que a lei não te deixa fazer
Há um limite que antecede toda a discussão técnica e que é ignorado com uma frequência desconfortável, sobretudo em empresas sem departamento jurídico.
O Código do Trabalho estabelece, no artigo 17.º, que o empregador não pode exigir a candidato a emprego que preste informações relativas à sua vida privada, salvo quando estas sejam estritamente necessárias e relevantes para avaliar a aptidão para a execução do contrato de trabalho e seja fornecida por escrito a respetiva fundamentação. O mesmo artigo trata de forma separada e mais restritiva as informações relativas à saúde ou ao estado de gravidez, admitidas apenas quando particulares exigências inerentes à natureza da atividade o justifiquem, também com fundamentação escrita, e prestadas a médico, que só comunica ao empregador se a pessoa está ou não apta a desempenhar a atividade. A violação de qualquer destas regras constitui contraordenação muito grave.
O artigo 19.º acrescenta uma proibição sem exceções: o empregador não pode, em circunstância alguma, exigir a uma candidata a realização ou apresentação de testes ou exames de gravidez.
As perguntas que caem deste lado da linha são conhecidas e continuam a ser feitas:
Pretende ter filhos nos próximos anos.
Como é a situação familiar e quem fica com as crianças quando adoecem.
Tem alguma doença ou toma alguma medicação.
Qual é a orientação partidária, sindical ou religiosa.
Com quem vive e qual é a situação afetiva.
Além do risco jurídico, há aqui um argumento técnico que costuma convencer mais depressa quem gere: nenhuma destas perguntas prevê desempenho. Nada do que se obtém com elas entra numa escala de pontuação defensável, e o efeito prático é introduzir no processo informação que só serve para enviesar a decisão em direções que a lei proíbe e que a evidência não justifica.
Uma nota de prudência: o que fica escrito aqui descreve o regime em traços gerais e não substitui validação por quem responde tecnicamente por matéria laboral, sobretudo quando exista alguma exigência específica da atividade que possa justificar exceção.
A escala de pontuação importa mais do que a pergunta
Chegamos ao elemento que mais separa entrevistas com validade alta de entrevistas com validade nula, e é o menos glamoroso de todos.
O guia da administração pública norte-americana define o extremo superior de estrutura de forma inequívoca: todos os candidatos recebem exatamente o mesmo conjunto pré-definido de perguntas principais e de seguimento, e são pontuados segundo referenciais de proficiência. Interviews com maior grau de estrutura mostram simultaneamente maior validade, maior fiabilidade entre avaliadores, maior concordância e menor impacto adverso sobre grupos protegidos.
O que isto exige na prática, e que quase ninguém faz:
Uma escala por pergunta, não uma impressão global no fim. Pontuar cada resposta imediatamente após a ouvir.
Âncoras comportamentais escritas antes de conhecer os candidatos. Não "1 a 5", mas uma descrição concreta do que constitui uma resposta de nível 1, de nível 3 e de nível 5 para aquela pergunta específica.
Pontuação individual antes de qualquer discussão. Cada avaliador classifica sozinho, e só depois se compara.
Combinação aritmética das pontuações, com discussão reservada para resolver discrepâncias significativas, não para chegar a consenso sobre uma sensação partilhada.
Esta última é a que mais custa a aceitar e a que mais valor produz. Quando um grupo discute antes de pontuar, a opinião expressa primeiro ancora as restantes e o resultado deixa de ser a média de várias avaliações independentes para passar a ser a opinião de quem falou primeiro com mais convicção. O mecanismo é o mesmo que degrada qualquer processo de tomada de decisão em equipa e a correção também: registar posições em privado antes de abrir a conversa.
Vale acrescentar que os painéis têm vantagem mensurável sobre entrevistas separadas conduzidas por pessoas diferentes, sobretudo em termos de consistência entre avaliadores. Mas essa vantagem evapora-se se o painel funcionar como conversa em vez de como conjunto de medições independentes.
O que mudou com a entrevista assíncrona e a pontuação automática
Uma nota sobre um desenvolvimento recente, porque altera parte da conta.
A entrevista gravada sem entrevistador do outro lado, com perguntas fixas e tempo limitado, resolve por construção alguns problemas descritos aqui: elimina as perguntas de seguimento improvisadas, garante que todos os candidatos recebem exatamente o mesmo estímulo, e impede que a reação do entrevistador dê pistas sobre a resposta desejada.
Em contrapartida, agrava outros. A ausência de interação elimina qualquer possibilidade de reduzir a sobrecarga cognitiva com condução gradual, e o peso da desenvoltura perante uma câmara torna-se maior, não menor. Quanto à pontuação automática das respostas, o mesmo comentário académico que assinalou a variabilidade das entrevistas estruturadas identificou explicitamente o advento da entrevista digital e da classificação por sistemas automáticos como um dos fatores cujo efeito sobre a validade ainda está por determinar.
Quem estiver a ponderar estas ferramentas ganha em perceber primeiro o que a inteligência artificial no recrutamento consegue e não consegue fazer, sobretudo porque a promessa comercial costuma correr bastante à frente da evidência disponível.
Verificar o que não se consegue medir na sala
Falta uma peça, e é a que mais depressa se abandona por falta de tempo.
A entrevista mede o que a pessoa consegue descrever. Não mede o que outras pessoas observaram ao longo de meses de convivência profissional. Essa informação existe e é acessível, e a maioria das empresas ou não a procura ou procura-a mal.
Procurar mal significa telefonar a uma referência dada pelo candidato e fazer perguntas genéricas de opinião. Ninguém indica uma referência que vá dizer mal. E perguntar se a pessoa era boa profissional recebe sempre a mesma resposta.
Procurar bem significa transportar para esta conversa exatamente a mesma lógica do resto do processo:
Perguntar sobre factos, não sobre impressões. Que funções concretas tinha, que resultados são atribuíveis a essa pessoa, que autonomia tinha nas decisões, como estava estruturada a equipa.
Perguntar sobre o contexto de saída e sobre o que mudou na equipa depois disso.
Fazer a pergunta de calibração, que é a única que costuma produzir informação nova: numa escala de desempenho, onde é que esta pessoa se situava relativamente aos colegas na mesma função.
Confirmar as datas e funções contra o que foi declarado, porque a divergência aqui não é opinião, é facto verificável.
Vale ainda lembrar que a informação recolhida sobre candidatos é dado pessoal e está sujeita às regras de proteção de dados, o que significa que recolher, guardar e partilhar internamente estas notas exige o mesmo cuidado que qualquer outro tratamento de dados na empresa.
E há um limite honesto a assumir: a verificação de referências confirma ou desmente factos declarados e raramente muda uma decisão que estava bem fundamentada. O seu valor está em apanhar as divergências grosseiras, que são poucas mas caras.
Um guião mínimo que qualquer empresa consegue montar
Não é preciso departamento de recursos humanos nem orçamento. É preciso uma tarde antes de abrir o processo.
Lista 4 a 6 competências que separam desempenho bom de desempenho medíocre naquela função concreta. Não 12. Não competências genéricas de catálogo.
Escreve 2 perguntas por competência, ancoradas em factos e com o tipo de desempenho decidido de antemão.
Escreve as perguntas de seguimento para cada uma, e usa apenas essas.
Escreve as âncoras da escala para cada pergunta, com descrições concretas de resposta fraca, adequada e forte.
Fixa a ordem e usa-a com todos, sem exceção.
Pontua durante a entrevista, pergunta a pergunta.
Soma antes de discutir.
Este guião serve o mesmo processo em qualquer contratação futura para a mesma função, o que significa que o custo é único e o benefício recorrente. É também o que torna defensável qualquer decisão contestada, porque existe registo do que foi perguntado, do que foi respondido e de como foi pontuado.
Vale a pena articular isto com o resto do processo. A entrevista é uma peça, não é o processo inteiro, e quem tem interesse em montar tudo de forma coerente encontra o desenho completo em como contratar bem, desde a definição da função até à decisão final.
Porque quase nenhuma empresa faz isto
Falta explicar a razão pela qual um método com esta evidência a favor continua a ser minoritário. E a resposta não é ignorância.
O guia da administração pública norte-americana regista, quase de passagem, o dado que explica tudo: as entrevistas produzem reações mais favoráveis dos candidatos do que outros métodos de seleção, mas tanto os entrevistadores como os candidatos tendem a preferir formatos menos estruturados.
Ou seja, ambas as partes envolvidas gostam mais da versão que funciona pior. O entrevistador sente-se competente a ler pessoas e a estrutura retira-lhe esse prazer. O candidato prefere uma conversa onde possa conduzir a narrativa a um interrogatório idêntico para todos. Ninguém na sala quer o instrumento que prevê melhor.
A isto acresce um custo psicológico específico. Uma entrevista estruturada é chata de conduzir. Ler perguntas de uma folha, resistir à tentação de aprofundar o que te interessou, pontuar em silêncio enquanto a outra pessoa fala: nada disto se parece com a experiência de descobrir alguém. Parece burocracia, e é exatamente por parecer burocracia que funciona.
Os custos materiais, esses, são baixos. O desenvolvimento de uma entrevista estruturada é, segundo o mesmo guia, geralmente pouco dispendioso, e depende sobretudo da complexidade da função e do número de perguntas. O que custa é a disciplina.
Há ainda uma resistência de segunda ordem que aparece quando alguém tenta implementar isto numa empresa pequena, e vale a pena antecipá-la porque tem resposta. O argumento é que contratamos poucas pessoas por ano e não se justifica montar um processo destes.
A conta desmente o argumento. Uma empresa que contrata 4 pessoas por ano e erra numa delas suporta o custo do recrutamento perdido, dos meses de salário pagos a alguém que não estava a produzir, do tempo de gestão consumido em correções e conversas difíceis, do impacto na equipa que teve de compensar, e da eventual indemnização se o erro só for detetado depois do período experimental. Somado, o custo de um erro de contratação numa PME excede quase sempre o valor de vários dias de trabalho de preparação, e a preparação serve todas as contratações seguintes para a mesma função.
O que torna a resistência compreensível não é a economia, é a psicologia. Numa empresa pequena, quem contrata é frequentemente o dono, que confia no seu discernimento sobre pessoas precisamente porque foi esse discernimento que construiu a empresa. Pedir-lhe que substitua a intuição por uma folha de pontuação soa a desconfiança do seu próprio julgamento. A resposta honesta é que sim, é exatamente isso, e que a evidência disponível diz que essa desconfiança é justificada em todos os julgadores, por mais experientes que sejam.
O que fazer com a incerteza que sobra
Termino com a parte que nenhuma técnica resolve, e que vale a pena assumir em vez de fingir que não existe.
Uma validade de .42 é excelente para os padrões desta área e continua a significar que uma fração substancial do desempenho futuro não é explicada pelo que consegues medir numa entrevista. Vais errar. A questão é quantas vezes e quão caro.
Há 2 consequências práticas que decorrem daqui. A primeira é que o processo não pode terminar na assinatura. O período experimental existe precisamente para isto e é a única fase em que observas comportamento real em vez de relatos sobre comportamento, mas só serve se alguém definir com antecedência o que vai observar e em que momentos, em vez de o deixar correr e decidir no último dia.
A segunda é que a estrutura contratual pode ser desenhada em função do risco de erro. Quando a incerteza sobre um candidato é elevada, um contrato a termo com fundamento válido reduz o custo de uma decisão errada, desde que os requisitos legais estejam cumpridos e a intenção seja genuína e não um contorno.
E há uma terceira consequência, que não é sobre selecionar mas sobre não perder quem selecionaste bem. Uma entrevista bem construída também é o momento em que o candidato te avalia a ti, e aquilo que ficou combinado sobre progressão e condições determina quanto tempo a pessoa fica. Vale a pena chegar à conversa com clareza sobre o que existe em matéria de plano de carreira e sobre as componentes de salário emocional que a empresa oferece de facto, porque prometer o que não existe apenas adia o problema em alguns meses.
Este equilíbrio entre rigor no processo e capacidade de reter quem entra é, aliás, o terreno da imersão CHECKMATE: Liderança, onde a discussão sai da mecânica da seleção e passa para o que faz com que as pessoas certas queiram ficar depois de entrarem.
A entrevista tem um problema de reputação invertido. Toda a gente confia nela e quase ninguém a executa de forma que justifique essa confiança. O instrumento que a investigação identifica como o melhor preditor isolado de desempenho profissional é também aquele em que a distância entre a melhor e a pior execução é maior, e essa distância mede-se em decisões técnicas aborrecidas: perguntas escritas antes, iguais para todos, ancoradas em factos, com escalas definidas de antemão e pontuadas em silêncio antes de qualquer conversa. O que torna isto difícil não é a complexidade. É que tudo o que aumenta a validade da entrevista diminui o prazer de a conduzir. Ler perguntas de uma folha em vez de seguir a curiosidade, resistir a aprofundar aquilo que te fascinou na resposta anterior, pontuar antes de olhar para o colega do lado: é o oposto do que a intuição pede. Quem consegue tolerar esse desconforto durante 45 minutos por candidato compra, em troca, uma probabilidade substancialmente maior de estar a decidir sobre factos em vez de estar a decidir sobre uma sensação que se formou nos primeiros 2 minutos e que passou o resto da conversa a confirmar-se a si própria.



